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Depressão de Marcola se agravou, diz família; condição preocupa autoridades

21.jan.2020 - Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, é levado de prisão em Brasília para fazer exames médicos - Lucio Tavora/Xinhua/Folhapress
21.jan.2020 - Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, é levado de prisão em Brasília para fazer exames médicos Imagem: Lucio Tavora/Xinhua/Folhapress

Flávio Costa, Luís Adorno e Josmar Jozino

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL

04/06/2020 16h00Atualizada em 05/06/2020 19h46

Familiares de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital), afirmam que seu quadro de saúde mental se agravou desde que foram proibidas visitas no sistema penitenciário federal, em 19 de março deste ano.

Marcola emagreceu 20 kg desde que chegou à Penitenciária Federal de Brasília, em 22 de março de 2019.

Segundo familiares de Marcola, o preso entrou em depressão em 19 de março deste ano, quando as visitas nos presídios federais foram suspensas como parte das medidas de enfrentamento à covid-19. Desde então, o quadro de saúde dele se agravou.

Na ficha médica de Marcola enviada ao sistema prisional federal, na época de sua transferência, consta que ele faz uso do medicamento ansiolítico clonazepam, de uso controlado e identificado por tarja preta. Em abril, a esposa dele enviou um e-mail ao Depen afirmando que ele "teria perdido a razão de viver" e poderia cometer suicídio.

As condições de Marcola em presídios são tidas por autoridades de São Paulo e do governo federal como potencial bomba relógio. Essas insatisfações podem chegar a outros presos da cúpula do PCC e, consequentemente, aos integrantes da facção em liberdade, o que geraria preocupações para a segurança pública do país.

Em março deste ano, após perder quilos e reclamar da comida no sistema penitenciário federal, integrantes da cúpula do PCC fizeram uma "greve branca", que teve início na prisão federal de Brasília, mas consequências em todos os presídios paulistas. Em 11 de março, todos os presos de São Paulo se recusaram a ir a audiências em fóruns exigindo que Marcola tivesse melhores condições no cárcere.

Cartas de Marcola

A reportagem teve acesso com exclusividade a cinco cartas virtuais escritas por Marcola. As mensagens foram enviadas para a família dele nos dias 13, 20 e 26 de abril e nos dias 4 e 12 de maio deste ano.

Nas correspondências virtuais, Marcola diz que sente falta da mulher e dos filhos. Afirma ainda que a distância física e emocional que o separa da família "parte o coração dele".

Carta de Marco Willians Herbas Camacho para a mulher 3 - UOL - UOL
Imagem: UOL

No Dia das Mães deste ano, data tida como sagrada no sistema prisional, Marcola não pôde ver nem abraçar a mulher e os filhos. A família dele reivindica a realização de visitas virtuais para ter notícias do preso.

"Não existe nenhuma alternativa de termos uma visita virtual por causa do isolamento social e da covid-19. Me desespero porque meu marido se encontrava num quadro muito depressivo", diz Cynthia Camacho, mulher de Marcola.

Carta de Marco Willians Herbas Camacho para a mulher 5 - UOL - UOL
Imagem: UOL

A reportagem também teve acesso a outras mensagens virtuais escritas por presos para seus parentes.

Uma foi redigida por outro preso da Penitenciária Federal de Brasília no dia 13 de abril. O detento também é apontado como integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital).

O prisioneiro diz para a mãe dele que a ama. Nessa primeira linha da mensagem, ele expressa estar com saudades e pede paciência. Na segunda linha, orienta a família a ter cuidado com o coronavírus.

Na última linha o preso se despede, manda beijos para os familiares e fala que espera vê-los em breve. Também deseja paz e saúde para todos. As mensagens foram aprovadas pela direção da unidade.

A outra carta virtual à qual a reportagem teve acesso foi escrita por um preso também do PCC, recolhido na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

A mensagem também passou pelo crivo da direção da unidade e foi enviada no dia 22 de maio. O detento escreve para os filhos e pede para que lhe enviem por sedex um protetor solar, quatro revistas, seis livros, uma escova de dentes e um xampu.

Somente os pedidos feitos pelo presidiário ocuparam praticamente duas das três linhas da curtíssima carta virtual. Na última linha, ele se despede e pede para a família se cuidar.

Suspensão de visitas foi prorrogada

Na semana passada, o Ministério da Justiça decidiu prorrogar até o dia 22 a suspensão das visitas nas cinco penitenciárias federais do país por causa da pandemia de coronavírus.

As visitas de advogados nas penitenciárias federais também estão temporariamente proibidas. Advogados dos presidiários estão impedidos de falar com os clientes.

O único contato dos presidiários com seus familiares é por meio de uma carta virtual de no máximo três linhas. A mensagem, no entanto, antes de ser enviada pelo email do presídio, passa por análise.

O rigoroso esquema, chamado de "censura" por parentes de presidiários, visa evitar que o detento passe alguma mensagem ou recado sobre possível atividade criminosa para parceiros nas ruas.

A Lei de Execuções Penais garante a todo preso o direito de receber visitas de familiares.

"Dentro de uma situação de pandemia é razoável a suspensão das visitas, por um determinado período. Mas como não se sabe, quando voltaremos à normalidade trata-se de uma obrigação do Estado providenciar de algum modo que o preso tenha contato visual com sua família, nem que seja por meio de visitas virtuais", afirma o advogado criminalista Leonardo Pantaleão, que é também professor de direito e processo penal.

"A suspensão prolongada pode agravar a condição psicológica, não é benéfica e contraria o objetivo final da detenção que é o processo de ressocialização do apenado".

A perda de peso do chefe do PCC já havia sido revelada pelo UOL em reportagem de março. Ele foi transferido de São Paulo para o sistema penitenciário federal em fevereiro de 2019. Ele passou pela prisão de Porto Velho antes de ser levado para Brasília.

Desde o começo de sua estadia federal, Marcola reclama da qualidade e da quantidade das refeições servidas na prisão. Integrantes do PCC já ameaçaram, e alguns colocaram em prática, a realização de uma greve de fome, mesma tática utilizada no sistema prisional de São Paulo.

Após publicação da reportagem, o Depen respondeu aos questionamentos do UOL. Leia o comunicado:

"O DEPEN informa que as penitenciárias federais dispõem de um corpo de servidores que compõem equipes exclusivas nas diversas especialidades de saúde e reabilitação: médico clínico, médico psiquiatra, enfermeiro, técnico em enfermagem, psicólogo, dentista, auxiliar de saúde bucal, farmacêutico, assistente social, pedagogo e terapeuta ocupacional, tendo por base padrões humanos e humanizantes que se traduzem em ações tecnicamente competentes, intersetorialmente articuladas e socialmente apropriadas.

Devido ao período de pandemia e para garantir a saúde dos apenados, a pasta implementou procedimento de carta virtual. A medida garante os meios de comunicação entre os familiares e os presos, para a manutenção dos vínculos familiares, principalmente no atual período de isolamento social a que o país está submetido em decorrência da transmissão coletiva do Novo Coronavírus."

Ouça também o podcast Ficha Criminal, com as histórias dos criminosos que marcaram época no Brasil. Esse e outros podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e outras plataformas de áudio.

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