PUBLICIDADE
Topo

Segurança pública

Foz, outras duas mortes e agressões: ONU monitora 'ódio bolsonarista'

Jamil Chade
e

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em Genebra e em São Paulo

25/07/2022 04h00Atualizada em 25/07/2022 10h56

O assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda, morto a tiros na noite de 9 de julho pelo policial penal Jorge Guaranho enquanto comemorava o próprio aniversário de 50 anos com uma festa temática do PT em Foz do Iguaçu (PR), motivou o encaminhamento de uma denúncia à ONU com relatos de violência política motivada pelo "ódio bolsonarista" nos últimos quatro anos.

O documento, elaborado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, enumera uma série de 13 ataques atribuídos a bolsonaristas envolvidos em brigas políticas, motivação apontada pelo Ministério Público do Paraná para denunciar Guaranho por homicídio qualificado. Entre esses casos, outros dois assassinatos. O teor da denúncia foi revelado por Jamil Chade, colunista do UOL.

O deputado federal Orlando Silva (PC do B-SP), que assinou o documento, diz ver o assassinato de Marcelo Arruda como "o ápice de uma escalada de violência" protagonizada por eleitores do presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Espero que essa tragédia tenha servido de alerta para as autoridades. Mas o maior receio é que casos assim possam voltar a acontecer", disse em entrevista ao UOL.

Tiago Lisboa Mendonça, promotor do Ministério Público do Paraná responsável pela denúncia contra Guaranho pelo crime, reconhece a relação entre o crime e um contexto de violência política no Brasil.

"É óbvio que a gente não pode desassociar todo esse contexto. Mas a análise do MP se limita ao caso específico. E salta aos olhos que houve uma motivação fútil em razão de uma divergência política, que consta expressamente na denúncia", pondera.

Eleições podem 'acirrar ânimos'

O parlamentar observa que a proximidade com as eleições de 2022, que ocorrerão daqui a pouco mais de dois meses, pode acirrar os ânimos.

As liberdades de manifestação política e de expressão estão sob risco. O nosso objetivo é que essas situações sejam objeto de atenção por parte de organismos internacionais que fazem esse tipo de monitoramento. O efeito devastador do discurso de ódio é estimular esse tipo de conduta"
Orlando Silva, deputado federal

No fim de junho, Michelle Bachelet, alta comissária da ONU, já havia manifestado preocupação com o risco de violência no processo eleitoral no Brasil.

"Em outubro vocês têm eleições. E peço a todas as partes do mundo que as eleições sejam justas, transparentes e que as pessoas possam participar livremente. Será um momento democrático muito importante, e não deve haver interferência de nenhuma parte para que o processo democrático possa ser atingido".

Outros assassinatos por 'ódio bolsonarista'

O primeiro assassinato ocorreu na madrugada de 8 de outubro de 2018, após o fim do primeiro turno do pleito em que foi eleito presidente. Após abrir voto no PT, o mestre de capoeira Moa do Katendê foi morto a facadas em um bar de Salvador (BA).

Preso em flagrante no local, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana foi condenado a 22 anos e 1 mês de prisão em regime fechado por homicídio duplamente qualificado contra Moa por motivo fútil e meio que dificultou a defesa da vítima. A condenação ainda inclui uma tentativa de homicídio qualificado contra o primo do capoeirista, que estava com ele no momento do crime.

Em novembro de 2019, Antônio Carlos Rodrigues Furtado morreu após ser agredido por socos e chutes mesmo após ter caído no chão em Santa Catarina. Segundo relatório da Polícia Militar, as agressões ocorreram após uma discussão com o autor do crime, Fábio Leandro Schlindwein, que seria simpatizante da direita, segundo o documento.

Confira os outros episódios que constam no relatório encaminhado para a ONU:

Deputado pede 'mudança de postura'

O deputado federal Orlando Silva, responsável pelo envio do documento à ONU, acredita que só uma mudança de postura do presidente Jair Bolsonaro pode minimizar o risco de novos incidentes de "ódio bolsonarista".

Questionada, a Presidência da República não se manifestou.

"Se não houver uma mudança de atitude do presidente, a tendência é que outros episódios de violência ocorram", alerta o deputado, que incluiu uma série de posicionamentos de Bolsonaro no documento enviado à ONU. Confira:

Segurança pública