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Edição histórica de jornal francês traz ilustrações de cartunistas mortos em ataque

Gabriela Fujita

Do UOL, em Paris

14/01/2015 13h49

A capa já não era novidade, foi divulgada na última segunda-feira (12), dois dias antes do jornal 'Charlie Hebdo' chegar às bancas. Mas, para saber o conteúdo das 16 páginas da publicação, só mesmo acordando cedo e enfrentado fila para comprar a edição de número 1.178, pelo valor de 3 euros (cerca de R$ 9,50).

Há desenhos assinados por George Wolinski, Stephane Charbonnier, o Charb, Jean Cabut, o Cabu, Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, e Philippe Honoré, que estão entre as 12 vítimas do ataque ao jornal, em 7 de janeiro, e também de outros desenhistas.

Uma sequência feita por Catherine na página 11 mostra um dos atiradores mascarados no divã de uma analista. Ele diz que sonhou que tinha assassinado 'Charlie Hebdo', "uma verdadeira carnificina". Depois de algumas perguntas, a psicóloga sugere que ele desenhe seus pesadelos em um pedaço de papel. "Está feito", ele diz. "Você desenha como um merda. Não será amanhã que você entrará no 'Charlie Hebdo', eu te asseguro", diz a analista.

Se o 'jornal irresponsável', como está escrito em vermelho na capa, mostra Maomé chorando, seu interior traz temas diversos, passando pela Igreja Católica, feminismo e muitas referências ao jihadismo e aos costumes islâmicos.

O editorial defende, entre outras coisas, a laicidade, que não pode faltar, na opinião do jornal, para a "resolução de graves problemas", como "o conflito israelense-palestino", "a situação das, como dizemos, populações de origem muçulmana" e "o racismo e as discriminações, que devem ser combatidos sem parar".

"As milhões de pessoas anônimas, todas as instituições, todo os chefes de Estado e de governo, todas as personalidades políticas, intelectuais e midiáticas, todos os dignatários religiosos que, esta semana, proclamaram 'Eu sou Charlie' devem saber que isso também quer dizer 'Eu sou a laicidade'", afirma o editorial.

Na seção de destaques da "cobertura" que o leitor perdeu estão, por exemplo:

Uma charge de Catherine com empregados de uma confecção em  Bangladesh costurando camisetas com a frase 'Je suis Charlie' (Eu sou Charlie) e dizendo: "De todo o coração com vocês"!

Em outra, assinada por Luz, os dois atiradores que atacaram o jornal perguntam, depois de mortos, ao chegarem ao céu: "Onde estão as 70 virgens?" "Com a equipe de Charlie, perdedores!", diz alguém do meio de uma festa em uma nuvem.

No traço de Riss, a mensagem é esta:

-- Desenhista do 'Charlie Hebdo', são 25 anos de trabalho.
-- Terrorista, são 25 segundos de trabalho. Terrorista, um ofício de vagabundo e punheteiro.

O jornal de hoje informa que este número ficará à venda durante duas semanas. O próximo será publicado na quarta-feira, 28 de janeiro, mas não há detalhes de como será feita a comercialização da edição atual,  se haverá mais dias de venda do que a tradicional quarta-feira.

De circulação por volta de 60 mil exemplares, o jornal terá 5 milhões de cópias disponibilizadas nesses próximos dias. Muitos dos interessados em ter este número pós-atentado nunca leram o 'Charlie Hebdo'; querem ter uma lembrança de um fato que consideram marcante.

Os jornalistas sobreviventes, como têm sido chamados na imprensa parisiense, estão provisoriamente trabalhando na sede do jornal Libération, onde foi possível concluir a edição que está nas bancas a partir de hoje. O jornal vinha enfrentando perda de assinantes (não há publicidade em suas páginas) e de receita.
 

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