De 'melhor amigo' a ameaças com míssil: veja como mudou a postura de Trump com a Rússia

Do UOL, em São Paulo

  • Petras Malukas/AFP

Em junho de 2013, meses antes de organizar o concurso Miss Universo em Moscou, ainda afastado da política, Donald Trump fez uma pergunta a seus seguidores no Twitter: "Vocês acham que Putin irá ao Miss Universo em Moscou, em novembro? Se for, ele vai se tornar meu novo melhor amigo?".

Desde então, Trump mudou o discurso elogioso a Putin, que marcou sua campanha presidencial em 2015 e 2016, e chegou à constatação de que as relações entre Estados Unidos e Rússia se tornaram "as piores da história, incluindo o período da Guerra Fria", como afirmou nesta quarta (11).

Ele ainda ameaçou a Rússia ao insinuar que poderia bombardear bases do regime sírio, aliado de Putin. "A Rússia promete derrubar todos os mísseis disparados contra a Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles chegarão, lindos, novos e 'inteligentes'!", escreveu Trump no Twitter. Horas mais tarde, a Casa Branca tentou acalmar os ânimos e disse que ainda estudava ações contra o suposto ataque químico na Síria. 

Apesar das relações estremecidas --motivadas pelos interesses conflitantes na Síria e as sanções norte-americanas contra empresários russos, assim como a expulsão de diplomatas da Rússia dos Estados Unidos--, Trump e o governo Putin mantiveram pelo menos um discurso em comum: a negativa em relação à suposta influência de agentes russos na eleição do presidente norte-americano em 2016.

Veja como mudou a postura de Trump em relação a Putin e à Rússia:

Fevereiro de 2014

Cerca de 16 meses antes de anunciar sua candidatura à Presidência, Trump afirmou que entrou em contato com Putin durante o Miss Universo e disse que o presidente russo foi "legal". "Os russos foram fantásticos com a gente", disse Trump, se referindo à organização do Miss Universo. "Seus líderes são mais espertos, estão sendo mais espertos que a gente", acrescentou, dizendo que os russos estavam na frente dos norte-americanos na tratativa da guerra da Síria.

Alexander Nemenov/AFP
9.nov.2013 - Donald Trump ao lado da Miss Universo de 2013, quando o evento foi realizado em Moscou

Setembro de 2015

Já no início da campanha presidencial, Trump deu "nota A" para Putin "em relação à liderança", comparando positivamente o líder russo ao então presidente Barack Obama, discurso que repetiu ao longo desse período. "Nosso presidente não está indo tão bem", acrescentou Trump, que em outras ocasiões na época disse que Putin "odiava" Obama e que "teria uma boa relação" com o russo se conseguisse chegar à Casa Branca.

Kevin Lamarque/Reuters
Putin e Obama em 2016: Trump comparou o líder russo ao então presidente norte-americano

Dezembro de 2016

Em meio a expulsão de 35 diplomatas russos por suposta interferência nas eleições norte-americanas de 2016, Trump, um mês antes da posse, chamou Putin de "inteligente" por não retaliar Washington. O elogio veio dias depois de um comentário positivo do líder russo em relação a Trump após sua vitória contra Hillary Clinton. "O fato de que tenha tido êxito nos negócios mostra que é uma pessoa inteligente", disse Putin, se dizendo disposto a estabilizar as relações entre Rússia e Estados Unidos depois dos anos de turbulência com Obama.

Janeiro de 2017

Sob pressão para condenar a Rússia pela acusação de interferência nas eleições, Trump reconheceu pela primeira vez que o país poderia ter sido responsável por hackear a campanha presidencial de Hillary Clinton. "Quanto ao hacking, creio que foi a Rússia, mas acho que também somos hackeados por outros países e outras pessoas", disse Trump.

No dia 28, os dois chefes de Estado têm sua primeira conversa por telefone desde que Trump assumiu o poder e se comprometem a coordenar a luta contra o Estado Islâmico, além de 'normalizar' as relações bilaterais.

Jonathan Ernst/Reuters
28.jan.2017 - Donald Trump fala ao telefone com Vladimir Putin após assumir a Casa Branca

Abril de 2017

A relação se estremece pela primeira vez quando o regime de Bashar al-Assad é acusado de comandar um ataque químico contra a população síria na cidade de Khan Sheikhun, dominada por rebeldes, matando mais de 80 pessoas. Os EUA respondem com o lançamento de 50 mísseis a uma base militar do Exército sírio, aliado da Rússia, em seu primeiro ataque direto ao regime Assad.

Washington e Moscou trocaram acusações na esteira do bombardeio, com Putin acusando os Estados Unidos de planejar um ataque a Damasco apenas para depois culpar o regime Assad. No dia 12, o então secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, se reuniu com Putin em uma tentativa de amenizar as tensões. Em uma entrevista conjunta, ele e o chanceler russo, Serguei Lavrov, deixaram claro a discordância dos países em relação ao conflito na Síria, mas disseram estar dispostos a melhorar as relações.

Ivan Sekretarev/AP
12.abr.2017 - O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson (esq.) e o chanceler russo, Sergei Lavrov dão entrevista conjunta após conversas em Moscou, na Rússia

Maio de 2017

A temperatura baixou após um telefonema entre Putin e Trump, em 2 de maio, em que os líderes concordaram em "trabalhar juntos" para buscar um cessar-fogo na Síria. Dias depois, Lavrov viajou a Washington, onde se reuniu com Trump e refutou a possibilidade de a Rússia ter interferido (a favor do republicado) nas eleições norte-americanas de 2016 --o tema estava em alta após Trump ter demitido, naquela mesma época, o diretor do FBI, James Comey, que liderava essa investigação.

No encontro, Trump revelou uma informação "altamente confidencial" a Lavrov, segundo o jornal Washington Post, o que foi negado tanto pelo governo norte-americano quanto pelo russo.

Xinhua/Shcherbak Alexander/Tass/Zumapress
10.mai.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump (esq.) e o chanceler russo, Sergei Lavrov, durante encontro na Casa Branca, em Washington

Julho de 2017

Trump e Putin se encontram pessoalmente pela primeira vez na reunião anual do G20 em Hamburgo, na Alemanha, e acertam um cessar-fogo parcial na Síria. A reunião durou mais de duas horas e estabeleceu que os países poderiam trabalhar juntos no país, segundo Rex Tillerson.

Dias depois, Trump afirmou se dar "muito, muito bem" com Putin, dizendo que a reunião foi "ótima". "Foi bastante longa. Durou duas horas e 15 minutos. Todos estavam surpresos com o quanto durou, mas isso foi algo bom e não algo ruim", afirmou Trump.

No fim do mês, no entanto, o Congresso norte-americano votou o endurecimento de sanções contra a Rússia, fazendo com que o Kremlin retaliasse pedindo a saída de 755 diplomatas norte-americanos do país.

Carlos Barria/ Reuters
19.jul.17 - Putin (esq) e Trump se cumprimentam durante encontro na cúpula do G20, em Hamburgo, Alemanha

Novembro de 2017

Trump encontra Putin brevemente em Danang, no Vietnã, na cúpula da Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico), e diz que Putin se sentiu "insultado" com as acusações de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016. "Cada vez que eu o vejo, ele me diz que não fez isso, e eu realmente acho que, quando me diz isso, é o que ele pensa", afirmou Trump.

Putin também falou sobre Trump, classificando-o como um homem "educado e de trato agradável". Ele no entanto admitiu que a relação entre os países ainda estava em crise. Um mês depois, ele voltou a elogiar Trump, dizendo que ele foi responsável por "conquistas muito importantes" desde que assumiu a presidência, citando a atuação do republicano na economia norte-americana.

Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP
11.nov.2017 - Trump conversa com Putin durante Apec, em Danang, no Vietnã

Março de 2018

O governo dos EUA impõe novas sanções à Rússia no dia 15 pela tentativa de interferir nas eleições, bloqueando a entrada de 19 russos e proibindo o acesso a propriedades em território americano de cinco entidades russas que tentaram interferir nas eleições por meio de ataques virtuais.

O anúncio ocorreu logo após o envenenamento do ex-espião da Rússia Sergey Skripal e sua filha em Salisbury, na Inglaterra, condenado pelos países ocidentais, incluindo Washington, que responsabilizaram o Kremlin pelo ataque. No dia 26, Trump expulsa 60 diplomatas russos dos EUA e fecha o consulado da Rússia em Seattle, tirando do Kremlin uma representação diplomática na costa oeste norte-americana.

Em 6 de abril, Washington estabelece novas sanções, dessa vez contra 24 russos, incluindo autoridades do governo e oligarcas, e 14 entidades pelas atividades do governo Putin. Entre os sancionados estava Kirill Shamalov, genro de Putin e um dos principais acionistas da empresa energética Sibur.

Sergei Karpukhin/Reuters
Kirill Shamalov, genro de Putin e um dos principais acionistas da empresa energética Sibur

Abril de 2018

Em meio à acusação de que o regime Assad teria realizado mais um ataque químico, dessa vez na cidade de Duma, Trump indicou na segunda-feira (9) que avaliava uma nova retaliação militar ao governo sírio. O Kremlin respondeu que o ataque químico era "notícia falsa" e alertou para as consequências do ataque.

Dois dias depois, ainda sem anunciar uma ação efetiva contra Damasco, Trump ameaçou nominalmente a Rússia e indicou que lançaria mísseis na Síria.  "A Rússia promete derrubar todos os mísseis disparados contra a Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles chegarão, lindos, novos e 'inteligentes'! Não deveriam ser sócios de um animal assassino com gás que mata seu povo e aprecia", escreveu Trump no Twitter.

O Kremlin respondeu dizendo que não se envolve em "diplomacia via Twitter".  "Nós apoiamos abordagens sérias. Nós continuamos a acreditar que é importante não tomar passos que podem prejudicar uma situação já frágil", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

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