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Afegã relata explosões, tiros e tentativa de fuga em Cabul: 'Cidade treme'

Afegãos caminham em vala com água suja para chegar ao aeroporto de Cabul - EFE/AKHTER GULFAM
Afegãos caminham em vala com água suja para chegar ao aeroporto de Cabul Imagem: EFE/AKHTER GULFAM

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

29/08/2021 04h00

Zeba (nome fictício) se tornou refém de um medo bastante real há quase duas semanas, após ofensiva do grupo extremista Talibã contra a capital do Afeganistão no último domingo (15). Nos últimos dias, ela busca alternativas para deixar o país em meio a um cenário já caótico que se agravou na quinta (26) após um atentado reivindicado pelo Estado Islâmico deixar ao menos 108 mortos e mais de 160 feridos.

Passei por dois portões [dentro do aeroporto] dois dias antes [do atentado] e permaneci por quatro horas em uma área alagada e com urina humana. Fui obrigada a voltar para casa com muita dor nas pernas."
Zeba, sobre tentativa de deixar Cabul

Afegã feminista está trancada na própria casa em Cabul e teme ser morta pelo Talibã - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Afegã feminista está trancada na própria casa em Cabul e teme ser morta pelo Talibã
Imagem: Arquivo pessoal

Em entrevista ao UOL após a ocupação, a afegã de 25 anos disse se ver como alvo do Talibã por ser feminista, ter frequentado a universidade e devido ao contato com estrangeiros ocidentais.

É que o grupo extremista tem uma interpretação radical da lei às mulheres da chamada "sharia", seguida pelos muçulmanos. "Minha única opção é fugir. Não sei se vou sobreviver", disse na ocasião.

Nos últimos dias, o UOL tem mantido contato diário com Zeba, que relata suas tentativas de fuga em um país que convive com o terror após a tomada de poder dos talibãs.

Nem sempre as respostas são imediatas. A afegã tem mantido contato com amigos que passam por situação semelhante e pessoas fora do país em busca de informações. "Desculpe a demora em responder. É que recebo muitas mensagens pelo WhatsApp. E a maioria delas é urgente", respondeu, em contato recente.

Os primeiros dias foram de reclusão dentro da própria casa, devido ao medo de ser assassinada por talibãs caso fosse vista na rua. Depois de ver um vizinho ser preso por membros do Talibã, saiu de casa com a família. Na primeira tentativa de fuga, foram ao aeroporto, onde encontraram caos, tiros e desespero.

As ruas no entorno do aeroporto estavam lotadas por milhares de pessoas. E os talibãs bloquearam a entrada principal. Estava caótico lá. Também havia muitos tiroteios. Não sei se os tiros eram dos talibãs. Ouvimos que soldados americanos atiravam de dentro do aeroporto. Não conseguimos chegar ao portão principal. Desistimos e voltamos para casa."
Zeba, sobre primeira tentativa de ida ao aeroporto

Feridos chegam a hospital após explosão nos arredores do aeroporto de Cabul

Com autorização para estudar na Europa, voltou ao aeroporto dois dias antes das explosões à procura de soldados alemães. Depois de caminhar por cerca de 30 minutos, ela precisou aguardar dentro de um canal lotado de pessoas, impregnado pelo cheiro de urina humana.

"Vi muitos soldados estrangeiros, mas não havia alemães. Os soldados americanos me orientaram a esperar nesse canal. Fiquei lá por cerca de quatro horas até anoitecer. Lá, havia muita gente com autorização do governo alemão, mas ninguém apareceu", relatou.

Tentei acessar outro portão [do aeroporto], menos lotado. Mas havia muito tiroteio e gás lacrimogêneo sendo jogado nas pessoas. Foi horrível."
Zeba, sobre o clima nas salas de embarque

No dia do atentado reivindicado pelo Estado Islâmico, Zeba enviou um vídeo para a reportagem com a imagem de corpos empilhados após a explosão. "Eu estava perto desse local!", escreveu, em mensagem enviada pelo WhatsApp.

Outras explosões estão acontecendo no entorno do aeroporto. O que está acontecendo? A cidade treme. Eu definitivamente preciso deixar o país, nem que seja ilegalmente e por fronteiras terrestres. Não posso ficar mais aqui."
Zeba, após o atentado a bomba

Em seguida, disse que iria deixar Cabul e buscar abrigo na casa de um tio em uma cidade no entorno por recomendação de amigos.

"Não tenho mais condições psicológicas para falar. Desculpe", disse, enquanto busca uma solução para deixar o país em uma luta pela própria sobrevivência.

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