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'Perguntou de que país éramos': brasileiros detalham agressão na Irlanda

Os brasileiros Frederico de Lima Costa, 34, Mateus Batyras, 21, e Roberto Gomes Junior, 33, contam que foram agredidos em Limerick, na Irlanda, onde moram. As agressões ocorreram em momentos diferentes —na sexta-feira (12) e no sábado (13).

Ao UOL, eles relataram surpresa com os ataques. "Perguntou de que país éramos e acertou minha cabeça", disse Roberto. A polícia irlandesa investiga dois casos.

'Me alcançou e me derrubou'

A primeira agressão teria ocorrido com Frederico, que mora na cidade desde junho de 2022. Do interior de Minas Gerais, ele trabalha e estuda inglês no país europeu. Na última sexta-feira (12), foi abordado em uma rua da região central da cidade, quando voltava do trabalho. Segundo ele, o homem que o abordou não disse nada —apenas bateu nele.

Frederico: 'Me lembro de cair no chão e bater a cabeça'
Frederico: 'Me lembro de cair no chão e bater a cabeça' Imagem: Arquivo pessoal

Eu me lembro de cair no chão e bater a cabeça. Saí correndo, ele conseguiu me alcançar e me derrubou. Eu fiquei em pânico, já estava com medo, pensei que fosse morrer. Já estava com a visão embaralhada, porque bati muito forte a cabeça. Tive uma dor muito forte.
Frederico Costa

Frederico pediu ajuda em português. Na tensão do momento, gritou "socorro" em português, não em inglês. "Um brasileiro viu e conseguiu me ajudar. Se não fosse por esse rapaz, não sei falar o que teria acontecido comigo." Depois da agressão, Frederico não foi ao hospital, mas à polícia.

Outro jovem foi atacado no mesmo dia. Mateus Batyras, de 21 anos, conta que foi agredido quando voltava de um jantar com a namorada cerca de 20 minutos depois de Frederico, a poucas quadras de distância. Morador de Limerick há um ano e meio, ele está no país para estudar e trabalha como vendedor.

Mateus Batyras
Mateus Batyras Imagem: Arquivo Pessoal

'Só tive reação de correr'

Mateus levou um soco no rosto. O jovem conta que foi abordado por um homem, que perguntou se ele tinha dinheiro. "Respondi que não e ele simplesmente me deu um soco na cara por nenhuma razão."

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Quando aconteceu comigo, eu só desliguei o celular e voltei para casa. Só tive a reação de correr. Depois, pensei: receber um soco na rua não é normal. Tive noção da gravidade quando contei para a minha mãe. O real motivo ninguém sabe. O grupo apontou para mim e falou 'faça com ele também'. Foi 'só um soco', mas era para ter sido muito pior.
Mateus Batyras

Frederico acredita que o ataque teve motivação xenofóbica. "Como foram só ataques a brasileiros, isso para mim é bem explícito que é xenofobia. Não teve um motivo aparente, nunca tive uma briga, uma discussão, nunca tive um problema com nenhum irlandês aqui."

Mateus também não foi ao hospital. "Eu só coloquei um pouco de gelo e parou de doer no dia seguinte. Depois que eu sofri o ataque, fui correndo para minha casa com o telefone desligado, não queria dar atenção para ninguém. Não imaginava que isso poderia acontecer comigo."

A primeira coisa que eu pensei foi na minha família, porque no mesmo dia era aniversário da minha irmã e estava toda a minha família reunida no Brasil. Só falei para eles na quinta-feira. Precisei de um tempo para digerir.
Mateus Batyras

Ataques foram publicados na internet

Vídeos dos ataques foram parar no TikTok, segundo as vítimas. Mateus contou ao UOL que as agressões foram gravadas e publicadas em uma conta na rede social. Ele diz que nas imagens é possível ver que a pessoa que os agride nem sequer esconde o rosto.

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As imagens foram apagadas da plataforma. A conta na qual as imagens foram postadas, porém, continuava no ar na manhã desta sexta-feira (19). Entre os vídeos ainda disponíveis na conta estão os de carros em alta velocidade pelas ruas de Limerick. Em algumas das publicações, os autores das imagens afirmavam que os veículos eram roubados.

Foi postado no domingo, dois dias depois do ataque, e alguém achou e mandou em um grupo de brasileiros. A minha reação, quando vi o vídeo, foi a mesma do ataque: me tremi inteiro. Eu espero que isso não aconteça nem com o meu pior inimigo.
Mateus Batyras

Meu rosto está bem visível [no vídeo] e eu descobri [as imagens] por meio de um amigo que me enviou. Me senti ridicularizado, porque estava sendo um alvo de piada, que jamais deveria ter sido feita -- não só contra brasileiros, mas contra nenhuma outra nacionalidade.
Frederico Costa

Mateus não vai antecipar volta ao Brasil. "Muito pelo contrário, isso só me dá mais força de continuar aqui e provar para mim mesmo que isso não era para acontecer, mas quando acontecer a gente não pode abaixar a cabeça." Já Frederico ainda não decidiu o que vai fazer, apesar de estar com medo.

'Testa jorrando sangue'

Outro ataque foi registrado no dia seguinte. No sábado (13), um terceiro brasileiro foi vítima de agressão nas ruas de Limerick. Roberto Gomes Junior, de 33 anos, voltava do trabalho com o irmão quando foi atingido na cabeça.

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O brasileiro está no país desde 2021. Roberto é natural de Duque de Caxias (RJ) e, assim como Mateus e Frederico, também trabalha e estuda inglês em Limerick.

A gente só foi atacado depois que o rapaz perguntou de que país nós éramos, e o meu irmão respondeu que erámos do Brasil. Aí ele passou na nossa frente, puxou um objeto de madeira que não sei identificar, e acertou minha cabeça.
Roberto Júnior

Roberto: 'Só não vou embora amanhã porque não tenho dinheiro suficiente'
Roberto: 'Só não vou embora amanhã porque não tenho dinheiro suficiente' Imagem: Arquivo pessoal

Testa ficou sangrando e Roberto teve de buscar atendimento médico. "Depois que fui atacado, me afastei e corri, e reparei que a minha testa estava jorrando sangue. Gritei para meu irmão e pedi ajuda, achei que estava morrendo. Estava sangrando muito." Ele levou seis pontos.

Roberto quer voltar para o Brasil. O brasileiro pretendia voltar para o país de origem após o verão europeu, no segundo semestre deste ano, mas, depois do ataque, pensa em juntar dinheiro para fazer isso antes.

Só não vou embora amanhã porque não tenho dinheiro suficiente. Não é só dinheiro da passagem, preciso de algo para começar a minha vida de novo no Brasil. Também não volto amanhã porque comecei uma luta aqui contra esse tipo de ataque.
Roberto Junior

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Polícia diz investigar os casos

Dois casos são investigados, afirma a polícia irlandesa. Em nota enviada ao UOL, a Garda informou que recebeu duas ocorrências de violência contra brasileiros em Limerick, no mesmo dia, cometidas a uma distância de 3 quilômetros uma da outra.

Itamaraty diz que "acompanha o caso junto aos brasileiros agredidos e às autoridades locais". O órgão informou em nota encaminhada ao UOL que a Embaixada em Dublin tem orientado os brasileiros e oferece assistência jurídica e psicológica.

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