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Estudo mostra que lama de barragem em MG danificou corais de Abrolhos (BA)

Ilha de Santa Bárbara, pertencente ao arquipélago de Abrolhos, sul da Bahia - Lúcio Távora/ BA Press
Ilha de Santa Bárbara, pertencente ao arquipélago de Abrolhos, sul da Bahia Imagem: Lúcio Távora/ BA Press

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

20/02/2019 18h47

A 250 km da foz do rio Doce, no mar do Espírito Santo, o arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia, foi afetado pelos rejeitos oriundos do rompimento da barragem do Fundão, em novembro de 2015, em Mariana (MG).

Uma pesquisa feita pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) aponta que corais foram contaminados por metais pesados da lama que chegou ao mar e causaram danos bioquímicos.

Segundo o estudo, os maiores níveis de contaminação foram de cobre e zinco, além de outros registros como de arsênio. "São metais muito tóxicos, e os corais são muito sensíveis a eles", relata o coordenador do estudo, o pesquisador Heitor Evangelista, do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais da Uerj.

Corais de Abrolhos contaminados por metais pesados devido à lama da barragem do Fundão (MG) - Divulgação
Corais de Abrolhos contaminados por metais pesados devido à lama da barragem do Fundão (MG)
Imagem: Divulgação

O Parque Nacional Marítimo de Abrolhos foi o primeiro criado no país, em 1983, onde vivem 1.300 espécies (45 delas consideradas ameaçadas). O local tem maior banco de corais e maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul. Devido à riqueza ambiental única, Charles Darwin o visitou em 1832.

Segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), graças ao parque conservado há "procriação das espécies, contribuindo para a manutenção da pesca nas regiões vizinhas, que é o meio de subsistência para cerca de 20 mil pessoas na região".

Monitoramento será necessário para determinar efeitos

A pesquisa da Uerj foi feita com corais, que passaram por análises em sua parte interior. Apesar da contaminação não deixar marcas visíveis, o estudo químico apontou para uma presença de metais pesados.

Isso pode trazer uma série de problemas. "A gente sabe de outros trabalhos que essa contaminação pode ter efeito na taxa de crescimento, no processo relacionados a bioerosão e implicações na parte reprodutiva. Mas só um acompanhamento dirá [o que vai acontecer] porque a gente nunca teve uma situação igual para ter um paralelo", conta Evangelista. "Além disso, muitos corais de Abrolhos são endêmicos do Atlântico, ou seja, não há em outros lugares, e não sabemos como eles respondem a essas questões."

Etapas de análise dos corais de Abrolhos feitas pela Uerj - Divulgação
Etapas de análise dos corais de Abrolhos feitas pela Uerj
Imagem: Divulgação

Segundo o pesquisador, é preciso a partir de agora manter um monitoramento constante na área. "É preciso que se tenha um acompanhamento a médio e longo prazo. Igual a um ser humano, que pode ser contaminado com algo e o efeito vir anos depois", explica.

Segundo ele, a contaminação não ocorreu recentemente, ma logo após a chegada dos rejeitos ao oceano. Isso foi constatado por testes em laboratórios que conseguem apontar o período de vida da espécie em que houve a intoxicação. "Os corais têm uma característica de que, à medida que crescem, vão formando um esqueleto. Esse esqueleto vai crescendo, e a gente consegue fazer a idade de cada etapa em que ele estava no passado."

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Samarco, responsável pela barragem, informou que toda a parte de monitoramento da água está sob responsabilidade da Fundação Renova, criada após a tragédia que deixou 19 mortos e causou um dano ambiental de grande escala a toda bacia hidrográfica do rio Doce.

Ao UOL, a Fundação Renova disse que não teve acesso ao relatório do referido estudo. "Após tomar conhecimento de seus resultados, a fundação poderá avaliar se o monitoramento conduzido pela Rede Rio Doce Mar poderá auxiliar na elucidação dos problemas apontados", informou.

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