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'Conversa de botequim', 'quebra de confiança': crise gera demissão no Inpe

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório Galvão - Rodolfo Moreira /Futura Press
O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório Galvão Imagem: Rodolfo Moreira /Futura Press

Do UOL, em São Paulo

02/08/2019 13h40

O diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, anunciou hoje sua exoneração, após semanas de confrontos com o governo Jair Bolsonaro (PSL).

O bate-boca teve início no início de julho, quando dados divulgados pelo instituto --responsável há mais de 30 anos por mapear áreas desmatadas do país-- mostraram que o desmatamento da Amazônia cresceu 88% no mês de junho, em comparação ao mesmo período no ano passado.

Após esse levantamento se tornar conhecido, Bolsonaro criticou Ricardo Galvão durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros, no dia 19 de julho. Na ocasião, ele afirmou que as informações não condiziam com a verdade.

É lógico que eu vou conversar com o presidente do Inpe. [São] Matérias repetidas que apenas ajudam a fazer com que o nome do Brasil seja malvisto lá fora. [...] Com toda a devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido
Jair Bolsonaro, presidente da República

Em entrevista, Galvão rebateu as críticas aos números e chamou os comentários de Bolsonaro de "sem embasamento" e "conversa de botequim".

Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos
Ricardo Galvão, diretor do Inpe

As afirmações de Bolsonaro provocaram grande reação da comunidade científica. O diretor respondeu às críticas em entrevista à Folha, no dia 21 do mesmo mês:

Pode haver consequências para mim, ser demitido. Mas para o instituto não pode haver. Primeiro porque o orçamento já está estabelecido para este ano; estamos preparando o orçamento para o ano que vem. E a situação ficou tão clara, foi tão incrível a quantidade de apoio, até do exterior, que fica impossível para o governo, na minha opinião, fazer algum tipo de retaliação, o que seria ainda mais contundente contra o governo
Ricardo Galvão

No dia 1º de agosto, Bolsonaro convocou a imprensa para uma apresentação sobre a razão por que considera os dados incorretos. Na ocasião, na qual não foram apresentados novos dados, o presidente subiu o tom contra Galvão:

Não queremos abafar, nem deixar de divulgar absolutamente nada. Mas, no meu entendimento, não houve a responsabilidade necessária para divulgar um número como esse. Ele [Galvão] quebrou a confiança, vai ser demitido sumariamente
Jair Bolsonaro

Também no dia 1º, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, criticou o instituto:

Se fossem dados corretos, era preocupante, seria conveniente que nós não alardeássemos isso
General Augusto Heleno, ministro do GSI

No mesmo dia, o Inpe reafirmou, em nota, a confiança na qualidade dos dados produzidos pelo instituto:

Os alertas são produzidos seguindo metodologia amplamente divulgada e consistentemente aplicada desde 2004. É amplamente sabido que ela contribuiu para a redução do desmatamento na região amazônica, quando utilizada em conjunto com ações de fiscalização
Nota divulgada pelo Inpe

A jornalistas, Galvão afirmou hoje que as críticas que fez a Bolsonaro haviam causado "constrangimentos" no governo e que por isso ele seria exonerado. O diretor também afirmou que já sugeriu um nome ao ministro para assumir o instituto, sem revelar qual, e que sua exoneração não irá "respingar" nos trabalhos da organização.

O Planalto ainda não se manifestou. Galvão não quis conceder entrevista ao UOL.

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