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Meio Ambiente

Isolado na COP26, ministro do Meio Ambiente discretamente "passa a boiada"

Joaquim Leite, ministro do Meio Ambiente - Arte UOL
Joaquim Leite, ministro do Meio Ambiente Imagem: Arte UOL

Wanderley Preite Sobrinho e Jamil Chade

Do UOL, em São Paulo, e em Glasgow, na Escócia

13/11/2021 04h00

Se não fosse pelo segundo lugar no antiprêmio "Fóssil do Dia", o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Alvaro Pereira Leite, circularia pelos corredores da COP26 (26ª Conferência Mundial do Clima da ONU), em Glasgow, na Escócia, com a mesma desenvoltura com que é conhecido na Esplanada dos Ministérios: ao contrário da estridência de Ricardo Salles, Leite é conhecido em Brasília por, discretamente, manter a política ambiental do antecessor e "passar a boiada".

A "premiação" oferecida a Leite por 1.500 entidades de combate às mudanças climáticas foi uma homenagem às avessas por seu discurso de 5 minutos que aterrorizou ambientalistas do mundo todo na quarta-feira (10). Recheado de exageros, a fala de Leite defendeu a tese de que "onde há muita floresta há muita pobreza".

O UOL procurou o Ministério do Meio Ambiente para comentar esta reportagem, mas não recebeu resposta até a publicação.

O impacto de sua apresentação contrasta com a discrição com que circula pela COP26. Leite chegou a Glasgow oito dias depois do início da principal conferência climática do mundo, iniciada em 31 de outubro. John Kerry, enviado especial dos Estados Unidos para as mudanças climáticas, desembarcou na Escócia no primeiro dia do evento.

Chefe da maior delegação em Glasgow, Leite esteve em 24 reuniões e só participou de eventos públicos organizados pelo próprio governo. Ele recebeu delegações estrangeiras, mas ninguém conhece os nomes já que, "por questão de segurança", ele não divulga sua agenda.

Na quarta, quando levou o antiprêmio, Leite falou a brasileiros em dois seminários e participou do "Dia do Agrobusiness". Até o estande oficial do Brasil na COP26 é decorado com os logotipos da CNI (Confederação Nacional Da Industria) e CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, fala durante a COP26, em Glasgow - Yves Herman/Reuters - Yves Herman/Reuters
O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, fala durante a COP26
Imagem: Yves Herman/Reuters

As discussões climáticas, florestais e indigenistas ficaram para um estande informal, criado por um grupo de ONGs ambientais brasileiras. Leite foi convidado duas vezes para debater no estande alternativo, mas até ontem (12) não havia respondido.

Surpresa maior, no entanto, foi seu alegado desconhecimento sobre um texto de sete páginas que era uma prévia do acordo final da conferência, o documento mais importante do encontro. O ministro ainda não havia lido o documento 12 horas depois de o texto preliminar ter sido enviado a todas as delegações, afirmou ele ao UOL.

Avesso aos holofotes

Isolado até pelo Itamaraty, que busca restabelecer contatos diplomáticos com o resto do mundo, o ministro de 54 anos repete internacionalmente o perfil doméstico de passar despercebido.

Detratores e simpatizantes em Brasília são unânimes sobre Leite: ele não gosta de holofotes. Casado e pai de quatro filhos, o ministro se comporta como se fosse um quadro técnico, e não político, quando em contato com ONGs e congressistas da bancada ambiental.

Mais despojado, prefere circular em camisa sem gravata. É também conhecido por ouvir com atenção, outro contraste em relação a Ricardo Salles. As diferenças, dizem, param por aí.

leite - Jamil Chade/UOL - Jamil Chade/UOL
Os ministros Fábio Faria (Comunicações) e Joaquim Leite (Meio Ambiente), no pavilhão do Brasil na COP26; ao fundo, o logotipo da CNI
Imagem: Jamil Chade/UOL

"O Joaquim Leite não está fazendo nada de diferente do Ricardo Salles. Ele só não é incisivo politicamente", afirma o deputado federal oposicionista Nilto Tatto (PT-SP), membro da Comissão de Meio Ambiente da Câmara.

Não houve nenhuma medida para reverter o desmonte do meio ambiente pelo Salles. O Leite não reestruturou os órgãos fiscalizadores, como Funai [Fundação Nacional do Índio] e ICMbio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], para enfrentar o desmatamento. Aliás, o ministério está subordinado à agenda agropecuária."
Nilto Tatto, da Comissão de Meio Ambiente da Câmara

"Amigo de longa data" do ministro, o deputado Evair Melo (PP-ES), também da Comissão de Meio Ambiente, diz que Leite tem "responsabilidade muito grande com o setor produtivo" e é "atento às solicitações de todos os parlamentares".

Ele privilegiaria o diálogo para "unificar todos os setores, porque sabe que meio ambiente está ligado a todo o resto no Brasil: à agricultura, ao urbano, à cidadania, ao saneamento", diz.

De Glasgow, o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, disse ao UOL que "todas as medidas que fizeram o desmatamento e as emissões nacionais aumentarem, continuam em vigor".

"Pode ter mudado quem toma conta da porteira, mas a boiada [sobre regras ambientais] continua igualmente passando", disse ele em referência à polêmica declaração de Salles durante uma reunião ministerial em abril de 2020.

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O ministro Joaquim Leite ao lado do presidente Jair Bolsonaro
Imagem: Antonio Molina /Fotoarena/Folhapress

De produtor de café a ministro

A desconfiança em relação a Leite se deve a seu passado, um administrador de empresas de formação que por 11 anos foi produtor de café e por 23 anos integrou o Conselho da SRB (Sociedade Rural Brasileira), histórica apoiadora da bancada ruralista.

Leite só deixou a entidade em julho 2019, quando foi nomeado diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente.

Em abril do ano seguinte, ele foi promovido a titular da Secretaria de Florestas e Desenvolvimento Sustentável, que em setembro de 2020 seria rebatizada de Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais.

Leite só assumiu o ministério em 23 de junho deste ano, quando Salles deixou a pasta por suposto favorecimento ilegal a madeireiros, o que ele nega.

O ministro, que já foi diretor do ramo farmacêutico, é conhecido também pela fama dos familiares. A irmã, Fernanda Pereira Leite, é sócia da filial brasileira da austríaca Glock, a renomada fabricante de pistolas. A empresa teria recebido mais de R$ 43 milhões do governo federal por meio de contratados sem licitação, aponta reportagem de A Pública.

Família Pereira Leite X indígenas

Advogada, Fernanda representou a família em um processo polêmico. Em 2015, ela questionou entendimento da Justiça de que terras da família Pereira Leite avançaram ilegalmente sobre porções do Jaraguá, entre São Paulo e Osasco, na região metropolitana da capital.

Anos antes, em 2003, José Alvaro Pereira Leite, avô de Fernanda e do ministro, ingressou com ações para reintegração de posse dessas terras, que na década de 1980 foram declaradas indígenas pela Funai: 532 hectares em favor de 534 pessoas dos povos Guarani Mbya e Ñandeva.

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Aldeia indígena no Jaraguá, em São Paulo. Família Pereira Leite reivindica a posse de parte da região
Imagem: Reproduçãao

Em 1986, o relatório da Funai sobre o território diz que Joaquim Álvaro Pereira Leite Neto — pai do ministro — "exigiu que a Funai retirasse os marcos físicos do processo demarcatório da área indígena Jaraguá, alegando ser o proprietário da área, acusando agressivamente a Funai de estar praticando um crime".

Em artigo no livro "A grilagem de terras na formação territorial brasileira", a antropóloga Camila Salles de Faria cita o relato de uma indígena, identificada como Eunice, sobre o avô do ministro:

"Esse Pereira Leite, a família Pereira Leite, ele ameaça muito o pessoal indígena. Que vai pôr fogo na casa, que vai destruir... Numa época ele até veio com uma maleta de dinheiro para mim querendo comprar a terra de mim", diz.

Xondaro da comunidade — ou guerreiro que cuida do território com o coração —, Karai Djekupe é um dos atuais líderes da comunidade no Jaraguá. Ele conta que, diferentemente do pai e do avô, o ministro do Meio Ambiente nunca os ameaçou. A chegada de um membro da família Pereira Leite à pasta, no entanto, tirou o sono.

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O líder guarani Karai Djekupe fecha acordo com o coronel da PM após protesto contra a construção de 11 prédios perto das terras da etnia Guarani Mbya, em Jaraguá, capital paulista
Imagem: Marlene Bergamo/Folhapress - 08.03.2020

"Quando ele foi nomeado, trouxe um receito em todos aqui", diz ele. "A gente fica triste, receoso porque um membro dos Pereira Leite agora tem poder político."

A contenda está paralisada até que o STF (Supremo Tribunal Federal) decida sobre o chamado marco temporal das terras indígenas. Se passar, essas populações só poderão reivindicar terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. O julgamento foi interrompido por um pedido de vista (análise do caso) do ministro Alexandre de Moraes.

Se a tese defendida pelo governo Bolsonaro passar, a família Pereira Leite pode ficar com aproximadamente 2,2 hectares das terras no Jaraguá, uma região com aproximadamente cem famílias, afirma Djekupe.

Agora um membro da família Pereira Leite está na COP26 tratando das questões ambientais brasileiras em espaço importantíssimo de diálogo. O sentimento é de medo pelo que ele pode vir a fazer. Mas nós também acreditamos que as pessoas lá fora já entenderam que o governo não representa a política ambiental e indigenista do Brasil."
Karai Djekupe, líder indígena

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