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Bichinhos adoráveis? Veja o lado 'cruel' de animais como golfinhos e pandas

Golfinhos parecem estar sempre sorrindo, mas não se engane - Getty Images
Golfinhos parecem estar sempre sorrindo, mas não se engane Imagem: Getty Images

Do UOL, de São Paulo

10/05/2022 04h00

Eles parecem fofos e pacíficos, então, quando a gente vê um deles, dá vontade de abraçar e apertar. Mas quem já acompanhou de perto o comportamento de golfinhos, pandas e macacos sabe que eles também têm um lado cruel.

Recentemente, descobriu-se que a Rússia vem usando os golfinhos como armas de guerra na Ucrânia, por sua capacidade de detectar presença de inimigos nas águas, plantar explosivos em navios e detectar torpedos, minas e munições e destroços abandonados no fundo do mar.

Infanticídio

Não para por aí. Kevin P. Robinson, biólogo de um instituto de pesquisa de cetáceos na Escócia, descreveu em um artigo para a revista "Marine Mammal Science", uma tentativa de infanticídio de um golfinho, que presenciou em 14 de setembro de 2009, num estuário na costa nordeste escocesa.

De acordo com ele, um grupo de 42 golfinhos (entre eles, várias mães e bebês) nadava no local quando começou uma agitação inesperada. Um macho emergiu segurando um filhote recém-nascido entre os dentes. Ele chacoalhou e atirou-o para longe. Em seguida, tentou afogá-lo, arrastando-o para o fundo do mar (golfinhos precisam emergir para respirar).

A mãe conseguiu se posicionar entre ele e o filhote, numa tentativa de proteger sua cria, mas o macho se desvencilhou e voltou a golpear o filhote seguidamente na cabeça, na coluna e na cauda.

O ataque só terminou quando os machos do grupo fizeram um cordão de isolamento, e o golfinho foi escoltado para longe da fêmea e do filhote. Machucado, o filhote encalhou na praia e morreu um mês depois do ataque.

A cena só comprova o que os cientistas já sabem: às vezes, machos matam filhotes para fazer com que a fêmea volte a entrar no cio antes do esperado —assim eles não precisam esperar pela desmama para cruzar com a fêmea.

E isso não acontece apenas entre golfinhos. Infanticídios, aparentemente pelo mesmo motivo, também podem ocorrer em grupos de leões, ursos polares, macacos-japoneses (Macaca fuscata), leões-marinhos e outras espécies. E ainda não limita-se aos mamíferos: há registros de infanticídios entre peixes, insetos e anfíbios.

Na maioria das vezes, quem mata é um macho adulto que não é o pai dos filhotes. E ele faz isso para conquistar a liderança do grupo e ter os seus próprios filhotes. Se não matar os outros bebês, corre o risco de perder o posto de líder quando um deles crescer.

Nas comunidades de chimpanzés da Tanzânia, interações violentas entre as fêmeas podem causar infanticídios. Elas competem pela liderança do grupo —e uma das manobras é matar e comer o filho de uma concorrente.

Desta maneira, a fêmea assassina elimina o filhote (que futuramente vai competir com ela e com os filhos dela por comida) e induz a rival a se mudar para outra comunidade. Ela torna-se a dona do pedaço e seus filhos terão comida garantida.

Abandono de filhotes

Para o panda, abandono de incapaz é uma questão de sobrevivência. Quando nascem gêmeos, a mãe deve escolher apenas um deles para amamentar. Ela simplesmente não consegue cuidar dos dois ao mesmo tempo.

Um pandinha pede atenção e precisa ser alimentado constantemente, até começar a desmamar —e isso só acontece depois do oitavo mês de vida. Assim, é mais garantido cuidar de um filhote para que ele seja um adulto robusto e perpetue a espécie do que dividir as atenções e criar dois pandas fracos e desnutridos.

Hamsters, ratos e corujas vão além do abandono. Em alguns casos, mães costumam comer os filhotes.

O motivo é parecido com o dos pandas: a mãe não sabe se haverá comida para todos, e, numa lógica animalesca, pratica canibalismo para evitar que um dos seus filhotes morra de fome.

Gangues

Os golfinhos do gênero Tursiops, que inclui as espécies Tursiops truncatus e Tursiops aduncus, se organizam em "gangues", protegendo suas fêmeas de bandos rivais e ocasionalmente "mudando de lado", apontou um estudo realizado por cientistas na Austrália.

Richard Connor, um pesquisador que começou a estudar os golfinhos da Shark Bay no início dos anos 1980, diz que os golfinhos vivem em uma "sociedade aberta", em grupos com "um mosaico de comportamentos semelhantes", ao invés de simplesmente se organizarem em grupos de machos que guardam um território específico.

O fato de os golfinhos migrarem em "gangues" mostra o elevado grau de inteligência destas espécies, já que, ao se depararem com outros grupos, precisam decidir como se portar:

  • Em duplas ou trios, que trabalham juntos para capturar e manter fêmeas férteis.
  • Em equipes de quatro a 14 machos, que organizam ataques contra outros bandos para roubar fêmeas ou se defender
  • Em parcerias "amigáveis" entre os grupos dominantes, unindo forças para formar "exércitos de golfinhos"

A parceria pode durar mais de um mês.

Necrofilia entre lontras, focas

Entre 2000 e 2002, pesquisadores da Universidade da Califórnia presenciaram 19 ocorrências de comportamento sexual entre lontras machos e focas mais jovens, na Baía de Monterey, perto de São Francisco.

Em todos os casos, pelo menos três lontras diferentes arrastaram, assediaram e copularam com focas —e continuaram com o "abuso" por até sete dias depois da morte das focas agredidas.

Segundo os pesquisadores, isso provavelmente acontece porque os machos agressores não conseguem copular com as fêmeas de sua espécie (eles perderam a disputa para outros machos) e descontam suas frustrações copulando com indivíduos de outras espécies —por isso a agressividade.

Em dezembro de 2006, Nico de Bruyn e seus colegas da Universidade de Pretória (África do Sul) presenciaram um lobo-marinho-antártico tentando cruzar com um pinguim-rei adulto. Depois de tentar por 45 minutos sem sucesso, ele abandonou o pinguim.

Os pesquisadores atribuíram o fato aos altos níveis hormonais do mamífero, que estava na época do acasalamento. Outra hipótese levantada foi de que o lobo-marinho era jovem e estava 'praticando' o ato sexual antes de tentar com fêmeas da sua própria espécie.

O naturalista George Levick, que esteve em uma expedição à Antártida entre 1910 e 1913, foi um dos primeiros a descrever comportamentos sexuais de pinguins. Ele presenciou machos tentando copular fêmeas e filhotes à força entre indivíduos da espécie pinguim-de-adélia.

O pesquisador ficou tão chocado que escreveu tudo em grego, para que ficasse mais difícil de alguém traduzir tudo, caso o caderno caísse em mãos estranhas.

Em 2012, cientistas do Museu de História Natural de Londres encontraram o caderno e publicaram o relato - nesta época, outros cientistas já tinham reportado o comportamento dos pinguins.

Fontes: Artigos "Agonistic intraspecific behavior in free-ranging bottlenose dolphins: Calf-directed aggression and infanticidal tendencies by adult males" (Kevin P. Robinson); "Sexual harassment of a king penguin by an Antarctic fur seal" (Nico de Bruyn, Cheryl A. Tosh e Martha'n N. Bester); "Lesions and Behavior Associated with Forced Copulation of Juvenile Pacific Harbor Seals (Phoca vitulina richardsi) by Southern Sea Otters (Enhydra lutris nereis)" (Heather S. Harris, Stori C. Oates). Livro "A Natural History of Families", de Scott Forbes. Podcast "Friends or Foes: Female Relationships Among the Gombe Chimpanzees", por Anne Pusey (pesquisadora da Duke University e do Centro de Pesquisa Jane Goodall).

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