PUBLICIDADE
Topo

Fabio Wajngarten poupa Bolsonaro, irrita CPI e é ameaçado de prisão

Hanrrikson de Andrade, Luciana Amaral, Rayanne Albuquerque e Gilvan Marques*

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

12/05/2021 04h00Atualizada em 13/05/2021 13h50

Em depoimento à CPI da Covid hoje marcado por bate-bocas e até pedido de prisão contra ele, Fabio Wajngarten, ex-chefe da comunicação do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), buscou poupar o presidente da República diante qualquer responsabilidade por eventuais omissões na pandemia.

Wajngarten foi acusado de contradições e de mentiras, especialmente pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL). Num dos momentos mais nevrálgicos da CPI, por volta das 16h30, Renan pediu a prisão de Wajngarten, o que foi negado pelo presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM). Renan já vinha ameaçando pedir a detenção dele caso avaliasse que estava mentindo aos senadores.

De acordo com a Constituição, em oitivas realizadas por uma CPI, os intimados são obrigados a falar a verdade, sob risco de receberem voz de prisão caso seja confirmado, em flagrante, algo que não corresponda à realidade dos fatos.

Embora Aziz tenha afirmado não ser "carcereiro de ninguém", o senador chegou a falar para Wajngarten que ninguém era "imbecil" e que o depoente estava "mentindo aqui para todos nós". Pouco antes de encerrar a reunião, Aziz disse a Wajngarten que a "prisão seria o menor castigo que você vai sofrer na vida, porque hoje, aqui, você não ficou bem com ninguém".

Você não agradou o governo, não agradou a ninguém, a ninguém você agradou aqui"
Omar Aziz, presidente da CPI da Covid

Senadores independentes e de oposição reclamaram por diversas vezes sobre o comportamento de Wajngarten ao avaliar que o publicitário e ex-membro do governo tentou se esquivar de perguntas, deu respostas escorregadias ou em contradição ao teor da entrevista que ele deu à revista Veja no final de abril deste ano.

Carta da Pfizer ficou dois meses à espera de resposta

Wajngarten confirmou que uma carta enviada pela Pfizer e endereçada a vários membros do governo federal, inclusive Bolsonaro, o vice Hamilton Mourão e três ministros, ficou dois meses sem resposta. No documento, a farmacêutica pedia ao governo brasileiro celeridade nas negociações e manifestava interesse em colaborar com o Brasil.

No entanto, Wajngarten buscou isentar Bolsonaro de qualquer culpa por não comprar doses da vacina da Pfizer ainda em 2020. Ele buscou ainda reforçar uma autonomia na Secom, sem suposta interferência do presidente ou dos filhos políticos.

Ao ser questionado sobre o impacto de declarações críticas de Bolsonaro a vacinas na imunização de brasileiros, por exemplo, Wajngarten buscou justificar que as falas teriam de ser analisadas sob um contexto maior e que não saberia dizer o alcance delas.

Ao falar das reuniões que manteve com representantes da Pfizer, Wajngarten procurou minimizar o número de doses ofertadas pela farmacêutica inicialmente, dizendo que, "no começo da conversa, ela falava em irrisórias 500 mil vacinas".

Parte de senadores também acredita que Wajngarten não foi claro ao responder, ao longo do depoimento, se todas as tratativas dele com a Pfizer e outros integrantes do governo sobre o assunto tinham ou não o conhecimento de Bolsonaro.

Wajngarten tenta amenizar críticas ao Ministério da Saúde

Na entrevista à Veja, o ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) revelou ter participado de negociações para a compra de vacinas e ter visto "incompetência" no Ministério da Saúde no processo para aquisições.

Hoje, Wajngarten procurou poupar Pazuello e o Ministério da Saúde, amenizando as críticas. Ele chegou a classificar Pazuello como "corajoso" por então assumir a pasta e evitou apontar eventuais culpados no governo por "dolo" ou pela "incompetência".

"Entendo que a incompetência é ficar refém da burocracia. Acho que a burocracia, a morosidade na tomada de decisões, que é característica da administração pública, é um problema nos casos excepcionais, como a gente tem da pandemia", disse.

A mudança no tom irritou a cúpula da CPI e, diante de acusações de contradições, Omar Aziz apresentou requerimento pedindo o envio da gravação da entrevista de Wajngarten concedida à revista pelo diretor de redação da Veja, Maurício Lima. Ainda durante o depoimento, a própria Veja divulgou áudio de trecho da entrevista em que o ex-secretário declara que houve "incompetência" na gestão da pandemia da covid-19 no país.

O áudio foi reproduzido por senadores de oposição na CPI. Ao ser perguntado pela revista se foi "negligência ou incompetência", Wajngarten declara: "Foi incompetência. Quando você tem um laboratório americano com cinco escritórios de advocacia apoiando a negociação e tem do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é sete a um".

Devido ao histórico de polêmicas envolvendo Wajngarten, que costumava atacar adversários usando as redes sociais, senadores já se preparavam para uma audiência de maior nível de tensão, com embates verbais entre o depoente e opositores do governo.

Mais para o final da reunião, já à noite, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) foi à CPI da Covid, da qual não é membro, e, ao defender Wajngarten, chamou Renan de "vagabundo". Houve troca de ofensas e a sessão foi suspensa por Omar Aziz.

Wajngarten muda versão de lembrança sobre autoria de campanha

Em outro momento tenso da CPI, Wajngarten disse não se lembrar da autoria de um vídeo com o slogan "O Brasil não pode parar", divulgado pelo governo Bolsonaro em março de 2020. Depois, pressionado por senadores, disse ter se lembrado que a Secom produziu a peça, mas que não teria sido aprovada por ele.

Wajngarten afirmou se tratar de uma peça em fase de testes e que o vídeo teria sido disparado por engano em grupos de WhatsApp.

Renan, no entanto, mostrou que o vídeo foi publicado em uma página oficial da Secom e em um site do governo. "Vossa Excelência mais uma vez mente", disse o senador.

O publicitário chegou a alegar num momento que, na época em que a mídia foi veiculada, estava em recuperação após ser diagnosticado com o novo coronavírus. No entanto, foi mostrado vídeo dele em conversa com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) dizendo que seguia trabalhando e aprovando campanhas.

Parlamentares independentes e de oposição avaliam que a campanha incentivava as pessoas a irem para as ruas e a retomarem os negócios, contrariando instruções de prevenção na pandemia.

Conteúdo do depoimento será encaminhado ao Ministério Público Federal

As declarações de Wajngarten são tidas como fundamentais para o futuro da Comissão Parlamentar de Inquérito, pois se trata de um personagem com relação próxima ao presidente da República, que vivia a rotina do Palácio do Planalto e que participava de reuniões na sede do Executivo federal.

Devido às controvérsias no depoimento, Aziz atendeu a um pedido do senador Humberto Costa (PT-PE) e decidiu que vai encaminhar o conteúdo da fala de Wajngarten ao Ministério Público Federal para que verifique se o ex-secretário cometeu crime de falso testemunho.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) quer a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico de Wajngarten.

Antes de encerrar a reunião, Aziz disse que o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mentiu mais do que Wajngarten e mandou o que foi considerado um recado indireto a Pazuello.

"Hoje eu posso não ter tomado a decisão que muitos queriam [de prisão], mas eu acho que você trouxe uma contribuição para esta CPI que ninguém, nenhum depoente trouxe até agora. Mas não se iluda que eu não vou ter essa parcimônia em relação aos outros depoimentos que tiverem aqui. Tenha certeza disso. Se alguém achar que vai brincar com a CPI, que vai intimidar a CPI, está muito enganado comigo."

Em nota divulgada ao final da CPI, a defesa de Wajngarten afirmou que o ex-secretário "respondeu a todos os questionamentos que lhe foram formulados, sem esconder ou omitir informações".

Disse ainda que ele "jamais faltou com a verdade e nem teve a intenção de fazê-lo". A tal incompetência, citada por ele à Veja, "se referia à morosidade da equipe do Ministério da Saúde, mas não ao [então-]ministro Eduardo Pazuello".

Quem já prestou depoimento à CPI

  • Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde
  • Nelson Teich, ex-ministro da Saúde
  • Marcelo Queiroga, ministro da Saúde
  • Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa.
  • Fabio Wajngarten, ex-secretário de comunicação da Presidência.

Próximos depoimentos previstos (nem todas as convocações já foram aprovadas, e as datas ainda podem sofrer alguma alteração):

  • Representantes da Pfizer: 13 de maio
  • Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores: 18 de maio
  • Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde: 19 de maio
  • Mayra Pinheiro, do Ministério da Saúde, conhecida como "capitã cloroquina": 20 de maio
  • Representante do Instituto Butantan: 25 de maio
  • Representante da Fiocruz: 26 de maio
  • Representante da União Química: 27 de maio

*Com a colaboração de Ana Carla Bermúdez e Douglas Porto

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.