Marielle: delação não aponta mandante, e demora dificulta busca por pistas

Com a delação do ex-PM Élcio de Queiroz, que admitiu envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a Polícia Federal avançou no caso. Mas investigadores afirmaram ao UOL que há uma dificuldade central: a distância no tempo entre quando ocorreu o crime e quando teve início a investigação em âmbito federal.

Os entraves da investigação

A distância entre o crime e o início da investigação da PF é de cinco anos. Marielle e Anderson foram mortos em 2018. No início deste ano, o ministro da Justiça, Flávio Dino, determinou a abertura de inquérito na PF, para ampliar a colaboração federal nas investigações. Nos anos anteriores, ocorreram tentativas de obstrução, pistas falsas e frequentes trocas no comando do inquérito, observadas com preocupação pela família e instituições de defesa dos direitos humanos.

O tempo decorrido dificulta encontrar novas pistas e provas de quem teria sido o mandante no crime. Ou mesmo para chegar a novos suspeitos que podem ter participado do assassinato, avaliam investigadores.

Há risco de que provas foram perdidas. É raro que câmeras de segurança ou informações de inteligência fiquem preservadas em locais privados por tanto tempo, por exemplo.

Tentativas para superar essas dificuldades tiveram êxito. Foi o caso do registro de trajeto obtido pela PF na Associação de Taxistas do Méier, com horário, dia e trajeto de um táxi solicitado pelo irmão de Ronnie Lessa logo após o crime — Ronnie é acusado de ter atirado em Marielle e Anderson.

Outras provas também podem ter sido destruídas. Na delação, Élcio afirma que a placa do carro foi picotada pelo grupo e que os pedaços do material foram descartados na região do Engenho de Dentro. As cápsulas das balas usadas no assassinato também foram jogadas na área, declarou o delator.

Élcio afirmou, em delação divulgada ontem, ter dirigido o veículo no dia do crime. O ex-bombeiro Maxwell Simões Corrêa, conhecido como Suel, teria atuado para obstruir as investigações sobre o assassinato, segundo as investigações.

O que dizem os envolvidos

Defesa mantém versão de que Ronnie Lessa não participou dos crimes. Segundo o advogado Bruno Castro, Lessa afirma que assistia a um jogo do Flamengo contra o Emelec, do Equador, no momento dos assassinatos. A versão foi mantida mesmo após os novos desdobramentos do caso.

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Nunca conversei com o Ronnie sobre os pontos que vieram a público com a delação do Élcio. O Ronnie sempre disse que não participou do crime e que assistia a um jogo de futebol no bar Resenha, na Barra da Tijuca, no momento da execução da Marielle. Bruno Castro, advogado de Ronnie Lessa

Defesa de Suel não comentou. Advogada de Maxwell, Fabíola Garcia afirmou que "a defesa ainda não conseguiu ler toda a delação, e somente após a leitura integral e análise irá se manifestar".

Novos nomes e mandante não identificado

Novos nomes também apareceram no depoimento de Élcio. Um deles é Edimilson Oliveira da Silva, conhecido como Macalé, que foi quem levou "o trabalho" de assassinar Marielle para Ronnie Lessa, segundo a delação do ex-PM. Macalé foi assassinado a tiros em 2021.

Durante a delação, Élcio não foi interrogado nenhuma vez sobre quem teria sido o mandante do crime. Ontem, o ministro da Justiça afirmou que a investigação não foi concluída, mas avançou para um "novo patamar": a de investigar os mandantes.

A arma utilizada também ainda não foi encontrada. Na delação, Élcio diz que Lessa poderia ter deixado a submetralhadora com um amigo policial.

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Entenda os avanços do caso Marielle

Élcio Queiroz prestou os depoimentos em junho passado, mais de cinco anos após o crime. O ministro Dino afirmou que ele receberá os benefícios da delação, mas continuará preso. Os termos da colaboração estão sob sigilo.

O ex-bombeiro Maxwell Simões Correa, o Suel, foi preso ontem. Com base nos depoimentos, a PF deflagrou ontem a operação Élpis, com um mandado de prisão preventiva e sete de busca e apreensão. Suel teria participado do planejamento do crime, em ações de vigilância e acompanhamento.

Na delação, Élcio afirma que foi Lessa quem atirou em Marielle e Anderson. Ele diz que foi recrutado por Lessa no próprio dia do crime e que dirigiu o carro usado na ocorrência. O ex-PM narrou em detalhes a noite do assassinato.

O delator diz ter recebido R$ 1 mil após servir de motorista para Lessa. Élcio relata que os dois foram a um bar, após o assassinato, e só lá ele soube que o motorista Anderson também tinha morrido.

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O ex-PM destacou, também, que a arma usada no crime tem origem no Bope, o batalhão especial da PM do Rio. O armamento, uma submetralhadora MP5, teria sido extraviada após um incêndio em um paiol da PM.

Para autoridades que acompanham o caso, a delação não resolve dúvidas sobre o crime. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, disse estar convencido de que o crime tem um mandante. A ministra Anielle Franco, irmã de Marielle, disse acreditar que não existe apenas motivação política no episódio.

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