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Após repercussão negativa, Bolsonaro insiste em culpar ONGs por queimadas

Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo
Imagem: Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo

Julia Lindner

22/08/2019 14h18

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) mostrou preocupação com a repercussão negativa de suas falas no exterior contra organizações não governamentais (ONGs), mas voltou a levantar hoje suspeitas sobre as entidades. Segundo Bolsonaro, em nenhum momento ele acusou as ONGs sobre queimadas na Amazônia porque não há provas e, sim, "suspeitas".

Em seguida, questionado por jornalistas sobre quem estaria por trás dos incêndios criminosos na Floresta Amazônica, Bolsonaro voltou a dizer que há "indício fortíssimo de que ONGs estão por trás das queimadas".

"São os índios, quer que eu culpe os índios? Vai escrever os índios amanhã? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que esse pessoal da ONG perdeu a teta deles. É simples", reagiu.

Indagado se poderiam ser fazendeiros os responsáveis pelos incêndios, ele concordou. "Pode, pode ser fazendeiro, pode. Todo mundo é suspeito, mas a maior suspeita vem de ONGs", reforçou.

De acordo com o presidente, as ONGs "perderam dinheiro" e "estão desempregadas", por isso, teriam interesse em fazer uma campanha contra o governo.

"Não se tem prova disso, meu Deus do céu. Ninguém escreve isso, vou queimar lá, não existe isso. Se você não pegar em flagrante quem está queimando e buscar quem mandou fazer isso, que isso tá acontecendo, é um crime que está acontecendo."

Bolsonaro criticou a imprensa e disse que é "inacreditável" a forma como suas falas contra ONGs foram publicadas nos jornais.

"O Brasil vai chegar à situação da Venezuela, é isso o que a grande imprensa quer", declarou. "Se o mundo lá fora começar a impor barreiras comerciais, nosso agronegócio vai começar a dar para trás, a vida de você (jornalistas) vai estar complicada como a de todos."

Para ONGs, declaração de Bolsonaro é 'covarde' e 'sem base na realidade'

Acusadas pelo presidente de serem as "maiores suspeitas" pelo incêndio criminoso que se alastra pelo Amazônia nos últimos dias, as principais organizações ambientais internacionais e brasileiras reagiram às declarações de Bolsonaro.

"A declaração é, antes de tudo, covarde, feita por um presidente que não assume seus atos e tenta culpar terceiros pelos desastres ambientais que ele mesmo promove no País", disse ao Estado o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Marcio Astrini. "A Amazônia está agonizando e Bolsonaro é responsável por cada centímetro de floresta que está sendo desmatada e incendiada."

O WWF Brasil afirmou que a prioridade do governo deveria zelar pelo patrimônio, e não criar "divergências estéreis e sem base na realidade" do que ocorre na região.

"O WWF Brasil lamenta a nova tentativa do presidente Jair Bolsonaro de desviar o legítimo debate da sociedade civil sobre a necessidade de proteger a Amazônia e, consequentemente, combater o desmatamento que está na origem dos incêndios fora de proporção que assolam o País e comprometem a qualidade do ar em várias regiões", declarou.

Maia vai criar comissão externa para acompanhar situação

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse em seu perfil pessoal no Twitter que a Casa vai criar uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas que atingem a Amazônia. Além disso, o parlamentar informou que também vai realizar uma comissão geral nos próximos dias para avaliar a situação e propor soluções ao governo.

Repercussão negativa na imprensa internacional

A declaração de Bolsonaro de que ONGs poderiam estar por trás do fogo na região da Amazônia teve ampla repercussão negativa na imprensa internacional nesta quarta-feira, 21.

O jornal britânico The Guardian traz a informação de que Bolsonaro acusou ambientalistas de atear fogo na Amazônia para constranger seu governo, mas que o presidente não fornece evidências.

O site da revista alemã Spiegel traz a manchete "Floresta tropical do Brasil está pegando fogo". O texto diz que Bolsonaro tem uma política ambiental inconsequente.

Já a BBC News, do Reino Unido, mostra um vídeo com imagens dos incêndios na região da Amazônia. Na reportagem, cientistas dizem que a floresta tropical sofreu perdas e21m um ritmo acelerado desde que Bolsonaro assumiu o poder em janeiro.

Em Portugal, o jornal Público disse que a Amazônia está ardendo e já é possível ver do espaço.

No canal de notícias árabe Al Jazira, sediado no Catar, uma reportagem traz informações sobre os incêndios na Floresta Amazônica do Brasil que atingiram um recorde neste ano. A publicação disse que imagens de satélite da Agência Espacial Americana (Nasa, na sigla em inglês) mostram fumaça cobrindo a metade norte do País - uma área maior do que a Europa.

Na internet, a hashtag #PrayForTheAmazon (reze pela Amazônia) chegou a ocupar o primeiro lugar no Twitter desta quarta.

Artistas se manifestam nas redes sociais sobre as queimadas na Amazônia

Artistas brasileiros e internacionais usaram as redes sociais nos últimos dias para chamar atenção sobre as queimadas na Amazônia. A modelo Gisele Bündchen, a empresária Kim Kardashian, os cantores Caetano Veloso e Elza Soares, os atores Leonardo DiCaprio, Leandra Leal, Lindsay Lohan e Taís Araújo foram alguns dos que se manifestaram.

Ataques de Bolsonaro a ONGs

O presidente fez os primeiros ataques às ONGs nesta quarta, depois de vir à tona que número de focos de queimadas em todo o Brasil neste ano já é o mais alto dos últimos sete anos, conforme mostrou o Estado na segunda-feira, 19.

Desde 1º de janeiro até esta terça-feira, 20, foram contabilizados 74.155 focos, alta de 84% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que contabiliza esses dados desde 2013.

Um pouco mais da metade (52,6%) desses focos vem ocorrendo na Amazônia, com Mato Grosso na liderança. As queimadas já superam em 8% o recorde de 2016, um ano de extrema seca, que tinha registrado 68.484 focos no mesmo intervalo de tempo.

Apesar de este ano também estar com uma estiagem mais prolongada - o que chegou a ser sugerido como uma possível causa para o aumento das queimadas -, a seca é menos intensa do que a de 2016. Estudo divulgado nesta terça pelo Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia (Ipam) apontou uma forte correlação entre o aumento das queimadas com a alta no desmatamento da Amazônia.

O total de focos neste ano já é 60% superior à média dos últimos três anos e está sendo impulsionando pelo corte da floresta, disseram os pesquisadores da ONG em nota técnica. Alertas de desmatamento feitos pelo Inpe indicam uma alta de 49,45% no desmatamento entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores.

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