Repreendendo as agências de risco após encobrirem os bancos

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Stan Honda/AFP

    Fachada da rua onde funciona o centro financeiro dos EUA, em Nova York

    Fachada da rua onde funciona o centro financeiro dos EUA, em Nova York

Parabéns para o Subcomitê Permanente de Investigações do Senado. Seu trabalho sobre a crise financeira está parecendo cada vez mais como a versão do século 21 das audiências Pecora, que ajudaram a promover a regulamentação financeira da era do New Deal. Nos últimos dias, mensagens de e-mail escandalosas de Wall Street divulgadas pelo subcomitê ganharam as manchetes. 

Isto é uma boa notícia. A má notícia é que a maioria das manchetes foi sobre os e-mails errados. Foi feio os funcionários do Goldman Sachs se gabarem do dinheiro que ganharam apostando na queda do mercado imobiliário, mas isso não significa que fizeram algo errado. 

Não, os e-mails nos quais devíamos nos concentrar são aqueles dos funcionários das agências de rating (classificação de crédito e risco), que concederam classificações AAA para centenas de bilhões de dólares em ativos de valor dúbio, quase todos aqueles que de lá para cá se transformaram em lixo tóxico. E não, não é uma hipérbole: dos papéis apoiados por hipotecas subprime (de risco) classificadas como AAA emitidos em 2006, 93% –isso mesmo, 93%!– foram rebaixados ao status de junk (podre). 

O que esses e-mails revelam é um sistema profundamente corrupto. E é um sistema que a reforma financeira, como atualmente proposta, não consertaria. 

As agências de rating começaram como pesquisadoras de mercado, vendendo avaliações de dívida corporativa para pessoas considerando a compra ou não dessa dívida. Posteriormente, entretanto, elas se transformaram em algo bastante diferente: empresas contratadas pelas pessoas que vendem as dívidas para darem às dívidas um selo de aprovação. 

Esses selos de aprovação passaram a ter um papel central em todo nosso sistema financeiro, especialmente para investidores institucionais como fundos de pensão, que só comprariam seus títulos se eles tivessem a cobiçada classificação AAA. 

Era um sistema que parecia digno e respeitável na superfície. Mas ele produzia imensos conflitos de interesse. Os emissores da dívida –que cada vez mais eram empresas de Wall Street vendendo papéis criados por elas picando e misturando coisas como as hipotecas subprime– podiam escolher entre várias agências de rating. De forma que podiam direcionar seus negócios para a agência que mais provavelmente lhes daria um veredicto favorável, assim como ameaçavam retirar os negócios da agência que se esforçasse para cumprir seu papel. É óbvio demais, olhando para trás, como isso poderia corromper o processo. 

E corrompeu. O subcomitê do Senado tem concentrado suas investigações em duas das maiores agências de rating, Moody’s e Standard & Poor’s; o que ele encontrou confirma nossas piores suspeitas. Em um e-mail, um funcionário da S&P explica que uma reunião é necessária para “discutir o ajuste dos critérios” para avaliação dos papéis baseados em imóveis, “por causa da grande ameaça de perdas”. Outra mensagem se queixa de ter que usar recursos “para massagear os números subprime e alt-A (médio risco) para preservar participações de mercado”. Claramente, as agências distorceram suas avaliações para agradar seus clientes. 

Essas avaliações distorcidas, por sua vez, ajudaram o sistema financeiro a correr um risco muito maior do que poderia correr. Paul McCulley da Pimco, a empresa de investimento, que foi aquele que cunhou o termo “shadow banks” (o sistema bancário paralelo) para as instituições no coração da crise, descreveu recentemente o assunto desta forma: “o crescimento explosivo do sistema bancário paralelo era como uma mão invisível caindo na farra, uma farra não regulamentada regada a bebida alcoólica, com as agências de rating distribuindo identidades falsas”. 

E o que poderia ser feito para impedir que isso aconteça de novo? 

O projeto de lei atualmente no Senado tenta fazer algo a respeito das agências de rating, mas no geral é muito fraco no assunto. O único artigo que poderia ter alguma força é o que facilita que as agências de rating sejam processadas, caso estejam envolvidas em um “fracasso negligente ou consciente” em fazer o que é certo. Mas isso não é o bastante, dado o dinheiro que está em jogo –e o fato de Wall Street poder pagar advogados muito caros e muito bons. 

O que realmente precisamos é de uma mudança fundamental nos incentivos dos avaliadores. Nós não podemos voltar aos tempos em que as agências de rating ganhavam dinheiro vendendo grandes livros de estatísticas; a informação flui livremente demais na era da Internet, de forma que ninguém compraria os livros. Mas algo precisa ser feito para acabar com a natureza fundamentalmente corrupta de um sistema no qual o emissor paga. 

Um exemplo do que poderia funcionar é uma proposta de Matthew Richardson e Lawrence White, da Universidade de Nova York. Eles sugerem um sistema no qual as firmas que emitem os títulos continuam pagando às agências de rating para avaliarem os títulos –mas no qual a Comissão de Valores Mobiliários, e não a firma emissora, determina que agência de rating fará o serviço. 

Eu não me prendo a esta proposta em particular. Mas não fazer nada não é uma opção. É confortável fingir que a crise financeira foi causada apenas por erros honestos. Mas não foi. Em grande parte ela foi resultado de um sistema corrupto. E as agências de rating tiveram um grande papel nessa corrupção.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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