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Rainha da Ciranda, Lia de Itamaracá é celebrada pelos maiores blocos de PE

Lia de Itamaracá - Hélia Scheppa
Lia de Itamaracá Imagem: Hélia Scheppa

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

18/02/2019 04h00

Figura imponente, com elegância espontânea e sorriso expansivo, Lia, 75 anos, é uma figura lendária. A mulher negra, de 1,87 m, que vive de maneira humilde na ilha de Itamaracá, a 48 quilômetros do Recife, é a mais famosa artista de cultura tradicional pernambucana com visibilidade nacional, atualmente.

Com persistência e simpatia, ela traçou ao longo dos anos uma carreira oscilante entre o ostracismo e a fama, tornando-se símbolo da ciranda e Patrimônio Vivo do estado.

Lia de Itamaracá, como Maria Madalena Correa do Nascimento é conhecida, será homenageada neste ano pelos dois dos mais importantes blocos do Carnaval pernambucano: o Galo da Madrugada, no Recife, ao lado de outras mulheres artistas, e O Homem da Meia-Noite, em Olinda. Ambos desfilam em 1º de março - o primeiro, às 9h, e o segundo, na madrugada de sábado para domingo.

"O Galo é o maior bloco do mundo. Lia ser homenageada, para mim, é muito importante. Porque eu amo o Carnaval", diz a cantora, que costuma se referir a si mesma em terceira pessoa. "Já O Homem da Meia-Noite é um bloco que há muito tempo eu assisto pela TV. E eu tinha tanta vontade de estar perto dele. Aí, neste ano, eu vou ser homenageada. Para mim é sensacional. O Carnaval está pronto, está feito."

É de homenagens assim, "ao vivo", que a cantora diz que gosta. "Prefiro que me homenageiem em vida. Porque estou aqui para ver. Depois de morta, nem venham [com homenagens]", afirma, sorrindo.

A história de Lia com Carnaval é recente. Embora sempre tenha feito shows durante as festas em Pernambuco, ela passou a seguir maracatus e blocos há pouco tempo, acompanhando o marido, Toinho, que é porta-estandarte de agremiações recifenses.

Hélia Scheppa
Imagem: Hélia Scheppa
Realeza

Lia é conhecida em Pernambuco como Rainha da Ciranda, fama que surgiu no final dos anos 1970 com a gravação de seu primeiro e único LP. Naquele período, jovens universitários recifenses iam até Itamaracá para assistir às apresentações da cantora.

Nas décadas seguintes, por falta de administração da carreira, a cirandeira entrou no ostracismo, e somente reapareceu 20 anos depois, junto do Manguebeat -que resgatou artistas da cultura popular pernambucana. 

Chamada de "diva da música negra" pelo jornal New York Times e comparada à africana Cesária Évora pelo Le Parisien, por causa da voz marcante, Lia é hoje, novamente, uma artista emblemática: influencia cantoras pernambucanas, como Karina Buhr, e é elogiada por Marisa Monte -com quem, aliás, dividiu o palco na abertura do Carnaval do Recife, em 2008, ao lado de Elza Soares e do percussionista Naná Vasconcelos. 
 
"Marisa é uma grande amiga minha. Toda vez que vem para o Recife me manda convite, e eu vou vê-la. No Rio de Janeiro, ela também vai aos meus shows", conta a pernambucana.

Lia mora na praia de Jaguaribe, na periferia da ilha, onde nasceu e cresceu. "Minha mãe era empregada e, graças a Deus, ninguém passou fome." A cantora trabalhou 28 anos como merendeira em uma escola pública, até se aposentar. Na areia da praia, bem perto de casa, ela ergueu o Centro Estrela de Lia, uma barraca coberta com palhas de coqueiro, onde fazia suas apresentações. O espaço, que desabou em 2014 após uma tempestade, está fechado agora por falta de verba para finalizar as instalações. 

A volta à cena musical, nos anos 1990, incluindo parcerias com a Nação Zumbi, colocou Lia também diante do público jovem e em sintonia com outras áreas culturais de Pernambuco, além da música. É o caso do cinema, em trabalhos do diretor Kleber Mendonça Filho (de "Aquarius"): a cantora esteve no curta "Recife Frio" (2009) e estará no longa "Bacuraru", com estreia prevista para este ano.

Aos 75 anos, Lia prepara um novo CD, que também deve ser lançado em 2019, com patrocínio do Natura Musical. O disco é produzido pelo DJ Dolores, nome ligado ao Manguebeat e que também assinou trabalhos com Gilberto Gil e Adriana Calcanhotto. "Vai ser só música inédita", comemora Lia.
 

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