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Balaio do Kotscho

Vivemos no país do "novo anormal", mas a maioria parece satisfeita

Bolsonaro e parlamentares do Centrão - Marcos Corrêa/PR/Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro e parlamentares do Centrão Imagem: Marcos Corrêa/PR/Marcos Corrêa/PR
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/09/2020 17h20

De tanto falarem no "novo normal" pós-coronavírus, comecei a notar que por aqui já estamos vivendo no "novo anormal", embora a pandemia ainda não tenha acabado.

Dessa forma, as maiores barbaridades continuam acontecendo, esfregadas na nossa cara, à luz do dia, mas tudo é rapidamente "normalizado", como veremos neste texto.

"O Brasil é assim mesmo...", dizem os mais conformados, já fazendo planos para o próximo feriadão.

Não perderá dinheiro quem apostar na vitória deste "novo anormal" para guiar os destinos do país daqui para a frente.

É o que demonstram todas as últimas pesquisas: o povo parece satisfeito com o faz-de-conta que o pior já passou, e está tudo bem, tudo favorável.

Realidade virtual X verdade factual

Levantamento divulgado nesta quarta-feira pelo PoderData (do respeitado jornalista Fernando Rodrigues) mostra que 50% aprovam o governo e 41% o desaprovam, mantendo praticamente inalterados os índices da pesquisa anterior (52% a 40%), dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.

A realidade virtual das milícias digitais e da propaganda oficial, que remete aos tempos do "Brasil Grande" dos militares, está derrotando a verdade factual, o bom senso, a lógica e a ciência, apesar dos números da economia insistirem em apontar exatamente o contrário. O "vale do Bolsonaro" faz o resto.

Se a notícia é negativa, simplesmente não se comenta, como fez o presidente esta semana, ao se recusar a falar sobre os 9,7% de queda do PIB, um recorde histórico.

Metade da população, como mostra a pesquisa, prefere acreditar no que dizem o presidente e o mago Paulo Guedes sobre a recuperação da economia em "V", seja lá o que isso quer dizer.

Para os 41% de incrédulos, o governo já encontrou a solução: vai quadruplicar a verba de publicidade oficial em 2021.

Verba para publicidade

Faltam recursos para tudo, menos para os ministérios da Defesa e da Propaganda.

Agora mesmo, Bolsonaro mandou incluir R$ 495,5 milhões no orçamento do próximo ano para a "comunicação institucional", comandada pelo ministro Fábio Faria, um dos próceres do Centrão e genro de Silvio Santos, dono do SBT.

Este ano, o orçamento previa R$ 124,5 milhões para a publicidade, mas essa verba foi engordada com R$ 14 milhões tirados da Saúde e da Educação e outros R$ 83,9 milhões que saíram do Bolsa Família.

Para multiplicar por quatro essa verba no próximo ano, o governo já está mirando longe, preparando-se para a campanha presidencial de 2022.

É que pela lei e, segundo as regras do TSE, governos só podem aplicar em propaganda a média da verba investida no primeiro semestre nos três anos anteriores à eleição.

Ou seja, reservando essa bolada de quase meio bilhão para o ano que vem, aumenta a muito a média para ser usada na propaganda do governo em 2022, que é o que interessa.

Mas ninguém repara mais nessas coisas porque agora virou tudo o "novo anormal".

Reforma administrativa

Ou não é anormal a proposta de reforma administrativa deixar de fora magistrados, parlamentares, militares e membros do Ministério Público, justamente as corporações com os mais altos salários, como anunciou hoje Greisson Cardoso Rubin, secretário especial adjunto de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia?

Rubin poderia começar diminuindo o nome do seu cargo, que consome muito papel nas correspondências.

A explicação para a manutenção dos privilégios é um primor: "A proposta abrange servidores dos três Poderes, mas não se estende aos membros dos três Poderes".

Maravilha, eles fazem as suas próprias leis, garantem todos os seus salários e penduricalhos, e depois vão fazer a reforma nos direitos dos outros menos poderosos.

Também foi rapidamente normalizado um fato que chamaria a atenção em outros tempos: a demissão coletiva dos sete procuradores da Lava Jato de São Paulo, depois que a chefe da operação, Viviane Martinez, mandou parar a investigação sobre o tucano José Serra (ontem mesmo, Gilmar Mendes mandou o processo para o STF).

Ao chegar nos amigos tucanos e nos aliados do Centrão, a Lava Jato de Moro & Dallagnol desandou. E os dois sumiram de cena.

O melhor retrato desses tempos do "novo anormal" é a galeria de 16 fotos do presidente Bolsonaro confraternizando com parlamentares do Republicanos (!), todos sorridentes, comemorando não se sabe o quê, publicada na Folha desta quarta-feira. E ainda faltam dois anos para começar oficialmente a campanha pela reeleição.

A turma do Centrão parece satisfeita da vida, assim como a metade do país.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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