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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Dino com Sarney, Lira sem Bolsonaro: as reviravoltas da eleição no Nordeste

Arthur Lira e Jair Bolsonaro estão separados nas eleições em Alagoas - Evaristo Sá/AFP
Arthur Lira e Jair Bolsonaro estão separados nas eleições em Alagoas Imagem: Evaristo Sá/AFP
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Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

06/08/2022 04h00

A definição das coligações para as eleições nos estados do Nordeste trouxe uniões e separações impensáveis para quem analisava o cenário político há um ano. Ontem, terminou o prazo para as convenções partidárias.

Opositores históricos se aliaram e houve rompimentos traumáticos. Com isso, as eleições terão palanques que juntaram "água e óleo" e que separaram "gêmeos siameses''.

A coluna separou seis episódios no mínimo curiosos de alianças feitas (ou desfeitas) para as eleições estaduais em 2022 e conta seus bastidores.

Lira sem Bolsonaro em Alagoas

A estreita ligação entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), não foi capaz de uni-los na disputa pelo governo de Alagoas.

Lira levou o PP a apoiar um candidato que vota na terceira via em nível nacional: o senador Rodrigo Cunha (União Brasil). Já a prima de Lira, a deputada estadual Jó Pereira (PSDB), é a vice na chapa e também não tem qualquer identificação com Bolsonaro ou com o bolsonarismo.

No estado, o PL de Bolsonaro se coligou e indicou o vice na chapa ao governo encabeçada pelo senador Fernando Collor de Mello (PTB). O nome escolhido pelo partido foi o do vereador de Maceió Leonardo Dias.

A aliança também pode ser classificada como inesperada, já que historicamente os bolsonaristas rejeitavam o nome de Collor. Ele também, a princípio, disputaria uma vaga ao Senado.

Collor é o candidato de Bolsonaro em Alagoas - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Collor é o candidato de Bolsonaro em Alagoas
Imagem: Reprodução/Instagram

Sarney apoia candidato de Dino

No Maranhão, o maior opositor recente do sarneysismo no estado, o ex-governador Flávio Dino (PSB), estará no mesmo palanque ao governo que o MDB da família Sarney.

No dia 21 de julho, o MDB maranhense decidiu em convenção apoiar Carlos Brandão (PSB) na disputa. No mesmo dia, Roseana Sarney tirou fotos ao lado de Brandão, que assumiu o governo para Dino se candidatar ao Senado.

O apoio do partido a Dino foi acertado em convenção e registrado em ata, mas, como havia rejeição, o apoio ainda não pode se dizer consolidado.

Governador (e candidato) Carlos Brandão e Flávio Dino regam planta em Chapadinha (MA) - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Governador (e candidato) Carlos Brandão e Flávio Dino (à dir.) regam planta em Chapadinha (MA)
Imagem: Reprodução/Facebook

Marília Arraes, a direita e o PSB em Pernambuco

Pernambuco foi um estado de grandes reviravoltas. A líder na disputa para o governo, Marília Arraes (SD), deixou o PT em março. A surpresa foi na aliança pelo candidato ao Senado: o deputado federal André de Paula (PSD).

De Paula é um político de direita, foi opositor dos governos petistas de Lula e Dilma e se alinhou muitas vezes a favor de pautas ligadas ao governo Bolsonaro. Marília sempre esteve com Lula e o PT, mesmo enquanto esteve no PSB.

Na apresentação de seu nome na chapa, ele fez questão de dizer que era um projeto que "unia políticos diferentes", tamanha a divergência ideológica de ambos. "Nós não somos iguais, temos posições e ideias distintas, mas temos responsabilidade e entendemos a gravidade do momento", disse ele.

Marília recebe apoio de André de Paula (PSD), que será candidato ao Senado - Divulgação - Divulgação
Marília recebeu apoio de André de Paula (PSD), que será candidato ao Senado
Imagem: Divulgação

Já do outro lado, o PSB —que usou o antipetismo como arma de campanha em 2020 na eleição contra Marília Arraes (então no PT) à Prefeitura do Recife — agora é o novo "amigo de infância" do partido.

Danilo Cabral, o candidato apoiado por Lula ao governo, porém, não foi bem recebido por grande parte da militância petista durante os últimos atos do ex-presidente. Na plateia dos eventos em Pernambuco, o que mais se ouviu foi um coro pelo nome de Marília.

Cabral apoiou Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição de 2014 e votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016 —o que parece não ter sido esquecido nem perdoado por parte dos lulistas.

Deputado federal Walter Alves, Lula e Garibaldi em encontro recente em Natal - Marcus Mendes/Divulgação                             - Marcus Mendes/Divulgação
Tereza Leitão (PT), Luciana Santos (PCdoB), Lula e Danilo Cabral em evento no Recife
Imagem: Marcus Mendes/Divulgação

Camilo separado dos Gomes

Com certeza, este é o fato mais marcante e imprevisto da eleição no Ceará neste ano.

Camilo Santana (PT) sucedeu Cid Gomes (PDT) no governo do Ceará. Sempre foi um aliado de primeira hora da família Ferreira Gomes, mas vão estar em palanques opostos.

O ex-governador lutou o quanto pôde para que o PDT indicasse o nome de sua então vice e atual governadora, Izolda Cela (hoje sem partido), para concorrer ao governo. Mas o PDT acabou optando pelo ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio.

Com a escolha de Cláudio, o PT rompeu uma aliança de 16 anos com o PDT e lançou o nome do deputado estadual Elmano de Freitas (PT) para concorrer ao governo. Camilo agora defende o nome do petista como o legítimo sucessor do seu projeto.

Graças a sua boa aprovação quando deixou o governo do estado, em abril, Camilo é hoje favorito para ser eleito senador no Ceará.

Senador Cid Gomes e Camilo Santana: aliança de PDT e PT acabou - Antonio Cruz/ Agência Brasil - Antonio Cruz/ Agência Brasil
Senador Cid Gomes e Camilo Santana: aliança de PDT e PT acabou
Imagem: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Rompimento na Bahia, de braços dados com ACM

Na Bahia, a surpresa veio após o vice-governador João Leão e seu partido, o PP, romper com o PT uma parceria de 14 anos na Bahia. Ele fez mais: pulou para os braços do maior rival, o ex-prefeito de Salvador e favorito para vencer as eleições, ACM Neto (União Brasil).

O racha veio em março, após o governador Rui Costa se recusar a sair do cargo para que ele assumisse, frustrando seus planos.

Com a desistência do senador Jaques Wagner de disputar o governo, o PP queria que o governador renunciasse para entrar na disputa pelo Senado, o que abriria caminho para João Leão governar a Bahia por nove meses. Nesse cenário, Otto Alencar (PSD) seria o candidato a governador.

Entretanto, Rui Costa não quis sair, então Leão foi apoiar o rival.

Após ser anunciado como pré-candidato, em maio Leão desistiu de concorrer ao Senado, mas indicou seu filho, o deputado federal Cacá Leão (PP), para o seu lugar.

João Leão abandonou o PT e migrou para o lado de ACM Neto - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
João Leão abandonou o PT e migrou para o lado de ACM Neto
Imagem: Reprodução/Facebook

PT se junta a opositores no RN

Com uma nova costura de alianças —e o auxílio de Lula—, o PT atraiu grupos que se uniram para derrotar o partido no estado em 2018.

A governadora Fátima Bezerra (PT), que tenta a reeleição, terá no seu palanque o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo (PDT), que sai como candidato ao Senado. Foi contra ele que, em 2018, ela disputou e venceu o segundo turno da eleição.

O MDB, que em 2018 se coligou com Carlos Eduardo, anunciou apoio ao PR e, graças à negociação de Lula, acabou indicando o vice na chapa: o deputado federal Walter Alves, filho do ex-ministro Garibaldi Alves (MDB) —que será candidato à Câmara dos Deputados.

Garibaldi, Lula e o deputado federal Walter Alves em encontro recente em Natal - Ricardo Stuckert/Divulgação - Ricardo Stuckert/Divulgação
Garibaldi, Lula e o deputado federal Walter Alves em encontro recente em Natal
Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação

Em 2018, em um arco de alianças bem mais modesto, Fátima venceu a eleição apenas com o apoio de PCdoB e PHS.

A conta caiu no colo dos comunistas. O PT rifou o PCdoB do posto de vice, em vez de manter a parceria de 2018, quando indicou Antenor Roberto. Ainda assim, o partido manteve o apoio para Fátima.