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Jamil Chade


Na Europa, secretário de Bolsonaro chama palestrante de canalha e bate boca

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/11/2019 06h25

O secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, promoveu um bate boca durante a Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola, realizada em Lisboa.

Durante o evento, no dia 22, um dos palestrantes declarou que Caetano Veloso teria sido censurado por Jair Bolsonaro. A frase foi dita por Ramiro Noriega, da Universidade das Artes do Equador, depois de que os organizadores do evento colocaram uma canção de Caetano para abrir um debate. "Temos de lembrar que Bolsonaro censurou Caetano", disse, para a risada dos presentes.

No dia 4 de novembro, Caetano Veloso esteve no Supremo Tribunal Federal e participou de uma audiência pública com a ministra Carmen Lúcia contra o decreto do presidente Jair Bolsonaro que, segundo ele, poderia ser um primeiro passo a uma censura na produção audiovisual brasileira.

Enquanto o equatoriano falava, Alvim interrompeu o debate para gritar, da plateia. "Isso não é verdade".

Momentos depois, o secretário voltou a tomar a palavra, desta vez no palco do evento. O que chamou a atenção dos organizadores não foi a insistência de o governo ter um direito de resposta e contestar uma frase dita por um dos participantes. Mas a agressividade do secretário.

"Sei que hoje é um dia de festa e não quero estragar isso. Mas sou obrigado a mencionar um fato", disse Alvim.

"Um indivíduo disse que Bolsonaro censurou Caetano Veloso. Se me for apresentado agora uma prova dessa censura, eu engulo o que eu disse. Se não for, eu afirmo esse sujeito é um mentiroso e um canalha", atacou.

"Ele está fazendo uso da linguagem para mentir e não há pior uso da linguagem do que a mentira", declarou.

Alvim passou a ser vaiado por parte do público, que protestou contra sua forma de agir.

"Pera ai, pera ai", respondeu ainda do palco. "O sujeito se levantou e disse uma mentira. Eu estou apenas respondendo a isso. Eu não ataquei ninguém primeiro. Ao responder a isso, a esquerda faz, como sempre, a velha e boa chantagem de dizer o que ela quer e não aceitar uma resposta", apontou.

Exaltado, ele continuou. "Isso é típico. Isso sempre acontece. Vocês sempre agem com esse tipo de chantagem. Vocês atacam e depois não admitem que ninguém responda ao ataque de vocês", afirmou.

Interpelado por alguém na plateia, ele respondeu de forma dura.

"Bom senso tenha você", disse. "Não tente me censurar. Você não vai me calar. A esquerda não vai mais calar a maioria do povo brasileiro", afirmou. E concluiu dizendo que esperava "não ter estragado a noite de festa".

Durante o seu discurso, ele insistiu que o "governo está empenhado, depois de duas décadas de destruição artística, cultura e sobretudo educacional a recuperar a grandiosidade e sacralidade de nossa língua portuguesa, assim como a respeitar a a grandiosidade da língua espanhola".

Em seu discurso, ele ainda atacou o "politicamente correto" que, segundo ele, "procura "deturpar a realidade".

Alvim completou sua fala sem ser aplaudido. Após ele, quem tomou a palavra foi Nélida Piñon.

Unesco

Essa foi a segunda vez que Alvim, em uma semana, chamou a atenção internacional por sua violência. Num evento na terça-feira na Unesco, em Paris, o brasileiro atacou a arte no país nos últimos 20 anos. Recém empossado, ele alegou que a cultura teria se transformado em palanque político e instrumento de um projeto de poder da esquerda.

Num discurso que pediu o retorno aos clássicos e que terminou com a frase "Glória a Deus", Alvim ainda citou "forças tirânicas" e alertou para o risco de uma sociedade com uma "arte doente". "Uma ideologia horrível deu espaço para uma guerra cultural horrível", declarou.

No debate em que ele se encontrava, outros ministros estavam presentes. Enquanto ele falava, vários trocavam sorrisos e olhares preocupantes, inclusive uma ministra da Costa Rica que sentava ao seu lado.

Mas coube ao discreto ministro da Suíça, Alain Berset, reagir à fala do secretário brasileiro.

Ao terminar seu discurso sobre a política cultural na Suíça, Berset afirmou que tomaria a liberdade de comentar o que acabara de ouvir e que o teria lhe chamado a atenção.

"Não sejam demasiados duros com vocês mesmos", recomendou o representante de Berna, se dirigindo ao brasileiro. "O Brasil tem uma enorme cultura. É um país que todos admiramos", disse Berset, que foi em 2018 o presidente da Suíça.

"O Brasil teve um enorme impacto globalmente, em muitas disciplinas culturais. na musica e arte. Nossos atores culturais podem ter um impacto que vai bem além de nossas fronteiras nacionais", alertou o suíço, que fez questão de dizer que aquele encontro era uma reunião "amistosa entre ministros".

Entre governos estrangeiros, a iniciativa de Berset de comentar a situação no Brasil foi interpretada como uma alfinetada diplomática. Outros diplomatas europeus na sala indicaram que se sentiram "aliviados" pelo fato de o discurso do brasileiro ter sido respondido.

Dentro do governo, porém, Alvim foi felicitado por sua atuação e seu discurso agressivo, sua referência religiosa e seus ataques contra a esquerda. O secretário chegou a receber telefonemas de autoridades em Brasília para o felicitar pelo tom usado.

Jamil Chade