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Jamil Chade


Chanceler diz que carta ambiental é "último refúgio do marxismo"

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, na Casa Branca - Reprodução/Twitter
O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, na Casa Branca Imagem: Reprodução/Twitter
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/02/2020 19h10

Numa entrevista concedida a um site ligado ao bolsonarismo na noite de terça-feira, o chanceler Ernesto Araújo afirmou que os questionamentos que o governo brasileiro recebeu sobre a Amazônia fazem parte de um suposto plano para "intimidar" o país.

Segundo ele, quando em 2019 os incêndios geraram uma polêmica internacional e protestos por parte de entidades e governos estrangeiros, o caso foi usado para pressionar a administração Bolsonaro. "Foi um momento importante de afirmação do nosso programa", disse. "O que certas forças quiseram era nos intimidar usando carta ambiental", declarou, sem citar nomes.

"O nosso programa estava dando certo", afirmou, sobre sua política externa e até sobre o crescimento da economia. Segundo ele, quem resistia ao governo Bolsonaro no exterior reagiu e optou por usar a questão ambiental.

"Nossa, o Brasil está dando certo. Precisamos atacar de alguma forma", disse o chanceler, imaginando um diálogo de um estrangeiro. "Vamos usar a carta ambiental, o último refúgio do marxismo na defensiva", afirmou. Ao explicar o caso, Araújo deixou claro que o governo optou por se manter "fiel" ao seu projeto e não ceder.

Mas também alertou para a "falta de cultura" que existe na Europa sobre "essa questão ambiental" e como a esquerda brasileira saiu em busca de aliados na UE para ampliar essa pressão.

O chanceler, porém, não citou como parlamentos pela Europa, ainda hoje, tem votado moções de forma unânime contra o acordo entre UE e Mercosul, alegando o desrespeito do Brasil pelos temas ambientais. Ele tampouco citou os dados oficiais que indicam um aumento no ritmo de desmatamento no país em 2019. Ficou de fora de seu discurso as denúncias da ONU sobre a situação de ativistas ambientais no Brasil ou de grupos indígenas.

O site que entrevistou o chanceler é o Terça Livre. Quem conduzia a conversa com o ministro usara, no mesmo dia, as redes sociais para ofender com termos sexuais a jornalista Patrícia Campos Mello. Em 2019, foi o mesmo apresentador quem usou as redes sociais para insinuar um envolvimento islâmico no incêndio da Igreja de Notre Dame, algo jamais citado pelas investigações na França.

Também no ano passado, o site manipulou frases da jornalista Constança Rezende, na época reporter do Estado de S. Paulo, para atacar sua reputação. Ela havia escrito matérias sobre Flávio Bolsonaro e suspeitas de corrupção.

Por uma hora e meia, porém, o apresentador teceu elogios à diplomacia de Araújo e criticou a imprensa. Os dois estavam em meio a bandeiras da monarquia e uma foto na parede de Olavo de Carvalho.

Marxismo e criminalidade

Araújo, com frases que nem sempre se completavam, fez questão de fazer diversos ataques contra governos de esquerda e denunciar o Foro de São Paulo. E ainda alertou para a existência de uma relação entre o movimento marxista e a criminalidade na América Latina. Para ele, há um "amalgama entre os projetos marxistas, partidos radiais, socialismo do século 21 e a criminalidade". "Não é apenas uma aliança. Está virando a mesma coisa", alertou.

Repetindo um mantra do governo Bolsonaro, o chanceler também atacou Havana. "Cuba está na raiz de muita coisa ruim que ocorreu na América Latina nos últimos 60 anos. Vemos Cuba como um problema", disse.

Nem a Europa ficou de fora das preocupações. Segundo ele, existe um "arco ideológico que une esses projetos do socialismo do século 21 e Foro de São Paulo, e projetos politicamente corretos, que é algo mais dos países desenvolvidos".

OTAN e Grandeza

Araújo, porém, guardou seus elogios ao governo de Donald Trump. Segundo o brasileiro, ele "admira muito" a diplomacia do atual comando da Casa Branca, principalmente no que se refere ao novo plano de paz para o Oriente Médio, fortemente atacado pelos palestinos. O ministro ainda indicou que existe, entre Trump e Bolsonaro, "uma convergência". "Acreditamos nas mesmas coisas", afirmou.

Entre suas metas, está ainda uma aproximação do Brasil à OTAN. Hoje, o país é um aliado extra-OTAN declarado pelos EUA.

"Vamos pensar o Brasil como um dos grandes do mundo", disse o ministro, indicando que a indústria de defesa do país poderia se beneficiar por conta do reposicionamento do Brasil no mundo.

Outra medida de reposicionamento é a decisão do Brasil de renunciar ao tratamento diferenciado no comércio internacional. Historicamente, o país fez parte do grupo de economias em desenvolvimento, o que lhe permitia certas vantagens em tarifas e subsídios. Mas, desde o ano passado, o governo indicou que vai renunciar a isso. "Isso já nos reposicionou nos tabuleiros das negociações comerciais", disse.

Ao abrir mão desse status, ele garante que o Brasil passou a ter mais influência na OMC, algo que, segundo o chanceler, não era o caso antes. Araújo, porém, não citou como tradicionalmente o Brasil foi um ator decisivo na OMC, com atuação fundamental na questão de patentes durante o governo de Fernando Henrique Cardoso ou vendendo disputas históricas contra os subsídios americanos e europeus na agricultura.


Tirar da Caverna

A entrevista foi marcada por declarações sobre espiritualidade e nacionalismo. Araújo, por exemplo, acredita que exista hoje uma "convergência de ânsia de transcendência e ânsia de nacionalidade" e da "libertação do sentimento nacional e espiritualidade".

"Estamos num momento de confrontação de ideias e de atitudes", disse. Esse choque não seria de civilizações. Mas, segundo ele, entre "uma concepção anti-nacional e anti-espiritual e uma concepção de nação e de ser humano como um ser vertical e que tem espiritualidade".

Num outro trecho da entrevista, ao falar de "insurgir contra a pós-modernidade", ele sugeriu que "precisamos tirar as pessoas da caverna e mostrar a tri-dimensionalidade".

Araújo afirma que sabe que existem resistências a seu modo de pensamento e acredita que tal freio possa vir principalmente do "espaço cultural europeu", onde estava mais profundo o "domínio do paradigma da horizontalidade do ser humano e da não-nacionalidade".

Mas ele aposta que o "establishment mundial está na defensiva". "Não esperavam essa onda. É A recuperação de coisas muito profundas que estavam sendo negadas ao ser humano. Que vem da pré-história, mas sobretudo dos clássicos", explicou.

Chanceler ainda retribuiu os elogios do apresentador dizendo que o site bolsonarista passou a ser "importantíssimo" para ele e que, nos últimos anos, a página na Internet lhe deu o sentimento de que não estava sozinho. Desde o ano passado, o site acusado de disseminar fake news é incluído no clipping diário de notícias que a cúpula do Itamaraty sugere que seus embaixadores pelo mundo leiam.

Jamil Chade