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Jamil Chade

UE ameaça barrar exportação de doses da AstraZeneca e emergentes protestam

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

26/01/2021 06h36

Resumo da notícia

  • Europa cobra fornecimento de doses após empresa afirmar que não entregaria no prazo estipulado
  • Lobby pelo controle da destinação de vacinas gera reação de países em desenvolvimento
  • Países ricos têm estoques e opções de compra de 2,2 bilhões de doses acima do que precisam

A Europa subiu o tom contra a AstraZeneca e ameaça impedir as exportações de vacinas contra a covid-19 da empresa britânica enquanto não for cumprido o contrato de fornecer as doses à UE (União Europeia). A iniciativa abriu uma crise entre a UE e países em desenvolvimento e explicitou a guerra pelos imunizantes no mercado internacional.

Diante do gesto europeu, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, usou um discurso nesta terça-feira no Fórum Econômico Mundial para denunciar o "nacionalismo de vacinas" e alertar aos países ricos que não abandonem mais da metade do mundo.

"Precisamos que aqueles que acumularam as vacinas liberem as vacinas para que outros países possam tê-las", disse Ramaphosa, que é o presidente ainda da União Africana.

"Os países ricos do mundo adquiriram grandes doses de vacinas dos fabricantes e alguns países foram além e adquiriram até quatro vezes mais do que sua população precisa. E isso teve como objetivo acumular essas vacinas. E agora isso está sendo feito com a exclusão de outros países do mundo que mais precisam disto", denunciou.

A AstraZeneca fechou acordos com dezenas de países pelo mundo, entre eles o Brasil. As características de suas doses — mais baratas e mais fáceis de serem transportadas — foram consideradas como essenciais aos países em desenvolvimento.

O gesto da UE soou o sinal de alerta entre os países em desenvolvimento na OMS (Organização Mundial da Saúde), que querem garantias de que serão abastecidos. A ameaça também foi considerada na ONU (Organização das Nações Unidas) como uma ilustração de que a guerra pelas vacinas pode se transformar em uma guerra comercial e azedar as relações entre governos.

Bloco europeu afirma que investiu em pesquisas para vacina

Mas, em Bruxelas, sede do governo europeu, a tensão foi aberta depois que a empresa britânica indicou que não teria como cumprir seu calendário de fornecimento de 100 milhões de doses da vacina no primeiro trimestre aos países europeus. A previsão, agora, é de que o abastecimento seja de apenas 50 milhões.

A UE rapidamente qualificou a decisão da empresa de "inaceitável", enquanto na OMS governos europeus foram acusados de "egoístas". A crise chegou até o mais alto escalão, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, exigindo que os contratos sejam cumpridos.

Também em Davos, que ocorre de forma virtual, Von der Leyen anunciou que a UE vai criar um "mecanismo de transparência" para saber o que está sendo feito com as vacinas por parte das empresas e voltou a cobrar o setor privado.

"A UE ajudou com dinheiro no desenvolvimento da vacina. Muito foi investido. Investimos bilhões para a primeira vacina. Agora, as empresas precisam honrar seus compromissos", disse. No total, Bruxelas argumenta que colocou 2,7 bilhões de euros no setor de vacinas.

Falando no Fórum Econômico Mundial, a chanceler Angela Merkel sinalizou que a razão de base para o novo momento de tensão seria a decisão nos EUA de adotar medidas para impedir que vacinas sejam exportadas.

"Os EUA têm um ato de guerra em vigor sobre a exportação de vacinas e, em alguns casos, sobre suprimentos importantes para vacinas", disse Merkel. "Isso desencadeará nossos instintos básicos na Europa para dizer: se você estiver faltando algo que precise em sua cadeia de fornecimento de medicamentos ou vacinas, você dará uma olhada em casa e se certificará de que você consiga resolver isso", alertou.

Até sexta-feira, a UE deve fechar um acordo sobre como lidar com a crise. Mas uma das propostas sobre a mesa fala apenas em monitorar a exportação, e não adotar de forma imediata um bloqueio às vendas para fora do bloco.

Cresce o lobby por um controle da distribuição de imunizante

No fim de semana, a UE já havia enviado uma carta para a empresa. Já na segunda-feira, foi Von der Leyen que cobrou a companhia em uma ligação telefônica.

Como resultado, a comissária de Saúde da UE, Stella Kyriakides, propôs que os 27 países do bloco estabeleçam um mecanismo de controle das exportações de vacinas, exigindo transparência por parte da empresa sobre o destino das doses.

O governo alemão de Angela Merkel aplaudiu a pressão. Jens Spahn, ministro da Saúde, indicou que a UE precisa "saber se e quando vacinas estão sendo exportadas". "Uma obrigação para conseguir aprovação de exportações de vacinas faz sentido", disse.

O governo britânico, porém, alertou que chantagear e pressionar a AstraZeneca não faria sentido. Mas Bruxelas tem sido alvo de pressões e críticas diante da lentidão no fornecimento inicial de vacinas pelo continente.

Entre compras e reservas, países ricos têm "bilhões" de doses acima do necessário

Também em Davos, Seth Berkly, chefe da GAVI (Aliança Mundial de Vacinas) admitiu que existe um "pouco de pânico" neste momento no que se refere ao acesso às vacinas.

Ele garantiu que seu mecanismo de distribuição de imunizantes está pronto para agir. Segundo ele, 150 milhões de doses serão enviadas aos países em desenvolvimento no primeiro trimestre do ano. Já no segundo trimestre, serão outras 500 milhões de doses e, até final de 2021, 2 bilhões de vacinas.

Berkly apontou que os países ricos compraram ou reservaram 2,2 bilhões de doses acima do que precisam, enquanto as economias pobres se deparam com estoques vazios. "São números surpreendentes", disse.

Esse cálculo inclui 800 milhões de doses já compradas acima do que precisam, além de 1,4 bilhão de doses em opções.