PUBLICIDADE
Topo

Jamil Chade

Remessa inicial da Covax na Am. Latina daria 2 doses para 1,5% da população

Brasil já conta com mais de 685 mil pessoas vacinadas contra a covid-19 - Divulgação/Julyane Galvão/Secretária Estadual de Saúde do maranhão
Brasil já conta com mais de 685 mil pessoas vacinadas contra a covid-19 Imagem: Divulgação/Julyane Galvão/Secretária Estadual de Saúde do maranhão
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/01/2021 04h00

As primeiras entregas de doses para a América Latina da aliança mundial de vacinas contra a covid-19 — a Covax — atenderão apenas a uma fração da população do continente e um volume mais substancial será registrado apenas no segundo trimestre de 2021.

Dados oficiais do consórcio obtidos pela coluna estimam que, até março, a região receba 20 milhões de doses. Caberá a cada governo determinar qual será o intervalo entre a primeira e segunda dose. No caso de considerar-se duas doses por pessoa, a remessa significará que apenas 10 milhões de pessoas serão atendidas em um continente com cerca de 650 milhões de pessoas.

A Covax foi criada para garantir que países em desenvolvimento tenham acesso às doses do imunizante, evitando uma disparidade entre sociedades ricas e economias em desenvolvimento. O projeto, porém, não conseguiu ainda ser iniciado, diante da falta de doses e de recursos. O consórcio conta com um déficit de US$ 2 bilhões para que suas atividades possam ser plenamente financiadas.

A guerra das vacinas ainda passou a dominar a agenda internacional, com países ricos fazendo acusações mútuas, ameaças contra farmacêuticas e uma disputa de preços e mercados. Para os países mais pobres, o pior dos cenários se confirmou: enquanto milhões de pessoas já são vacinadas em países ricos, estas nações aguardam a primeira dose.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), também subiu o tom das críticas e colocou um desafio de cem dias para que campanhas de vacinação estejam ocorrendo em todo o mundo.

No total, a aliança espera entregar 2,2 bilhões de doses até o final do ano para os países participantes. Para a América Latina serão enviados 280 milhões. O Brasil optou por uma compra de 42 milhões de doses.

Covax tenta adiantar entrega para fevereiro

A direção do consórcio indica que existe uma possibilidade de que uma primeira remessa seja feita em fevereiro, mas a quantidade ainda não está determinada e será anunciada na próxima sexta-feira. Ainda assim, será um início praticamente simbólico.

Um processo mais consistente começará em março, com um total acumulado de 20 milhões de doses para a região. Dessas, apenas um quarto das vacinas irá para o grupo de países latino-americanos mais ricos, como México, Brasil, Chile, Colômbia e Argentina. Na prática, isso significa que esses países receberão, juntos, 5 milhões de doses.

Entre março e abril, serão apenas mais 15 milhões de doses extras. Em maio, o acumulado de doses para o continente chegará a 45 milhões.

O grande salto previsto deve ocorrer apenas em junho. Até meados do ano, a região terá recebido um total de 95 milhões de doses. O restante das 280 milhões de doses será distribuído entre julho e dezembro.

Vacinas AstraZeneca e Pfizer na primeira remessa

Seth Berkley, chefe da Aliança Mundial de Vacinas (GAVI) e que administra a Covax, explica que num primeiro lote serão oferecidasdoses da AstraZeneca e da Pfizer, ainda que as vacinas da segunda empresa chegarão em um volume extremamente limitado. Segundo ele, tais doses terão de ir a países com a capacidade para estocar em locais ultra frios.

Em dezembro, ministérios da Saúde receberam uma carta da OMS consultando se estavam interessados em receber o primeiro lote das vacinas no consórcio. O Brasil respondeu de forma positiva. Procurado, o Ministério da Saúde não respondeu ao pedido da coluna por esclarecimentos sobre o volume inicialmente solicitado.

Para fazer parte da aliança de vacinas da OMS, países em desenvolvimento se queixam de que tiveram de aceitar exigências das empresas responsáveis pelo desenvolvimento e fabricação dos imunizantes.

Farmacêuticas impuseram condições ao consórcio

Recusa em transferir tecnologia, recusa em se submeter às agências sanitárias nacionais e recusa em aceitar responsabilidade por eventuais danos colaterais são alguns dos pontos colocados pelo setor privado para aceitar fazer parte da iniciativa.

O sistema criado pela OMS é aplaudido por ativistas e grupos de direitos humanos. Mas seu mecanismo é questionado, justamente por permitir um espaço importante de influência para as empresas farmacêuticas que irão vender os produtos à coalizão.

Um dos principais pontos de crítica se refere ao fato de que, ao assinar os contratos, os governos beneficiários de renda média, como o caso do Brasil ou México, assumem também todas as responsabilidades por efeitos colaterais das vacinas, isentando qualquer papel das empresas. O argumento é de que, como cabe aos países a administração e diluição dos produtos, as farmacêuticas não teriam como assumir a responsabilidade por eventuais efeitos.

Uma situação intermediária foi criada para os 92 países mais pobres do mundo. Nesses casos, se uma vacina resultar em um efeito colateral, os danos serão pagos pela aliança. Mas não pelas empresas. De acordo com os documentos da entidade, o pagamento de uma compensação dependerá ainda da renda de cada um desses países.