Conteúdo publicado há 3 meses
Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
Opinião

Análise: Por que Milei é uma ameaça à indústria automobilística brasileira

O ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil na Itália, Rubens Ricupero, afirmou durante o programa Análise da Notícia que Javier Milei, presidente eleito da Argentina, pode aniquilar a indústria automobilística brasileira.

Ricupero explicou que hoje a indústria automobilística brasileira só existe legalmente no quadro da Organização Mundial do Comércio (OMC) devido ao acordo bilateral automotivo com a Argentina.

Na Rodada Uruguai, que é conhecida como maior acordo comercial da história, o Brasil não preservou seu regime automobilístico de proteção e, por isso, se tornou dependente da indústria argentina.

Foi a maior rodada de negociação da história e terminou em 1994. Antes, os países tinham direitos para proteger uma indústria nacional a terem restrições a investimentos estrangeiros e de terem preferências para nacionais, mas tudo isso se baseava em um regime que foi declarado ilegal pela Rodada Uruguai. Os países que tinham esse regime tinham a possibilidade em uma norma da OMC chamada de Cláusula do Avô, algo que vinha do passado e iria continuar, mas o Brasil não invocou a cláusula, enquanto a Argentina, sim. Rubens Ricupero

Diante da situação, pelo fato de o Brasil não ter invocado a cláusula e em 2001 entraram em vigor novos acordos comerciais, o país acabou se "pendurando" na indústria automobilística argentina.

Toda a indústria automobilística brasileira está pendurada nessa autorização legal, e se o Milei denunciar esse tipo de regime, que é o que vem antes da Rodada Uruguai, que é o que se chama aqui de proteção ao produto nacional, se ele denunciar isso nós não temos base legal e poder ser atacados pela OMC ou qualquer outro país. (...) qualquer país pode ir à OMC e pedir uma represália contra o Brasil, como negar concessões que são feitas ao Brasil ou fechar mercados para exportações brasileiras. Rubens Ricupero

O ex-embaixador, entretanto, também ponderou que uma decisão drástica de Milei pelo livre comércio no setor automobilístico prejudicaria antes mesmo do Brasil, a própria Argentina.

A nossa indústria só sobrevive porque temos tarifas altíssimas para proteger o mercado nacional de automóveis e que são justificadas pelo acordo automotivo com a Argentina. Se ele denunciar, nós ficamos sem poder ter uma base legal, mas a indústria automobilística é a base da indústria argentina e ele aniquilaria a indústria argentina se fizesse isso. Rubens Ricupero

Apesar de Milei apresentar um discurso libertário na economia, propondo abraçar o livre comércio integral, hoje a indústria argentina depende do protecionismo e, além disso, Milei terá que conseguir apoio para governar. Mesmo com discurso de ruptura, ele terá que misturar uma dose de ruptura com uma dose de continuidade.

Continua após a publicidade

Na campanha, tudo o que ele disse é muito genérico. Ele propõe acabar com o Banco Central, dolarizar a economia e eliminar todos os subsídios da economia, mas ele diz isso de uma maneira genérica e sem dar detalhes, agora vai ter que enfrentar a realidade. Milei foi eleito pelo apoio do Macri e não tem muita força própria interna na Argentina. Até que ponto ele vai ter que depender do Macri, do partido do Macri e dos parlamentares do Macri? (...) Sujeitos como Milei, Trump e Bolsonaro são muito extravagantes nas campanhas mas quando tomam posse a realidade se impõe a algumas coisas. Rubens Ricupero

***

O Análise da Notícia vai ao ar às terças e quartas, às 18h30.

Onde assistir: Ao vivo na home UOL, UOL no YouTube e Facebook do UOL.

Veja abaixo o programa na íntegra:

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes