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PCC: Marcola é condenado a mais 12 anos e pena total sobe para 342 anos

21.jan.2020 - Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC, é levado para helicóptero após ser atendido em hospital em Brasília - Sérgio Lima/AFP
21.jan.2020 - Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC, é levado para helicóptero após ser atendido em hospital em Brasília Imagem: Sérgio Lima/AFP
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

07/03/2022 16h41Atualizada em 07/03/2022 20h59

O preso Marco Willians Herbas Camacho, 54, o Marcola, apontado como principal líder do PCC (Primeiro Comando da Capital), foi condenado hoje a mais 12 anos de prisão pela acusação de associação à organização criminosa.

Antes desse julgamento, a pena dele era de 330 anos, 6 meses e 24 dias de reclusão — agora subiu para 342 anos. A informação da pena total anterior consta no boletim informativo do prisioneiro, emitido pela SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária).

Marcola foi acusado pelo Ministério Público de São Paulo de ter dado ordem para matar o promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o chefe da Croeste (Coordenadoria dos Presídios da Região Oeste do Estado), Roberto Medina, em dezembro de 2018.

A decisão de hoje é do juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara Criminal de Presidente Venceslau (SP). O preso, que estava recolhido na Penitenciária Federal de Brasília, foi transferido na semana passada para a Penitenciária Federal de Porto Velho, capital de Rondônia.

Além de Marcola, o magistrado condenou os presos Mauro César dos Santos Silva, 43 (8 anos e 9 meses de prisão) e Júlio César Figueira, 46 (7 anos e 10 meses) e também as acusadas Maria Elaine de Oliveira, 47, e Alessandra Cristina Vieira, 41, a 4 anos e seis meses de prisão — ambas estão soltas e podem recorrer da decisão em liberdade.

As disputas por poder e dinheiro dentro da principal organização criminosa do Brasil são narradas na segunda temporada do documentário do "PCC - Primeiro Cartel da Capital", produzido por MOV, a produtora de documentários do UOL, e o núcleo investigativo do UOL.

Segundo a Polícia Civil, o plano para matar as autoridades foi descoberto em 8 de dezembro de 2018, nas imediações da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. Era um sábado. Maria Elaine tinha ido visitar Júlio César e Alessandra, o companheiro Mauro.

Este último dividia a cela com Marcola. De acordo com a versão policial, na saída do presídio, ambas foram revistadas por PMs da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa de elite da Polícia Militar, e com elas foram apreendidos bilhetes codificados.

O setor de inteligência da SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária) alegou ter decodificado as mensagens e informado à polícia que em uma delas havia ordens para colocar em prática o plano para matar Lincoln Gakiya e Roberto Medina.

Dúvidas nas investigações

A Polícia Civil informou que os atentados seriam realizados em represália à transferência de líderes do Primeiro Comando da Capital para penitenciárias federais. As remoções foram feitas em fevereiro de 2019.

Os cinco réus foram submetidos a exames grafotécnicos e a perícia apurou que nenhum deles escreveu a mensagem com as ordens dos assassinatos. O inquérito aberto pela Polícia Civil para apurar o caso foi encerrado sem chegar ao autor do bilhete.

O delegado Éverson Aparecido Contelli manifestou dúvidas no relatório final das investigações ao fazer a seguinte observação: "pode ter ocorrido ameaça, mas não há autoria". E acrescentou: "Somente não se identificou quem vendeu a alma para o diabo".

A Justiça e o Ministério Público entenderam que houve ameaça e que os indícios de autoria estão presentes. Júlio César e Mauro César estão recolhidos na Penitenciária 1 de Avaré. Alessandra e Maria Elaine responderam ao processo em liberdade.

"Cartas forjadas"

Marcola foi ouvido em teleaudiência em 13 de abril do ano passado. Em uma sala na Penitenciária Federal de Brasília, sentado ao lado da advogada Camila Giglioli da Silva, ele pediu autorização para tirar a máscara de proteção contra a covid-19 e disse que as cartas apreendidas com as duas mulheres foram forjadas e "plantadas" pelos policiais.

"No meu ponto de vista houve má fé dos policiais em plantar as cartas", afirmou o preso. Segundo Marcola, as mulheres são inocentes e tudo foi forjado para justificar a transferência dele da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau para presídio federal.

O UOL teve acesso ao vídeo com o depoimento de Marcola. Ele falou aproximadamente uns 50 minutos. Disse que não deu ordens para matar ninguém e que seria muita burrice usar um preso da própria cela dele para escrever carta com ameaças às autoridades.

"São seis pavilhões [Penitenciária 2 de Presidente Venceslau] e 600 ou 700 presos. Qual o sentido de pôr o preso da minha cela para escrever esses bilhetes? Se eu fosse o chefão que dizem que sou usaria outro preso e não o Mauro, da minha cela. Ele tem problema psiquiátrico, toma oito remédios controlados e eu cuidava dele como um filho", argumentou.

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Preço alto

O posto de líder máximo do PCC está custando muito caro para Marcola. Antes de ser preso e de ser considerado o chefe da maior facção criminosa do País, ele tinha 40 anos de prisão a cumprir. As condenações foram por roubos a carros, bancos e empresas de valores nos anos 1980 e 1990.

Depois que foi apontado como líder máximo do PCC, ou seja, já definitivamente encarcerado e sob a tutela do Estado, Marcola foi acusado de cometer vários crimes na prisão e acabou condenado a mais 290 anos.

Em todos os interrogatórios, Marcola negou ser integrante e líder do PCC. Porém, o Ministério Público vem denunciando o preso como mandante de chacinas, atentados e assassinatos de agentes públicos, além de formação de quadrilha e associação à organização criminosa.

A maior condenação de Marcola, equivalente a quase a metade da pena total dele, foi aplicada em 6 de março de 2013. O crime: a chacina de oito presos na Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte, em fevereiro de 2001.

A matança começou em 13 de fevereiro de 2001, durante a primeira megarrebelião no estado. Cinco presos foram mortos. No dia seguinte, mais um detento foi assassinado e em 20 de fevereiro, outros dois. Marcola e mais nove detentos foram acusados pela matança.

Marcola alegou inocência. Disse que estava preso na Penitenciária do Estado e não na Casa de Detenção e, portanto, não poderia ter ordenado a chacina. A Justiça o condenou a 158 anos de prisão pelos oito assassinatos.

Marcola foi condenado a 29 anos como mandante do assassinato do juiz Antônio José Machado Dias, em 14 de março de 2003 em Presidente Prudente. Pegou mais 61 anos e 6 meses pelos crimes de maio de 2006, quando o PCC matou agentes públicos e se rebelou em 71 presídios.

Em fevereiro de 2018, a Justiça condenou Marcola a mais 30 anos, dessa vez pela acusação de liderar a célula "sintonia dos gravatas", o braço jurídico do PCC, responsável por contratar advogados para defender os interesses da organização.

Já no ano de 2006, Marcola recebeu uma pena de 12 anos de prisão. Ele foi acusado, junto com outro grupo de prisioneiros, por formação de quadrilha. O processo começou a tramitar em 2002.

A defesa de Marcola afirma que ele nunca integrou o PCC, não liderou qualquer célula de organização criminosa e jamais deu ordem para matar autoridades, policiais ou agentes públicos.

Para os advogados de Marcola, as acusações e condenações impostas ao cliente são injustas e até hoje não foi comprovada a participação dele em nenhum desses crimes.