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Pela 1ª vez na pandemia, Trump copia Bolsonaro

Presidente dos EUA, Donald Trump, e presidente Jair Bolsonaro em encontro na Flórida - TOM BRENNER
Presidente dos EUA, Donald Trump, e presidente Jair Bolsonaro em encontro na Flórida Imagem: TOM BRENNER
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

16/07/2020 09h15

O governo Bolsonaro anda fazendo escola na pandemia. Desde quarta-feira, a administração Trump resolveu centralizar em Washington toda a coleta de dados sobre covid-19 nos Estados Unidos, retirando poder do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) em benefício do Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

Com sede em Atlanta (Geórgia), o CDC tem filiais espalhadas pelo país inteiro. É uma agência voltada para o combate e a prevenção, o que torna mais sensato que o órgão colete os dados e trace as suas estratégias contra o coronavírus o mais rapidamente possível.

Mas o governo Trump resolveu que os hospitais devem mandar diretamente para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, em Washington, dados que antes eram enviados ao CDC para tabulação e publicação. São informações diárias sobre número de pacientes internados nos hospitais, quantos leitos estão disponíveis, quantas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) permanecem livres, quantos aparelhos de respiração assistida há em uso etc.

De posse desses números, o CDC fazia publicações diárias que serviam de parâmetro para pesquisas e estimativas de médicos, universidades e imprensa. Agora, haverá um filtro no Departamento de Saúde e Serviços Humanos, que equivale ao Ministério da Saúde no Brasil.

A manobra do governo Trump lembra o que Bolsonaro fez no Brasil no início de junho, mudando a forma como o Ministério da Saúde divulgava as estatísticas sobre covid-19. Com a restrição de acesso às informações oficiais sobre a pandemia, veículos de imprensa, entre os quais o UOL, fizeram parceria para coletar diariamente informações nos 26 Estados e no Distrito Federal a fim de consolidar dados sobre casos e óbitos no Brasil.

A decisão do governo Trump é vista com desconfiança pela comunidade científica, a exemplo do que aconteceu com a maquiagem bolsonarista no Ministério da Saúde.

O diretor do CDC, Robert Redfield, tem sido uma voz destoante do negacionismo de Trump. Redfield e Anthony Fauci, diretor do Instituto de Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, deram depoimentos ao Congresso e entrevistas nas quais contradisseram o presidente dos EUA.

Redfield alertou para os piores outono e inverno da história do país caso a pandemia continue crescendo. Fauci afirmou que a batalha contra o vírus está longe de acabar. Trump tem dito que faz um "grande trabalho" e que a situação está sob controle.

Obviamente, Redfield e Fauci não foram consultados a respeito da mudança sobre a centralização e divulgação de dados em Washington. Ambos têm sido escanteados nos debates da força-tarefa da Casa Branca, que fica a cargo do vice-presidente Mike Pence.

No Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o comando é do secretário Alex Azar _ex-lobista e ex-executivo da indústria farmacêutica com perfil mais político do que técnico. Azar é uma figura decorativa na força-tarefa e tem papel secundário no combate ao coronavírus.

Pela primeira vez na pandemia, Trump imita Bolsonaro e faz uma manobra que levanta suspeita de maquiagem de dados. Os presidentes americano e brasileiro são realmente almas gêmeas.