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Ameaçar TikTok é mais marketing eleitoral de Trump do que "Guerra Fria 2.0"

TikTok faz ação coordenada com a OMS - Reprodução
TikTok faz ação coordenada com a OMS Imagem: Reprodução
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

24/07/2020 12h49

Interessa ao presidente Donald Trump elevar as tensões com a China numa hora em que a pandemia de coronavírus se acelera nos Estados Unidos. As ameaças de banir o aplicativo TikTok, escalando retaliações a Pequim, devem ser vistas no contexto das eleições americanas de 3 de novembro.

Trump é um presidente que afirmou que acabaria com as guerras americanas. Chegou a um acordo precário com o Taleban no Afeganistão para encerrar o mais longo conflito da história do país (19 anos). Uma "Guerra Fria 2.0", ainda que algo fake, cai como uma luva nos planos reeleitorais do presidente republicano.

Nos pronunciamentos e entrevistas, Trump baniu mesmo foi a palavra "coronavírus". Ele só fala "China vírus" (vírus da China). De cunho racista, porque tem gerado agressões a americanos de origem asiática, essa expressão terceiriza responsabilidades.

O presidente americano repete em todo pronunciamento que o vírus nunca deveria ter "escapado" da China e que não sabe como isso aconteceu, sugerindo nas entrelinhas uma suposta intenção de Pequim de espalhar a covid-19 no Ocidente. Assim, Trump aponta um bode expiatório para justificar sua gestão irresponsável no combate ao coronavírus.

Com mais de 4 milhões de casos de covid-19, maior número do planeta, os EUA assistem ao aceleramento da pandemia. Foram necessários 99 dias para chegar à marca de um milhão de casos. Depois, mais 43 dias até a marca dos 2 milhões. Em seguida, os casos pularam para 3 milhões em 28 dias. Em apenas 15 dias, os casos de covid-19 nos EUA ultrapassaram 4 milhões.

Na semana em que assumiu um tom mais realista, abandonando certo negacionismo pero no mucho, Trump também decidiu começar a atirar na China.

Cálculo eleitoral no Texas

Determinou o fechamento do consulado em Houston, Texas, segundo estado com maior número de delegados no Colégio Eleitoral (38). No Texas, tradicionalmente republicano, há empate técnico nas pesquisas entre Trump e o democrata Joe Biden.

Nos EUA, é preciso obter maioria absoluta no Colégio Eleitoral para ser eleito presidente, o que exige 270 dos 538 delegados. Se a eleição fosse hoje, segundo as pesquisas, Biden atingiria cerca de 330 delegados e conquistaria a Casa Branca.

Cidade mais populosa do Texas e quarta maior região metropolitana do país, Houston foi o alvo ideal para a cruzada americana contra a China. O secretário de Estado, Mike Pompeo, tem feito discursos que lembram o anticomunismo americano dos anos 60, auge da Guerra da Fria entre os EUA e a então União Soviética. Agora, o Partido Comunista chinês seria a maior ameaça ao futuro dos netos dos americanos, diz Pompeo.

Obviamente, a China não assistiu calada à jogada eleitoral trumpista. Em retaliação, ordenou o fechamento do consulado americano na cidade de Chengdu, no sudoeste chinês.

Trump "é bom" para a China

Tradicionalmente, a escalada chinesa é bem paulatina, mais suave. Pequim tira proveito do isolamento internacional dos EUA, que é fruto da política externa de Trump. A cada ameaça do presidente americano de abandonar organismos internacionais, como a OMS (Organização Mundial de Saúde), abre-se mais um pouco a porta para o aumento da influência chinesa na cena global.

Nesse jogo, seria pior para a China a eleição de Joe Biden, que já prometeu retomar o protagonismo dos EUA na OMS, na ONU (Organização das Nações Unidas) e na OMC (Organização Mundial do Comércio). O despreparo geopolítico e o antagonismo marqueteiro de Trump facilitam a vida do Partido Comunista Chinês.

O presidente americano está preocupado em se mostrar durão com os chineses por razões eleitorais. Por isso, ele tem feito pressão para o banimento do TikTok, aplicativo chinês de compartilhamento de vídeos curtos que virou febre na pandemia. Também ameaça retomar a guerra comercial que andou travando com Pequim durante três anos.

Órgãos federais já proibiram que seus funcionários baixem o TikTok em seus aparelhos, mas há controvérsia legal sobre a possibilidade de banimento de um aplicativo que tem sido usado cada vez mais nos EUA e no mundo inteiro.

Aliás, banir aplicativo e restringir mecanismos de busca na Internet são práticas muito mais típicas do autoritarismo chinês do que da democracia americana. Mas Trump é um presidente que não tem pudor de solapar a democracia se for importante para a sua reeleição.

Na falta de uma guerra de verdade, o que sempre gera solidariedade da opinião pública aos presidentes de plantão, o republicano resolveu apostar numa "Guerra Fria 2.0" para tentar virar o jogo contra seus dois adversários de verdade: o coronavírus e o democrata Joe Biden.