PUBLICIDADE
Topo

"Por que não tenho aprovação como ele"? Médico líder anticovid abala Trump

CHIP SOMODEVILLA/AFP
Imagem: CHIP SOMODEVILLA/AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

28/07/2020 19h36

Em rápido pronunciamento nesta terça, o presidente Donald Trump mentiu novamente sobre os efeitos da hidroxicloroquina e mostrou inveja em relação às taxas de aprovação do médico Anthony Fauci, a voz mais respeitada da força-tarefa da Casa Branca no combate à covid-19.

Trump disse que a droga funciona contra covid-19 em estágio inicial e que não oferece nenhum risco. Estudos científicos já comprovaram a ineficácia da hidroxicloroquina contra o coronavírus e apontaram o aumento do risco cardíaco de tomar o medicamento neste tratamento.

Segundo Trump, há resistência à hidroxicloroquina para combater o coronavírus "apenas porque eu a recomendei". Ele falou sobre a droga ao responder a perguntas dos repórteres sobre ter republicado ontem no Twitter um post com supostos médicos recomendando a hidroxicloroquina.

Na sequência, Trump demonstrou ter inveja da taxa de aprovação popular de Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. O presidente americano foi indagado sobre outro retuíte com críticas ao virologista.

"Ele tem uma alta de taxa de aprovação. Por que eu não tenho?", perguntou Trump.

Segundo o presidente, ele poderia ter trazido outros médicos para a força-tarefa, mas escolheu Fauci. Queixou-se de que o médico era bem visto pela opinião pública, mas ele não. "Todo mundo gosta dele, mas ninguém gosta de mim. (...) Só pode ser a minha personalidade".

O comportamento infantil de Trump preocupa, porque mostra a fragilidade do presidente da maior potência do planeta. No meio da pandemia que levou os Estados Unidos a ser o país com o maior número de casos e mortes por covid-19, ele se comporta como uma criança invejosa.

Ora, Fauci tem boa avaliação porque não dourou a pílula ao falar publicamente e tem mantido coerência desde o começo da pandemia, dizendo que daria as suas recomendações sanitárias levando em conta os fatos.

Por outro lado, Trump minimizou o risco, mentiu e desinformou em mais de seis meses de pandemia. Esta é a explicação para taxas de confiança (aprovação) tão diferentes entre ele e Fauci. As pesquisas mostram que a população confia muito mais em Fauci do que em Trump quando se trata da pandemia de coronavírus.

A fala de Trump é mais uma evidência do seu despreparo para enfrentar a mais grave crise sanitária em um século. Governantes como ele e o presidente Jair Bolsonaro são os líderes errados para um momento tão grave. Eles pioram os efeitos da tragédia nos EUA e no Brasil.

Apertado pelos repórteres, Trump acabou rapidamente com a entrevista. Antes, ele anunciara medidas de um acordo para que a Kodak seja uma grande fabricante de medicamentos genéricos e para fazer dos Estados Unidos o país como a maior rede de produção de suprimentos hospitalares no planeta.

A retomada dos briefings presidenciais foi pensada como uma forma de apresentar um presidente com um tom realista e moderado, mas a performance mostra a face de criança mimada de um homem de 74 anos de idade que deveria ter mais maturidade para honrar as suas responsabilidades. Nessa toada, será difícil reverter a dianteira do democrata Joe Biden nas pesquisas sobre a eleição presidencial de 3 de novembro.