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Kennedy Alencar

Biden faz gol em Trump ao visitar família de negro baleado por policial

Letetra Windman, irmã de Jacob Blake; família exigiu justiça e pediu orações para o cidadão de 29 anos - Reprodução/CNN
Letetra Windman, irmã de Jacob Blake; família exigiu justiça e pediu orações para o cidadão de 29 anos Imagem: Reprodução/CNN
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

03/09/2020 15h03

O candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, marca um gol importante contra o presidente Donald Trump ao se encontrar nesta quinta-feira com familiares de Jacob Blake, um homem negro que levou sete tiros nas costas à queima-roupa disparados por um policial branco em Kenosha, Wisconsin, no dia 23 de agosto.

A brutalidade contra Blake desencadeou nova onda de protestos em cidades americanas, especialmente em Kenosha. Na madrugada de 26 de agosto, um jovem de 17 anos, portando um fuzil semiautomático, matou dois homens e feriu um terceiro. A polícia acusou o menor Kyle Rittenhouse de homicídio e agressão. A defesa dele afirma que foi legítima defesa.

Segundo Rittenhouse, ele e outros homens estavam armados para fazer a segurança de estabelecimentos comerciais, evitando que fossem depredados. Ele participou de um grupo de milicianos que chegou a ser saudado pela polícia.

Ao se encontrar com a família de Blake, Biden sinaliza compromisso com as reivindicações do eleitorado negro por medidas contra a violência policial e o racismo estrutural. Em Kenosha, o democrata disse que Trump "legitima" o ódio e o racismo com seus discursos divisionistas.

Trump esteve em Kenosha na última terça-feira e não se reuniu com familiares de Blake porque o presidente recusou a presença de um advogado no encontro. Biden não se opôs à participação do advogado. O democrata conversou com o próprio Jacob Blake por telefone durante quinze minutos. Segundo relato do ex-vice-presidente, Blake saiu da UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

A grande maioria do eleitorado negro já vota com Biden. Segundo pesquisa da Universidade de Quinnipiac, 83% dos eleitores negros preferem o democrata. Apenas 11% pretendem votar em Trump.

Voto do eleitor negro

A campanha de Biden também levou ao ar na internet e em TVs uma propaganda eleitoral só para o estado de Wisconsin.

"Neste país, afro-americanos acordam sabendo que eles podem perder a vida justamente por estarem vivendo a vida", diz Biden na propaganda. A candidata a vice-presidente, a senadora Kamala Harris, também participou da peça eleitoral: "Um ponto importante da liberdade é estar livre da brutalidade da injustiça, do racismo e de todas as suas manifestações."

O encontro com a família de Blake é um gesto para solidificar o apoio do eleitor negro e incentivá-lo a votar. Como o voto não é obrigatório nos EUA, é preciso incentivar sua base a votar.

A pesquisa também mostra que 75% de todos os eleitores consideram que o racismo é um problema grande dos Estados Unidos. Apenas 23% dizem que não se trata de uma questão importante.

Trump fugiu de pergunta sobre racismo

Na terça, na visita a Kenosha, Trump foi indagado se julgava haver racismo sistêmico nos EUA. Ele não respondeu, preferindo condenar a violência em protestos. Biden tem clara opinião sobre a existência de um racismo estrutural no país e a necessidade de combatê-lo.

Nesse contexto, a visita de Biden a Kenosha e o encontro com familiares de Blake tendem a ter efeito político positivo para o democrata. Ele já pregou punição ao policial que atirou em Blake pelas costas. Já Trump preferiu defender o adolescente que matou dois homens e feriu um terceiro.

A pesquisa Quinnipiac, realizada entre os dias 28 e 31 de agosto, mostrou que Biden continua liderando com folga no voto nacional. Ele tem 52% contra 42% de Trump.

No entanto, como a eleição é indireta nos EUA, o mais importante é vencer nos Estados decisivos para formar maioria no Colégio Eleitoral. Nesses estados, conhecidos como oscilantes ou pendulares, a vantagem de Biden é bem menor.

A batalha do meio-oeste

De acordo com o site "Real Clear Politics', que trabalha com a média das pesquisas, Biden tem 48,3% contra 45,1% de Trump nos estados decisivos, uma vantagem de apenas 3,2 pontos percentuais.

Kenosha fica em Wisconsin, um dos 13 estados considerados decisivos em 2020 para formar maioria no Colégio Eleitoral. A visita de Biden à cidade ganha mais importância também por isso. Faz parte da batalha com Trump por votos no meio-oeste americano.

A diferença no voto nacional entre Biden e Trump também é menor na média das pesquisas do "Real Clear Politics" na comparação com o levantamento da Universidade Quinnipiac. O democrata marca 49,6% contra 42,4% do republicano, dianteira de 7,2 pontos percentuais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.