PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

EUA mostram que as fake news de Trump e Bolsonaro têm prazo de validade

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

27/11/2020 04h05

No fim de janeiro de 2020, o presidente Donald Trump caminhava para a reeleição. Os empregos bombavam nos Estados Unidos da América (EUA). Joe Biden era um azarão meio desacreditado no Partido Democrata. O jovem ex-prefeito Pete Buttigieg e os senadores Bernie Sanders, Amy Klobuchar e Elizabeth Warren pareciam apostas melhores.

Ao longo do ano, tudo mudou.

Biden é o presidente eleito dos EUA. Seus opositores no partido viraram cabos eleitorais entusiasmados na luta contra o obscurantismo que ameaçava a democracia americana. Trump é o "loser", o perdedor, o fracassado tão rejeitado numa cultura que valoriza o sucesso pessoal acima de tudo e todos.

A principal lição política da eleição presidencial americana é que dá para vencer as fake news. É possível derrotar a mentira como arma política. Mas, admitamos, uma pandemia no meio do caminho ajudou. O coronavírus foi o principal fator da derrota de Trump, mas não o único.

A maior crise sanitária em um século provocou a perda de milhões de empregos, trouxe consequências econômicas amargas para famílias e empresas, transformou o mundo do trabalho... A Terra está de máscara. Detalhe importante: a pandemia expôs a fragilidade do sistema de saúde nos Estados Unidos.

Os americanos costumam achar que tudo deles é o melhor da galáxia. Um bordão recorrente de Trump na campanha era se referir ao país como "a nação mais grandiosa na história do mundo".

Pandemia escancarou despreparo

A pandemia de coronavírus deu um susto nos gringos. Já matou mais do que as guerras do Vietnã e da Coreia somadas aos atentados de 11 de Setembro. O país ostenta os maiores números absolutos em casos e mortes por covid-19 no planeta.

Os EUA se deram conta de que possuem um sistema de saúde péssimo e caro, que demorou para se organizar a fim de realizar testes e produzir equipamentos médicos. A falta de estratégia nacional, a exemplo da inoperância genocida do presidente Jair Bolsonaro no Brasil, agravou os efeitos da pandemia e gerou dano político a Trump.

Outro fator de desgaste para o presidente americano foi a mobilização do movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam") depois de George Floyd ter morrido asfixiado quando um policial branco se ajoelhou no pescoço dele por quase 9 minutos em 25 de maio, em Minneapolis, no estado de Minnesota.

Milhões de pessoas foram às ruas em manifestações em mais de 2.000 cidades americanas em todos os 50 estados e no distrito de Colúmbia. Foi a maior mobilização popular desde a luta pelos direitos civis nos anos 60 do século passado.

Trump ficou nu

As pesquisas mostraram desaprovação da maioria da população às respostas de Trump à pandemia e aos protestos contra o racismo estrutural e a violência policial. As atitudes do presidente mobilizaram o eleitorado negro e geraram maior solidariedade dos brancos, sobretudo jovens, à causa do "Black Lives Matter". Biden foi o candidato à Casa Branca mais votado na história do país. Recebeu mais de 80 milhões de votos.

A maioria (por margem estreita, diga-se) do país se cansou do presidente racista, incompetente e valentão de rede social. Mulheres conservadoras que rejeitaram Hillary Clinton em 2016 enxergaram o que Trump realmente é.

Num país em que o voto não é obrigatório, negros e jovens foram às urnas como se suas vidas dependessem disso. Idosos que o presidente considerava fracos, destinados a morrer, preferiram endossar a pessoa mais velha a ocupar a Casa Branca. Joe Biden assumirá a Presidência aos 78 anos.

O pacotão pandemia, economia em crise, sistema de saúde em xeque e protestos contra o racismo criou as condições para que, em 2020, as fake news fossem derrotadas. Segundo a imprensa americana, Trump contou mais de 20 mil mentiras em quatro anos de governo. Na reta final da campanha, mentiu e apelou ainda mais nas redes sociais. Mesmo assim, perdeu.

A vitória de Biden barra a escalada autoritária nos EUA e enfraquece a onda conservadora no planeta.

Semelhanças e diferenças entre EUA e Brasil

E o que isso tem a ver com o Brasil?

Os processos políticos são semelhantes nos dois países, mas há diferenças.

Trump e Bolsonaro são autoritários que chegaram ao poder democraticamente. No entanto, só fazem sabotar a democracia. Os dois presidentes usam a mentira como arma política. Bolsonaro ganhou em 2018 como Trump em 2016 na base do falso kit gay e das teorias conspiratórias.

O despreparo administrativo, a falta de empatia pela dor do próximo, a negação da ciência, a inacreditável defesa da cloroquina e soluções simples para problemas complexos são características dos presidentes americano e brasileiro.

Elite americana é nacionalista e resistiu a Trump

Duas diferenças importantes entre os processos políticos recentes do Brasil e dos EUA: ao contrário da brasileira, a elite americana é nacionalista e gosta do país dela. É conservadora e imperialista, mas há um compromisso em defender com unhas e dentes os interesses nacionais. Não é entreguista.

A maior parte dessa elite resistiu a Trump desde o primeiro momento. Na imprensa, na academia e no empresariado, não houve a onda de apoio dada a Bolsonaro em 2018, quando setores da sociedade civil fizeram falsa equivalência entre o bolsonarismo e o petismo no vale-tudo que jogou o país no abismo.

Com exceção de veículos conservadores que retratam uma realidade paralela, o jornalismo nos EUA não normalizou Trump e a sua selvageria como a maioria da imprensa brasileira fez com Bolsonaro. Embalada pela demonização da política realizada pela Lava Jato com assessoria da maioria da imprensa, a elite brasileira abraçou o pior político de nossa história.

Atenção ao dito "centro moderado"

Aqui cabe um parêntesis. É preciso cuidado com genéricos do bolsonarismo que se apresentam como candidatos de um "centro moderado".

Dois deles merecem destaque. O apresentador de TV Luciano Huck e o ex-juiz Sergio Moro não são como Biden. O democrata nunca votou ou endossou Trump. O bolsonarismo de sapatênis de Huck e o extremismo de direita em pele cordeiro de Moro não são alternativas reais a Bolsonaro como Biden foi a Trump.

Biden não cultuou a ignorância, não contribuiu para enfraquecer a democracia nem para destruir as instituições. O democrata tem preparo e compreensão melhor do mundo. Sabe que a capital do Brasil não é Buenos Aires. Entende a importância de retomar o multilateralismo nas relações internacionais porque isso é fundamental para os interesses nacionais americanos. Tem ciência de que as soluções para a pandemia e a mudança climática são globais e não isoladas.

Huck propõe que o Brasil seja um "fazendão". Jogou a toalha quando disse que o país não produzirá manufaturados como a China nem produtos de alto valor agregado como Taiwan no espaço de uma geração. Nunca deve ter voado num jato da American Airlines produzido pela Embraer. Não deve ter ouvido um audiobook sobre a industrialização da Coreia do Sul.

Moro é mais perigoso do que Bolsonaro. Ao fazer aliança com o Ministério Público Federal para condenar, ele corrompeu o processo judicial quando vestiu a toga. Foi um desastre administrativo no Ministério da Justiça, onde fechou os olhos para os laços das milícias com a família presidencial.

Enfim, o conservadorismo brasileiro tem outros nomes mais preparados para entrar no jogo presidencial.

Esperamos menos fake news daqui pra frente. Será que dá?

Voltando à vaca fria, a principal lição de 2020 é a seguinte: dá para vencer as fake news. Biden mostrou o caminho para um desfecho diferente de 2016 nos EUA e de 2018 no Brasil.

As gigantes de tecnologia, que começaram a restringir posts mentirosos de Trump, precisam fazer o mesmo com Bolsonaro, que mente todos os dias nas redes sociais. Facebook, Twitter e Google tiveram papel de destaque no enfraquecimento das democracias ocidentais e devem ter suas atividades mais bem regulamentadas. Combater mentira não é censura.

Em 2022, talvez a pandemia seja apenas um retrato na parede. No Brasil, diz a sabedoria popular, dois anos são uma eternidade. Mas há sinais alvissareiros.

O primeiro turno das eleições municipais revelou o fracasso do bolsonarismo como cabo eleitoral. A negligência homicida na resposta à pandemia e a destruição das instituições levaram setores da sociedade a se arrepender da "escolha difícil" de 2018. Paulo Guedes, ministro da Economia, não entregou nada, o que tem um lado ótimo. O governo é uma máquina azeitada de incompetência gerencial. Os militares quebraram a cara de novo ao patrocinar uma aventura. Não tem risco desse governo dar certo.

A estratégia de frente ampla adotada pelo Partido Democrata, que começou por acabar com a guerra fratricida, funcionou nos EUA. É o melhor exemplo para os opositores reais do bolsonarismo. Nas forças de esquerda e centro-esquerda, é imperativo deixar ressentimentos de lado e entender o sentido da história. Tem um caminho para o Brasil voltar à normalidade democrática e institucional.

Há uma tarefa civilizatória a ser executada até 2022: tirar Bolsonaro do poder e retomar um projeto de desenvolvimento sustentável e inclusivo socialmente, com a cobrança de uma fatia maior da conta dos mais ricos e privilegiados na iniciativa privada e no serviço público. Não será tarefa fácil, mas a eleição americana ensinou que é possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.