PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Saída dos EUA do Afeganistão tende a fortalecer grupos terroristas no país

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

26/08/2021 16h52Atualizada em 26/08/2021 17h23

O atentado no aeroporto de Cabul que matou nesta quinta-feira 12 soldados dos EUA e feriu outros 15 mostra que o Afeganistão poderá voltar a ser um celeiro de grupos terroristas antiamericanos. A saída dos EUA do Afeganistão tende a fortalecer grupos terroristas já instalados e que desejem ter uma base mais forte no país hoje controlado pelo Talibã.

Ao justificar o fim da mais longa guerra americana, o presidente dos EUA, Joe Biden, disse que a Casa Branca alcançou o objetivo principal: evitar um novo ataque terrorista em solo nacional depois de 11 de Setembro. Isso é fato.

O presidente americano também afirmou que já não havia mais ameaças terroristas a serem debeladas no Afeganistão. O atentado de hoje, reivindicado por um grupo do Estado Islâmico, revela que essa ameaças ainda continuam vivas e que a inteligência americana mente ou está mal-informada.

Até as 16h45 desta quinta-feira no horário de Brasília, havia notícias dando conta de cerca de 70 mortos e 150 feridos, números que ainda deveriam crescer. Nessa estimativa, estão incluídos os 12 soldados americanos que perderam a vida e os 15 que se feriram.

Numa tentativa de evitar responsabilidades, o Talibã alegou que o atentado aconteceu na área da capital afegã ainda sob controle de tropas dos EUA. No entanto, para chegar até lá com homens-bomba e fuzis, terroristas não vieram da Lua, mas de alguma base no Afeganistão. Ou seja, passaram por territórios controlados pelo Talibã.

Críticos da estratégia de "Guerra ao Terror" sempre bateram na tecla do efeito de enxugar gelo. Ao agir como polícia do planeta e destruir nações, os Estados Unidos estimulariam a entrada de novos soldados nas organizações terroristas. Essa estratégia só aumentaria o sentimento antiamericano pelo mundo e ajudaria na radicalização de movimentos islâmicos terroristas. Ou seja, não seria a melhor resposta a um problema complexo.

A maior ameaça à segurança interna nos EUA vem hoje dos supremacistas brancos. Mas Washington não deve ter ilusões sobre os inimigos que alimentou ao patrocinar guerras que destruíram países inteiros, como Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia.

A saída dos EUA do Afeganistão vai abrir espaço para que grupos terroristas enxerguem o país como um lugar seguro para montar bases. O atentado no aeroporto de Cabul, ainda controlado pelos americanos, mostra a ousadia e capacidade operacional de terroristas para ferir os EUA.

Apesar da condenação do Talibã ao atentado desta quinta-feira e da promessa de combater movimentos terroristas, a ideologia do grupo tem muito mais identificação com os inimigos dos Estados Unidos do que com a maior potência mundial que ocupou o Afeganistão durante 20 anos.

O Talibã vai jogar duro mesmo contra grupos terroristas? Difícil acreditar nisso.

Em resposta à tragédia de hoje, a reação natural dos EUA seria pegar o porrete e dar uma resposta ainda mais dura. No entanto, essa foi a receita usada depois de 11 de Setembro e produziu resultados como o de hoje no aeroporto de Cabul. Joe Biden está numa enrascada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL