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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tem culpa por desaparecimento na Amazônia; ele precisa ser punido

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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

09/06/2022 12h41Atualizada em 09/06/2022 18h48

A degradação das instituições, a tragédia social e o desastre econômico produzidos pelo governo Bolsonaro pavimentam o caminho para a derrota eleitoral do presidente em outubro, com boa chance de a fatura ser liquidada no primeiro turno.

Se a punição política está contratada nas urnas eletrônicas, como apontam as pesquisas, é preciso penalizar Jair Bolsonaro para além das eleições.

O acordo com o Centrão garantiu a Bolsonaro a proteção política para evitar o impeachment, jogando na lixeira crimes de responsabilidade em série. A submissão do procurador-geral da República, Augusto Aras, ao bolsonarismo impediu até agora que o presidente respondesse na Justiça por seus inúmeros crimes comuns.

Passadas as eleições e a posse de um novo governo, as instituições precisam punir penalmente Bolsonaro. Passar pano para quem degradou a função presidencial com tanto afinco não será pedagógico do ponto de vista institucional.

Bolsonaro estabeleceu um padrão miliciano na Presidência. Não podem ser normalizadas a desenvoltura com a qual diz que não cumprirá ordens do Supremo Tribunal Federal, as ameaças frequentes de golpe de Estado e a falta de decoro diária no exercício do cargo.

"Ah, mas o presidente é esquentado mesmo. É o jeito dele. Ele desabafou e passou do limite, se descontrolou", avaliam democratas de pandemia. "Mas os aliados dizem que não tem risco de golpe. Muitos assessores aconselham Bolsonaro a ser empático e se comunicar melhor, para humanizar a sua imagem", costuma dizer certo jornalismo.

Tratar Bolsonaro como um presidente que pode fazer o que faz é normalizar todos os seus crimes de responsabilidade e delitos comuns. Ele agravou a pandemia, piorou a economia, aumentou a violência no campo e desmantelou políticas públicas que levaram décadas para serem consolidadas (educação, saúde da mulher, respeito às minorias). Bolsonaro piorou a vida dos brasileiros, sobretudos dos mais pobres.

O desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista Dom Philips não é uma fatalidade ou um caso isolado. Tampouco o assassinato de Genivaldo de Jesus numa câmara de gás improvisada numa viatura por policiais rodoviários federais. Os desaparecidos, segundo o presidente, decidiram correr um risco desnecessário. Genivaldo de Jesus foi chamado de "marginal" por Bolsonaro. O atual presidente tem grande dose de culpa nesses casos.

A selvageria que campeia no país é reflexo direto das ações de Bolsonaro para estimular o armamento da população civil, incentivar o garimpo ilegal e a invasão de reservas indígenas, avalizar a violência policial, ameaçar a democracia, perseguir minorias, fortalecer o racismo e o machismo estruturais. A lista é extensa.

As mãos de Bolsonaro estão sujas de sangue. Ele precisa ser punido na forma da lei, como um exemplo para evitar que outros presidentes cedam à tentação de degradar nossa democracia e cometer crimes no Palácio do Planalto.