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Leonardo Sakamoto

Vereadores do Rio decidem que Crivella pode pagar jagunço com grana pública

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/09/2020 22h42

A Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro rejeitou, nesta quinta (3), por 25 a 23, a abertura de processo de impeachment contra o prefeito Marcelo Crivella pelo uso de jagunços para impedir que jornalistas mostrassem o caos em que está a saúde na cidade. A oposição foi muito feliz ao adotar esse termo para se referir aos servidores pagos com dinheiro público para atacar a imprensa na porta de hospitais e evitar constrangimentos à administração sofrível de seu chefe.

A existência de grupos de WhatsApp que organizavam os jagunços foi revelado em uma reportagem da TV Globo, nesta terça (1), que ainda desmascarou alguns deles em frente às câmeras.

Um político ser descoberto ao usar jagunços para encobrir sua incompetência é motivo de vergonha. Em democracias consolidadas, claro. Se não renunciasse, seria cassado. Mas, no Brasil, a democracia vive um período de intervalo. E, no Rio, decidiu se mudar com medo de levar um tiro na nuca por "resistir à prisão".

Mas o que é um prefeito com relação com jagunços se termos a família do presidente com relação com milicianos?

Uma pesquisa Datafolha, de dezembro do ano passado, portanto antes do coronavírus matar milhares de pessoas na cidade, mostrou que 68% dos entrevistados já apontavam a saúde como o pior problema da capital fluminense. Para ter uma ideia do que representa isso, só muito depois veio a violência, com 12%. Crivella poderia ter sido alvo de processo de impeachment ao se mostrar, repetidas vezes, incapaz de zelar pela vida do carioca pobre.

Falta empatia ao prefeito. Em março, após uma enchente castigar Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, arrastando carros, derrubando casas, cobrindo de lama os pertences de moradores, ele ainda teve a coragem de visitar o bairro e dizer que a culpa era das mesmas pessoas que tinham perdido tudo. "A culpa é de grande parte da população, que joga lixo nos rios frequentemente", disse.

Não foi um lapso, pois repetiu a ideia na entrevista dada à imprensa. Revoltados, moradores presentes hostilizaram-no, que acabou atingido por lama. A cara de pau foi tamanha que ele ainda disse, depois, que o impacto das chuvas seria mitigado se as margens dos rios não fossem ocupadas por pessoas que "gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo".

O nível da argumentação é o mesmo usado pelos "Guardiões do Crivella", os tais jagunços.

Da mesma forma, os gritos atrás das câmeras de jornalistas em portas de hospital para impedi-los de colher informações não é muito diferente do que aconteceu em junho de 2017, quando sua administração não alertou sobre a gravidade das chuvas que caíam sobre o Rio para evitar que a população entrasse em pânico. Sim, foi isso mesmo que você leu.

E, na dúvida, faça a egípcia. Em 2018, entre os dias 14 e 15 de fevereiro, um temporal atingiu o Rio, deixando mortos por deslizamentos de terra, ruas alagadas, casas destruídas, árvores caídas, vias interditadas, caos no transporte público e problemas no fornecimento de energia elétrica. Enquanto residências pobres das zonas Norte e Oeste afundavam na lama, o prefeito viajava a trabalho pela Europa. Para não dizer que não fez nada, mandou solidariedade à distância.

No dia 8 de abril de 2019, mortos por soterramento, afogamento e eletrocussão voltaram a polvilhar a cidade. "Falhamos" e "atrasamos", disse ele sobre a falta de limpeza das galerias para escoamento de água diante das fortes chuvas. "São imprevistos", afirmou diante de um novo desabamento da ciclovia Tim Maia. Imprevisto é esquecer o guarda-chuva em casa em dia de temporal. Esquecer a responsabilidade no gabinete tem outro nome.

Crivella poderia ter governado nos últimos quatro anos. Preferiu fazer proselitismo religioso (dando preferência a fiéis de igrejas no acesso a serviços públicos em detrimento aos demais cidadãos), castrar direitos (ou você esqueceu que ele arranjou tempo, mesmo com uma cidade mergulhada em problema, para mandar recolher gibis por causa de uma ilustração de um beijo gay na Bienal do Livro?) e censurar a imprensa. A questão não é se ele consegue se reeleger, mas se o Rio aguenta sua reeleição.

Esta é a segunda vez que se livra de um processo de impeachment. Em junho de 2018, também se safou de investigação sobre ilegalidades no processo de aditamento de contratos de publicidade no mobiliário urbano. O placar foi menos apertado: 35 a 13. Mais uma e ele pede música no Fantástico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto