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Leonardo Sakamoto

Juventude voltou a acreditar na política com a nossa campanha, diz Boulos

29.nov.2020 - Candidato derrotado à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos aparece no terraço de sua casa no bairro do Campo Limpo - Marcelo Justo/UOL
29.nov.2020 - Candidato derrotado à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos aparece no terraço de sua casa no bairro do Campo Limpo Imagem: Marcelo Justo/UOL
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/12/2020 02h00

"Uma parte importante da juventude estava fazendo 'arminha' com a mão, dois anos atrás, o que é um sinal de descrença e de falência da política. Conseguimos, nesta campanha, fazer com que a juventude voltasse a acreditar que a política pode ser um instrumento de transformação."

Ainda convalescente da covid-19 que o impediu de votar último domingo, Guilherme Boulos (PSOL) avaliou à coluna a participação dos jovens em sua campanha.

Pesquisa Datafolha de um dia antes do segundo turno apontava Boulos com 67% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos e com 57% na faixa entre 25 e 34. Acima disso, perdia para o, hoje, prefeito eleito, Bruno Covas (PSDB). Deve, portanto, uma boa parte de seus 2.168.109 votos a esse grupo.

O resultado chamou a atenção tanto de bolsonaristas, que alertaram que isso mostrava que uma parte da esquerda havia aprendido usar a rede para conversar com os jovens. Mas também de uma parte do campo progressista, que discute há tempos a necessidade de apresentar uma narrativa que engaje os mais novos à militância.

"Quando a juventude se engaja e se mobiliza, aponta para o futuro e para uma questão geracional. Isso não se encerra em uma eleição. E aí que está a nossa maior possibilidade de vitória no futuro", avalia Boulos.

Para ele, a apresentação de uma narrativa que resgata a política como instrumento de mudança junto aos jovens também irá influenciar outras cidades, uma vez que a campanha, por estar na internet, ultrapassou os limites de São Paulo.

O foco no digital foi a saída lógica diante de uma campanha que tinha 17 segundos de propaganda na TV no primeiro turno. Mas o Boulos digital da campanha presidencial de 2018 é diferente do candidato à prefeitura em 2020. Uma campanha forte na rede, com linguagem despojada e que se conecta com os jovens, o catapultou para o segundo turno

Por exemplo, disputou uma partida de Among Us, um jogo online, com Felipe Neto, que teve mais de 3,5 milhões de visualizações.

"Claro que a gente queria ganhar. A gente brigou para ganhar e, por isso, fez uma campanha que chegou até onde chegou. Não foi para marcar posição. Mas ao mesmo tempo, e esse foi o grande legado, disputamos valores", diz.

O coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) reclamou das análises que afirmaram que sua candidatura era baseada em um naco rico e progressista da cidade.

"A minha votação na periferia, no primeiro e no segundo turnos, foi muito maior do que a votação nos bairros centrais", diz. "Isso contrapõe aquele papo que tentaram vender de que a minha candidatura era para jovens de classe média alta", reclama.

A vitória na periferia Sudeste e Sul e do Extremo Leste foi pessoalmente importante para ele. Primeiro, porque é onde mora, no bairro do Campo Limpo. Lá, a vitória de Boulos foi apertada, 50,6% a 49,4%. Na eleição presidencial de 2018, Jair Bolsonaro (sem partido) havia ganho de Fernando Haddad (PT), no segundo turno, por 53,25% a 46,75%.

"Houve um resgate de áreas da periferia. É um recomeço. O importante é que essa campanha plantou grandes sementes."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL