Madeleine Lacsko

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Opinião

Lula sabe que discurso da representatividade tem sido só da boca para fora

Se diversidade e representatividade efetivamente fossem fundamentais para seus apoiadores, Lula agiria diferente com as mulheres. Não age porque sabe que o discurso é da boca para fora. Pleitear representatividade de minorias tem tido, infelizmente, mais a ver com lacrar e sinalizar virtude do que com reivindicar mudanças reais. O presidente da República sabe disso.

Levantamento realizado pelo UOL mostra que não é apenas no Executivo que a "cota masculina" prevalece. Nas escolhas para o Judiciário, os homens também foram favorecidos pela política de "cotas masculinas" de Lula, que deu a eles 73% das vagas. Caso realmente fosse séria a história de retribuir dívida histórica e privilegiar minorias, a conta seria invertida.

A política é território masculino em milênios de humanidade. Faz menos de um século que criamos o consenso de que nós, mulheres, temos o mesmo direito de ocupar esse espaço. Conseguimos derrubar as barreiras legais para a possibilidade de participar de eleições, seja como candidata ou votando. Isso tem um preço.

Há um incômodo com a presença da mulher no espaço público, seja pela simples novidade ou porque está tirando o lugar de alguém. Manobrar o ressentimento dos homens acabou se tornando um ativo político importantíssimo.

Hoje, as manifestações públicas de machismo são condenadas. Muita gente tem o desejo de estigmatizar, diminuir e humilhar mulheres mas não quer pagar o preço social. Surgem grupos que permitem essas práticas, elogiam quem faz e ainda fingem que é por causa de política. Pessoas ressentidas repetirão qualquer discurso político para poder colocar seus demônios para fora sem sofrer reprovação e, quem sabe, colhendo elogios.

Você já deve ter visto os grupos masculinistas de direita, os coaches de macho-alfa e coisas do gênero. Na esquerda, é impossível existir esse tipo de coisa devido à proximidade com o movimento feminista. Exatamente por isso, os grupos que fingem ser política o que é apenas machismo se tornam ainda mais importantes. Neles, as pessoas podem discursar a favor de mulheres enquanto pisoteiam mulheres.

Lula tem um talento político único e percebe a diferença, já que convive de perto com os dois tipos de movimento. O primeiro deles, do ativismo real, pleiteia ocupação de espaços de poder e mudanças efetivas. É aquele ao qual o presidente se referiu, em 2016, como "mulheres de grelo duro do PT".

O outro grupo é aquele que se diz defensor das mulheres, mas defende essa fala do presidente Lula. Falamos aqui de sinalizadores de virtude que não pretendem mudanças reais. Para eles, o importante é demonstrar para o grupo que se importam e lutar muito para parecer que estão lutando. Resultados não importam.

Vivemos a economia da atenção. Muitas reivindicações de mais espaços para mulheres não têm nenhuma relação com mulheres efetivamente ocuparem mais espaço. A pessoa só quer agregar à própria imagem a ideia de que defende mulheres. Isso basta, não precisa atender reinvindicação nenhuma. É só aparecer como alguém que pensa aquilo, uma pessoa virtuosa, de qualidade.

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Aqui temos uma soma de dois fenômenos. O primeiro é o valor político de grupos que permitem expressar machismo livremente. O outro é a apoteose dos grupos que militância simbólica, com mais espaço de mídia que ativistas por mudanças reais. Essa confluência é desfavorável para qualquer ocupação de espaço por minorias. Para mulheres, ainda pior. Nosso valor político é maior como saco de pancadas do que como aliadas.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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