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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A cantora Anitta e o Soft Power brasileiro

Militar do Exército em Citè Soleil, no Haiti - Danilo Verpa/Folhapress
Militar do Exército em Citè Soleil, no Haiti Imagem: Danilo Verpa/Folhapress
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

19/04/2022 00h00Atualizada em 19/04/2022 13h09

Não conheço a cantora Anitta. Não sou um fã de suas músicas. Pessoalmente, prefiro as canções mais antigas e suaves com uma toada semelhante à MPB dos anos 70.

No entanto, é inegável o espaço conquistado por essa artista no cenário nacional e internacional. Recentemente, alcançou o primeiro lugar nas paradas de sucesso do Spotify, confirmando sua importância no contexto artístico mundial.

Com capacidade inata de comunicação e altíssima exposição midiática, ela pode nos representar como um ator poderoso do Soft Power brasileiro, nos campos de cultura, arte e música.

Infelizmente, a artista foi envolvida em recente polêmica por usar roupas nas cores tradicionais do nosso país: o verde e o amarelo.

Por que ela foi questionada em seu direito de vestir-se em auriverde para seus shows e, ao mesmo tempo, aproveitar para fazer referência ao nosso país? Não é uma atitude patriótica?

Nossas equipes desportivas usam com orgulho em seus uniformes o verde, o amarelo, o azul e o branco.

Quando viajamos ao exterior, gostamos de ser reconhecidos como brazucas pela camisa da seleção brasileira de futebol.

Em eventos internacionais, nossos estandes são modelados e estilizados com as cores de nossa bandeira e chamam atenção.

São matizes vibrantes de todos os brasileiros, não apenas de agrupamentos ideológicos e políticos que se arvoram de detentores da pureza cromática.

Tratemos de aclarar o conceito Soft Power, que foi instituído por Joseph S. Nye, cientista político estadunidense, autor de várias obras sobre relações internacionais.

Engloba aspectos ideológicos, sociais e culturais. Não está restrito apenas aos Estados. Qualquer tipo de ator, seja estatal ou não estatal, pode exercê-lo em face de sua característica indireta, transnacional e não imediata.

O poder brando (em tradução literal) se vale da sedução para conquistar os interesses geopolíticos do agente executor. É um contraponto ao Hard Power, que usa ações concretas de forças, inerentes a um Estado, para subjugar, pela ameaça ou punição, um adversário.

São exemplos de Soft Power: a difusão do american way of life por meio da indústria cinematográfica de Hollywood, o samba e o futebol brasileiro, o procedimento das nossas tropas de paz no Haiti (conhecidas como bon bagay), a música garota de Ipanema.

Deixar de aproveitá-lo em benefício do fortalecimento da imagem do país, por pendengas eleitorais que visam a criar polêmicas que agitem as massas seguidoras, é pouco razoável.

O mundo exige antes que a força, a serenidade; antes que a discussão, a compreensão; antes que o impor, o aceitar.

Lutar contra a simplificação e empobrecimento das cores na vida em comunidade - criando o nós contra eles, o preto contra o branco, o bem contra o mal - é missão de cada cidadão.

Ao exercer seu direito inalienável do voto, senhor eleitor e senhora eleitora, vistam-se de verde e amarelo. Por que não?

A data é festiva e simboliza o ápice da democracia pela escolha dos que nos representarão. Portanto, deve ser honrada com as melhores vestes e cores mais significativas.

No silêncio da urna, entretanto, vote, conscientemente, no branco, azul, verde, vermelho, amarelo, rosa, ou a cor que bem desejar ou em nenhuma delas. É seu direito e dever.

E que Anitta seja resiliente e continue usando o verde e amarelo. Eles são de todos nós brasileiros com "muito orgulho e com muito amor".

Paz e bem!