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Em contradições, agente diz que 75 morreram antes de PM chegar

Por Gil Alessi e Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

18/02/2014 12h37Atualizada em 18/02/2014 15h58

Em um depoimento cheio de contradições, o agente penitenciário Francisco Carlos Leme afirmou nesta terça-feira (18) que viu "cerca de 75" presos mortos no Pavilhão 9 antes da chegada da Polícia Militar ao Carandiru em 2 de outubro de 1992.

No segundo dia da terceira etapa do julgamento do Massacre do Carandiru, ele declarou que os presos brigaram entre si por causa de disputas relacionadas ao tráfico de drogas.

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Leme depõe como testemunha de defesa dos 15 policiais militares que são réus nesta etapa do julgamento, que começou na segunda-feira, no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de São Paulo).

Ele disse que as mortes foram provocadas por armas brancas e de fogo. A testemunha afirmou ter ouvido disparos de armas de baixo calibre antes da entrada da PM.

Cento e onze presos morreram no Massacre do Carandiru. Os réus desta etapa são acusados por oito mortes de presos e duas tentativas de homicídio no quarto pavimento do Pavilhão 9.

O depoimento contraria afirmações feitas ontem por Moacir dos Santos, diretor de Segurança e Disciplina do Carandiru na época do massacre. Santos declarou não ter ouvido disparos antes da chegada da PM e que armas atribuídas aos presos foram "plantadas" pela polícia.

Contradições

Durante os questionamentos a Leme, o promotor Eduardo Olavo Canto Neto apontou quatro contradições entre o depoimento prestado pelo ex-diretor do Pavilhão 9 à Polícia Civil e Militar após o massacre e declarações feitas hoje.

A promotoria leu um relato antigo do ex-diretor, no qual ele afirmou ter sido agredido duas vezes durante a rebelião. Desta vez, ele negou: "nunca fui agredido por preso nenhum".

Questionado por Neto, o ex-diretor voltou atrás, e disse que no dia da rebelião "jogaram um pedaço de madeira que pegou no meu dedo".

Outro ponto questionado foi quanto à presença de presos nus no pátio.

"Inicialmente o senhor disse à polícia que havia visto detentos pelados nos pavimentos superiores durante sua ronda, após a rebelião. Hoje o senhor disse que só viu presos nus na hora em que foram levados para o IML. O que aconteceu? O senhor foi pressionado para dar este depoimento à polícia?", indagou Neto.

Leme não soube explicar o depoimento conflitante, e se limitou a dizer que não foi pressionado pela polícia.

A testemunha também mudou o número de presos mortos antes da invasão da PM. No início do depoimento, falou em "cerca de 75", e depois falou em 50.

Por fim, Neto questionou a direção de onde vinham os disparos antes de a polícia invadir o pavilhão. Em depoimentos anteriores, o ex-diretor disse não conseguir precisar a direção; agora, afirmou que vinham "de dentro para fora".

O advogado de defesa Celso Vendramini havia dito, antes do inicio da sessão, que o depoimento de Leme era "o mais importante" para ele. 

Necessidade

A primeira testemunha a depor nesta terça-feira foi o ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo Pedro Franco de Campos, que disse que havia “a necessidade” de uma invasão da Polícia Militar ao Carandiru.

O ex-secretário, que estava à frente da pasta durante o mandato do ex-governador Antonio Fleury, disse ter ouvido relatos do coronel da PM Ubiratan Guimarães (morto em 2006) de que a rebelião poderia se espalhar para os demais pavilhões, fugindo completamente do controle das autoridades.

“Ao ficar sabendo disso, disse que ele [Ubiratan] era o comandante da operação, e poderia ordenar a invasão se achasse necessário”, afirmou.

De acordo com seu relato, o governador Fleury ficou sabendo da operação apenas depois da entrada da PM. “Tentei falar com ele antes, mas ele estava fora do Estado, e foi informado após a invasão”.

 

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