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Exclusivo: Jairinho relata em carta os últimos momentos com Henry

Jairinho durante audiência do Caso Henry - Brunno Dantas/TJ-RJ
Jairinho durante audiência do Caso Henry Imagem: Brunno Dantas/TJ-RJ

Herculano Barreto Filho e Lola Ferreira

Do UOL, em São Paulo e no Rio

31/12/2021 04h00

O ex-vereador Jairo Souza Santos Junior, o Jairinho, está preso há quase nove meses no presídio Bangu 8, no Rio de Janeiro. Acusado de matar o enteado Henry Borel, de 4 anos, se manteve em silêncio desde então. Agora, pela primeira vez desde sua prisão, Jairinho dá sua versão sobre as acusações de tortura e homicídio em carta exclusiva enviada ao UOL.

Em um texto de seis páginas escrito de próprio punho, o ex-vereador conta como era sua relação com o menino, confronta a investigação policial e indica que Monique Medeiros, mãe de Henry, nunca o acusou pela morte do filho.

Todo o discurso de Jairinho está alinhado com sua estratégia de defesa: ele afirma ser inocente, mas não explica o que aconteceu na noite da morte de Henry — apesar de levantar hipóteses. Ao longo do texto, Jairinho repete várias vezes que não houve agressão.

"Sendo assim, não existe qualquer indício que eu tenha feito absolutamente nada com Henry" - Arte/UOL - Arte/UOL
"Sendo assim, não existe qualquer indício que eu tenha feito absolutamente nada com Henry"
Imagem: Arte/UOL

"Se não houve lesão, não houve agressão, isso foi visto por todos", diz. Os laudos periciais apontam 23 lesões no corpo do menino, e que Henry morreu em decorrência de hemorragia interna e laceração no fígado causada por ação contundente, mas Jairinho também questiona a veracidade dos documentos.

Em 6 de maio deste ano, o MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) denunciou Jairinho por homicídio triplamente qualificado, tortura e coação de testemunha.

Já Monique foi denunciada pelos crimes de homicídio triplamente qualificado na forma omissiva, tortura omissiva, falsidade ideológica e coação de testemunha.

"O crime de homicídio foi cometido por motivo torpe, eis que o denunciado decidiu ceifar a vida da vítima em virtude de acreditar que a criança atrapalhava a relação dele com a mãe de Henry", afirmou o promotor de Justiça Marcos Kac, no texto da denúncia.

Jairinho diz sofrer uma 'via crucis'

Além da carta original, também foi encaminhada à reportagem uma versão digitalizada do texto, com o adicional de uma introdução.

Com o título 'A carta grito de um inocente', Jairinho resume seus dias no presídio Petrolino Werling de Oliveira e compara seus últimos meses a uma 'via crucis'.

O ex-vereador relata que tem ouvido 'angústias, necessidades e anseios' de outros detentos nos dias em que sua irmã e filho mais velho o visitam na prisão.

"Toda sorte de ocorrências tenho acompanhado em minha estada, se assim posso denominar", diz o texto.

Confira abaixo os principais trechos da carta de Jairinho.

'Eu o tratava muito bem': a versão de Jairinho sobre as agressões

"Conheci o Henry, e todos os médicos apontam para que nunca houve violência" - Arte/UOL - Arte/UOL
"Conheci o Henry, e todos os médicos apontam para que nunca houve violência"
Imagem: Arte/UOL

O texto principal de Jairinho começa relatando a sua versão sobre a convivência com o enteado. Ele argumenta que nunca houve qualquer reclamação de familiares, profissionais e professoras sobre eventuais agressões sofridas por Henry.

Para ilustrar a boa convivência entre os dois, o ex-vereador explica a rotina do menino: "Depois que Monique foi morar comigo, Henry continuou ficando no mínimo 4 dias dos 7 dias da semana na casa dos avós. Nos dias da semana que ele ficava na minha casa, o avô Fernando vinha para dormir com ele, e a avó D. Rosângela também".

Todas essas pessoas foram categóricas em dizer que NUNCA viram nada de anormal com Henry, no comportamento em relação a mim, ao contrário, disseram que eu o tratava muito bem e ele nunca reclamou de mim!"
Ex-vereador Jairinho, padrasto de Henry e acusado pela morte do menino

A argumentação de Jairinho tem como principal alvo a tese do MP-RJ, que o acusa de matar o enteado após torturá-lo outras vezes, com a anuência de Monique — que veria "vantagem financeira" no relacionamento.

'Ele me dá um beijo': Jairinho nega 'tortura' relatada pela babá

Em depoimento à Justiça, a babá de Henry, Thayná de Oliveira Ferreira, recuou em um dos principais depoimentos que sustentam a tese do MP-RJ. Antes, ela havia dito que o menino era agredido por Jairinho e que, uma vez, no dia 12 de fevereiro, ligou para Monique e comunicou o fato. Em sua versão mais recente, Thayná afirmou que nunca viu o padrasto do garoto agredi-lo.

"O do dia 12, o resumo da tortura é: eu chego mais cedo em casa, abro a porta, ele vem correndo e diz: 'Tio Jairinho, tio Jairinho...'. Vem correndo e me dá um beijo, pula no meu colo e me dá um beijo, vai no quarto comigo, fica menos de 10 minutos e vai para a rua novamente" - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Na carta enviada ao UOL, Jairinho detalha o que aconteceu no dia 12, de acordo com sua versão dos fatos:

"O resumo da tortura é, eu chego mais cedo em casa, abro a porta, ele vem correndo e diz: 'Tio Jairinho, tio Jairinho?'. Vem correndo e me dá um beijo, pula no meu colo e me dá um beijo, vai no quarto comigo, fica menos de 10 minutos e vai para a rua novamente", diz o relato no trecho ao lado.

E continua: "Isso virou um episódio de tortura! Depois, o que a babá fala com a Monique, é coisa das duas".

Também à Justiça, a cabeleireira que testemunhou a ligação do dia 12 de fevereiro afirmou que ouviu uma pergunta do menino: "Mamãe, eu te atrapalho?". Jairinho não comenta sobre essa testemunha.

'Houve espetacularização': Jairinho critica investigação da Polícia Civil

Baseado em sua versão sobre a relação com o menino, Jairinho afirma que "não existe qualquer indício" de que ele tenha feito algo com Henry. Ele cita a avó do menino e mãe de Monique, Rosângela, como testemunha da relação.

"O que houve foi uma espetacularização da investigação criminal e criação de um enredo de condenação antecipada, incitando a ordem pública!" - Arte/UOL - Arte/UOL
"O que houve foi uma espetacularização da investigação criminal e criação de um enredo de condenação antecipada, incitando a ordem pública!"
Imagem: Arte/UOL

Em depoimento à Justiça, Rosângela afirmou que "Henry nunca foi agredido porque ele nunca chegou lá em casa machucado". Mas a avó acredita que ele foi agredido antes de morrer — como disse ao ser confrontada pela juíza Elizabeth Louro sobre a natureza das lesões que o levaram à morte.

Na carta, Jairinho questiona os laudos e a investigação.

O delegado não tinha motivo algum para desconfiar de mim. O que houve foi uma espetacularização da investigação criminal e criação de um enredo de condenação antecipada, incitando a ordem pública!"
Ex-vereador Jairinho, padrasto de Henry e acusado pela morte do menino

Jairinho afirma que os laudos são contraditórios, porque até a última versão, 44 dias após a morte do menino, cita características que não são de Henry: olhos castanhos e uso, no dia da morte, de fraldas descartáveis —a família alega que ele usava pijamas.

'Nenhum vizinho escuta barulho': Jairinho relata socorro no dia da morte

Jairinho também duvida da investigação e aponta que não houve testemunhas de agressões no dia da morte: "Nenhum vizinho escuta barulho algum, mesmo com os apartamentos colados um no outro!".

"Eu tomo remédio comprovadamente há 15 anos, durmo igual uma pedra, nem que eu quisesse conseguiria levantar para agredir ninguém" - Arte/UOL - Arte/UOL
"Eu tomo remédio comprovadamente há 15 anos, durmo igual uma pedra, nem que eu quisesse conseguiria levantar para agredir ninguém"
Imagem: Arte/UOL

O ex-vereador retoma a versão sobre os remédios que diz tomar para dormir. Ele relata que foi acordado por Monique para socorrer o menino, o que fez "prontamente". Um vídeo inédito divulgado pelo UOL mostra Jairinho tentando reanimar no elevador do prédio onde a família morava. Para o político e sua defesa, o registro contradiz a versão da polícia de omissão no socorro ao menino.

A Polícia Civil informou que o vídeo foi analisado pela perícia e descartou a versão da defesa de tentativa de socorro na ação de Jairinho.

Em sua defesa, Jairinho também cita as massagens cardíacas feitas no hospital Barra D'Or para afirmar que o menino chegou com vida ao hospital — e sem as lesões que constam nos laudos periciais.

Em depoimento à Justiça, a médica Fabiana Barreto afirmou que o menino já chegou morto ao hospital, mas ela confirmou que as massagens cardíacas foram feitas "pela comoção, por ser uma criança".

Jairinho afirma que, naquele momento, não houve suspeitas sobre violências.

"Em momento algum no hospital, senão teriam chamado a polícia ou conselho tutelar, as médicas viram qualquer sinal de violência. Tanto que foi dito em sede policial e em juízo. Nenhuma das três viu qualquer sinal de lesão, nem a assistente social, que era a função dela, viu nada!"

Na carta, Jairinho também questiona a falta de fotos da laceração no fígado do menino — apontada como uma das causas da morte — e a produção de novos laudos sem exumação do corpo.

Poucas vezes o ex-vereador cita Monique, sua namorada na época. O principal trecho relata que a professora esteve "convicta", do dia da morte até a prisão, de que os dois "não fizeram nada" que pudesse resultar na morte de Henry.

Jairinho prestará um novo depoimento no dia 9 de fevereiro, data que também está previsto um depoimento de Monique. Ambos irão relatar à Justiça sua versão sobre os fatos.

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