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Segurança pública

'Cracolândia': socorro a homem baleado levou 29 minutos; veja vídeo

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

14/05/2022 04h00Atualizada em 16/05/2022 16h31

Vídeos obtidos pelo UOL mostram que foi de 29 minutos o tempo de espera para atendimento ao homem que acabou morrendo, na noite de quinta-feira (12), após ser atingido por um tiro no peito em meio a uma incursão da polícia na área conhecida como "cracolândia", no centro de São Paulo.

As imagens foram gravadas por moradores da região. Os registros mostram três homens com trajes civis andando da calçada para o asfalto da avenida Rio Branco. Dois deles abrem fogo contra o grupo de pessoas em situação de rua e usuários de drogas que se deslocava durante a ação policial. Após ao menos quatro tiros, os homens armados deixam o local caminhando.

Raimundo Rodrigues Fonseca Júnior, de 32 anos, foi morto ao ser atingido por um tiro no peito em meio a uma intervenção policial na área da "cracolândia", no centro de São Paulo - Reprodução - Reprodução
Raimundo Rodrigues Fonseca Júnior, de 32 anos, era morador de rua e usuário de drogas
Imagem: Reprodução

Segundo testemunhas ouvidas pela reportagem, os dependentes químicos avisaram aos policiais militares no local que um homem havia sido baleado. Contudo, dizem, Raimundo Rodrigues Fonseca Júnior, 32, não foi socorrido.

Em um dos vídeos, é possível ver a presença de cinco veículos da PM nas imediações após os disparos sem que qualquer agente se movimentasse em direção à vítima, estendida no chão a poucos metros. Outras imagens mostram os agentes preservando o local do crime pouco antes da chegada do Corpo de Bombeiros.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que o socorro chegou "dentro do prazo normal de atendimento". Questionado pelo UOL, o órgão não se posicionou sobre os relatos de omissão de atendimento de policiais militares no local do crime.

Natural de Campinas (SP), Fonseca Júnior vivia em situação de rua na capital paulista desde 2019 devido à dependência de álcool e drogas. Segundo a Polícia Civil, ele tinha antecedentes criminais por tráfico e roubo.

Policiais civis assumiram ter disparado

Na noite de ontem, a Secretaria da Segurança de São Paulo informou que três policiais civis se apresentaram e admitiram que efetuaram disparos no local, em direção ao chão, para dispersar a multidão.

Segundo a pasta, a perícia vai apurar se o tiro que matou Fonseca Júnior partiu da arma dos agentes policiais. Com base na análise de dois fragmentos de projéteis, a polícia lida com a hipótese de o tiro ter ricocheteado e atingido a vítima, disse, em entrevista ao Jornal Nacional, Elisabete Sato, diretora do DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa).

O caso está sendo investigado pelo DHPP e, segundo a Secretaria da Segurança, a Corregedoria Geral da Polícia Civil vai acompanhar as investigações. A comissão de direitos humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) afirmou que também vai monitorar a apuração.

O advogado Elizeu Soares Lopes, da ouvidoria das polícias de São Paulo, disse que vai acionar a Polícia Civil e o Ministério Público. "Vamos cobrar essas instituições para que haja uma apuração isenta desse ocorrido lamentável", disse ao UOL.

'Eles atiraram para matar', diz testemunha

Quando ouviu o barulho da confusão envolvendo o fluxo de moradores de rua e dependentes químicos da "cracolândia", uma moradora da região foi à janela do apartamento registrar o que via. O vídeo, gravado às 20h20 de quinta-feira (12) no celular da testemunha, registrou o crime.

Ela relatou o que viu ao UOL sob a condição de anonimato por medo de sofrer represálias.

"Ouvi uma gritaria. Fui para a janela e vi que as viaturas da Polícia Militar fechavam o acesso. Eles [usuários de drogas] se amontoaram no meio da rua e correram. Aí, vieram os tiros. O homem baleado veio cambaleando e caiu na frente do meu prédio", conta a moradora, que já prestou depoimento à Polícia Civil.

Segundo ela, outro homem em meio à multidão chegou a chamar os policiais militares no local, pedindo por socorro.

Ele gritava: 'ajuda, tem uma pessoa ferida'. Mas eu só percebi que o rapaz tinha sido atingido quando levantaram a blusa. Foi assustador. Ele ainda estava se mexendo, pedindo por ajuda. Mas os policiais não fizeram nada"

A moradora registrou a cena até a chegada do Corpo de Bombeiros. Um outro vídeo em seu celular mostra que o socorro só chegou às 20h49 —29 minutos depois do disparo que atingiu o peito da vítima. Após testemunhar o assassinato, ela ainda tenta se recuperar do trauma diante da única certeza que diz ter: "Atiraram para matar".

Escalada de violência e medo

Vídeos nas redes sociais mostraram policiais militares dispersando usuários de drogas da região no dia 8 de maio.

Na tarde de terça-feira (10), houve quebra-quebra e bloqueio das ruas após uma ação de rotina da GCM (Guarda Civil Metropolitana) na praça Princesa Isabel, onde a "cracolândia" estava instalada desde março deste ano, após a desocupação da praça Júlio Prestes. Um agente se feriu, atingido por uma pedrada na mão esquerda.

A moradora de um prédio em frente ao local detalhou à reportagem a rotina de medo. Ela disse só sair de casa sem carteira, sem celular e com spray de pimenta amarrado à chave.

Na madrugada de quarta-feira (11), uma força-tarefa com a participação da Polícia Civil, Polícia Militar e GCM desocupou a praça. Contudo, cerca de 150 usuários de drogas permaneceram a apenas 50 m do local, segundo o UOL.

Durante a tarde de quinta-feira (12), horas antes da morte do morador de rua, a reportagem acompanhou a migração de dependentes químicos concentrados em ao menos quatro regiões do centro da capital paulista. Moradores e comerciantes relataram um cenário de medo devido à circulação de usuários de drogas espalhados pelo centro da cidade.

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