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Não podemos comemorar a morte de Chávez, dizem venezuelanos opositores

Carlos Iavelberg

Do UOL, em Caracas

08/03/2013 06h00

A Venezuela dos últimos 14 anos se caracterizou por ser um país dividido entre chavistas e antichavistas. Mas, apesar da tensão acumulada durante os mandatos de Hugo Chávez, venezuelanos opositores ouvidos nas ruas da capital Caracas pelo UOL disseram que sentem pela morte do presidente.

“Não podemos nos alegrar com a morte deste senhor [Chávez], mas não vamos esquecer que muita gente morreu por causa dele”, afirma a dona de casa Patrícia Lahmann, 55, em referência às mortes ocorridas em confrontos entre governistas e oposicionistas na última década.

“Chávez sempre semeou o ódio entre os venezuelanos. Isso não faz sentido, somos um país mestiço. Por que jogar negros, índio e brancos uns contra os outros? Eles [chavistas] queriam que a gente se matasse, mas isso não vai ocorrer”, declara Lahmann.

Enquanto fazia compras em um mercado no bairro de classe média de Chuao, na região leste de Caracas, a dona de casa dizia que o governo mentiu para toda a população. “O pior que fizeram foi a mentira. Chávez já estava mal faz muito tempo, ele não deveria ter disputado as eleições.” O líder bolivariano foi reeleito em outubro do ano passado, dois meses antes de ir a Cuba tratar de um câncer.

“Ele não deveria ter ido a Cuba. Aqui teria sido tratado de forma melhor, mas não confiou nos venezuelanos”, diz Lahmann.

No mesmo bairro onde a dona de casa fazia suas compras fica a embaixada cubana no país, onde estudantes antichavistas protestaram em fevereiro pedindo informações sobre o estado de saúde do presidente, que morreu na terça-feira (5).

Já outro opositor, o comerciante Sérgio Martínez, 49, diz ver coisas boas em Chávez. “Sou opositor, mas é lamentável que ele tenha morrido. Chávez tinha seus seguidores aqui e no mundo todo. É inegável que ele ajudou os pobres, mas tinha as minhas divergências.”

Para Martínez, a Venezuela retrocedeu nos últimos anos. “Como um país com tanto petróleo não tem um asfalto bom?”, questiona sobre o fato de a Venezuela ser uns dos maiores exportadores da commodity. Segundo o venezuelano, Chávez priorizou ajudar outros países, como Cuba, em detrimento de seu próprio Estado. “Primeiro, você tem de ajudar as pessoas de sua casa, depois, os outros.”

Eleitor do líder bolivariano em sua primeira disputa pela presidência, em 1998, o empresário Rafael Cox, 63, afirma que nunca mais votou nele. “Chávez foi um fenômeno. Tinha visão de futuro e ajudou muito os pobres. Mas fez algo muito ruim para o país: colocou os pobres contra a classe média. Mesmo discordando dele e votando na oposição, não fico feliz com sua morte.”

Os oposicionistas ouvidos pela reportagem disseram que vão votar em Henrique Capriles, provável candidato pela oposição, no pleito que deve ocorrer dentro de 30 dias após a morte de Chávez. Porém, todos foram unânimes em dizer que o presidente interino, o vice Nicolás Maduro, deve ser eleito.

“Vamos ver como serão as eleições. Vai ser difícil, mas sempre há esperanças que Maduro não ganhe”, diz a dona de casa Lahmann.

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