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Vontade de ajudar, bronca da mãe e medo: o dia do menino coberto de óleo

Menino coberto de óleo deixa água na praia de Cabo de Santo Agostinho (PE) - Leo Malafaia/AFP
Menino coberto de óleo deixa água na praia de Cabo de Santo Agostinho (PE) Imagem: Leo Malafaia/AFP

Fabiana Maranhão

Colaboração para o UOL, no Recife

25/10/2019 17h50Atualizada em 27/10/2019 01h05

Nos últimos dias, Everton Miguel dos Anjos, 13, tem ouvido muitos comentários de amigos e vizinhos, que dizem que ele está "ficando famoso". Eles se referem a uma foto que rodou o mundo que mostra o menino coberto de óleo em uma praia em Pernambuco.

A imagem foi registrada na última segunda-feira (21), quando o adolescente participava de um mutirão que se formou para limpar a praia de Itapuama, no Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, que amanheceu aquele dia com manchas de óleo na areia e na água.

Ele chegou de manhã cedo com a mãe, Ivaneide Maria de Oliveira, 36, que tem uma barraca na praia. Era feriado no estado. Ao ver a sujeira, o menino conta que sentiu "tristeza e vontade de ajudar".

"Por que você quis ajudar?", perguntou a reportagem, por telefone. "Porque minha mãe trabalha lá e a gente depende de lá".

Bronca da mãe e preocupação com a saúde

"Eu disse pra ele que ele poderia ajudar [na limpeza], mas não se melar de óleo", lembra Ivaneide. "Eu peguei a luva, a bota e fui limpar", diz Everton. O material era distribuído pela prefeitura.

Junto com pescadores e outros meninos, o adolescente ficou em um barco, que fazia o transporte do óleo recolhido na água e em uma área com pedras até a areia.

Everton Miguel dos Anjos, 13, disse que entrou no mar para ajudar a tirar o óleo, mas que ficou desesperado ao se ver coberto pelo material - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Everton Miguel dos Anjos, 13, disse que entrou no mar para ajudar a tirar o óleo, mas que ficou desesperado ao se ver coberto pelo material
Imagem: Arquivo pessoal
Em um determinado momento, ele pulou na água e, quando se deu conta, estava coberto de óleo. "[Fiquei] muito desesperado pra tirar o óleo". O adolescente usou óleo de cozinha para limpar o corpo, mas a mãe temeu pelas reações físicas que ele poderia ter.

"Cheguei a ver [ele todo melado de óleo], dei uma bronca nele. Graças a Deus, hoje é sexta-feira e não apareceu nenhum sintoma nele, não teve reação nenhuma e espero que não tenha", diz a mãe. Nos últimos dias, pessoas que tiveram contato com o óleo têm procurado unidades de saúde, queixando-se de dor de cabeça, enjoo, vômito e manchas na pele.

Depois de segunda-feira, Everton não voltou mais à praia, "por causa da passagem [de ônibus] e por problema de saúde, que poderia pegar alguma doença". Ele diz que se sente bem.

Aluno do 7º ano de uma escola pública da cidade e o mais novo de seis irmãos, Everton espera que a praia à qual ele vai todos os fins de semana "volte a ser como era antes". para que ele possa fazer o que mais gosta lá: "tomar banho" de mar.

Imagem de menino rodou o mundo

A foto que mostra o menino coberto de óleo foi tirada na segunda-feira pelo fotógrafo Léo Malafaia. A serviço do jornal local em que trabalha, ele foi à praia de Itapuama para registrar o trabalho de voluntários que se mobilizaram para limpar o local.

No dia seguinte, ele postou em seu perfil no Instagram quatro fotos que tirou de Everton. A que mostra o rosto do menino viralizou nas redes sociais e chegou a ser publicada por jornais nacionais e internacionais.

"Acho que essa foto resume bem a falta de apoio e cuidado do estado e poder público. É uma cena absurda e uma denúncia por si só", afirma o fotógrafo.

Óleo no NE

Há quase dois meses manchas de óleo têm aparecido em praias do Nordeste. Até o momento, 238 praias em 89 cidades da região foram afetadas, de acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Dois dos estados mais afetados têm sido Pernambuco e Alagoas. Em Pernambuco, foram recolhidas 1.358 toneladas de resíduos de óleo, segundo o governo estadual. Em Alagoas, foram retiradas das praias 726 toneladas de óleo misturado com areia.

Ainda não se sabe de onde nem como vazou todo esse óleo. A origem do material está sendo investigada pela Marinha. A Polícia Federal é responsável pela investigação criminal do caso.

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