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Óleo no Nordeste: O que se sabe até agora sobre a contaminação das praias

Tartaruga encontrada em Maragogi estava viva com a cabeça completamente coberta e o óleo obstruindo narina, olhos e boca - Instituto Biota/Divulgação
Tartaruga encontrada em Maragogi estava viva com a cabeça completamente coberta e o óleo obstruindo narina, olhos e boca Imagem: Instituto Biota/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió*

22/10/2019 17h06Atualizada em 07/01/2020 16h17

Desde o dia 30 de agosto, praias do Nordeste sofrem com o aparecimento de manchas de óleo no mar e restos do material que chegam às praias. Até agora, não se sabe a origem do material.

Veja a seguir as principais perguntas sobre o caso e o que já se sabe até agora:

Qual é a origem do óleo vazado?

Inicialmente, segundo investigação da Polícia Federal, acreditava-se que o óleo havia vazado de um navio petroleiro de bandeira grega, o Bouboulina.

A Delta Tankers, dona do navio grego, contudo, nega que tenha havido vazamento e afirmou, no início de novembro, que ainda espera que o Brasil mostre evidências de que o óleo é deles.

Na segunda (18), uma nova embarcação surgiu no rol de suspeitos: Voyager I, um navio-tanque com bandeira das Ilhas Marshall e registrado em nome de uma empresa alemã. Mas essa hipótese também foi rechaçada.

Foi possível chegar à embarcação pela fotografia que o pesquisador Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Ufal.

Quando começou o vazamento?

Ainda não se sabe com precisão quando o vazamento se iniciou.

Quanto óleo vazou no mar?

Nem o Ministério da Defesa nem os especialistas envolvidos na análise do vazamento sabem precisar quanto exatamente vazou. Nem mesmo se houve alguma diminuição na contaminação.

Até a segunda quinzena de dezembro, mais de cinco mil toneladas de resíduos foram recolhidas nos litorais dos estados atingidos.

Existe navio com capacidade de levar tanto óleo?

Sim, até muito mais. Até o momento, foram retiradas das praias mais de 4.000 toneladas. A Petrobras, por exemplo, tem petroleiro de transporte de óleo cru com capacidade de carregamento de 175 mil toneladas.

O que é o material vazado?

Segundo análise feita pela Petrobras, trata-se de uma mistura de óleos crus provenientes da Venezuela. A Venezuela afirma ter dúvidas sobre essa explicação, já que não foi acionada para investigar o caso. Uma análise feita pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) também apontou uma similaridade do óleo que chegou à costa baiana com petróleo venezuelano.

O óleo que chega à costa é o mesmo em todos os pontos?

Segundo perícia da Polícia Federal, 15 amostras coletadas em diferentes pontos de quatro estados nordestinos (Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Ceará) "possuem similaridade". Já a amostra coletada de um tambor depositado na Capitania dos Portos de Sergipe, "apresenta características divergentes das demais".

O pior já passou ou está por vir?

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro (PSL) ter afirmado, no dia 3 de novembro, que "o pior ainda está por vir", não é isso que especialistas afirmam. Segundo o Ibama, "não é possível prever com segurança as localidades que podem ser atingidas pelo óleo".

"As manchas se concentram em camada subsuperficial, o que impede a visualização por satélite, sobrevoo e monitoramento com sensores para detecção de óleo. Nesse contexto, o monitoramento realizado por agentes de campo em inspeções regulares nas praias e estuários é indispensável", informa.

O que está sendo investigado?

A investigação da origem das manchas de óleo está sendo conduzida pela Marinha, enquanto a investigação criminal é apurada pela PF. Segundo a Marinha, o caso é "muito complexo e inédito na história do Brasil". Na sexta-feira (1º.nov), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra as empresas ligadas à Delta Tankers, companhia dona do navio grego Boubolina.

Em dezembro, no entanto, veio à tona a informação de que hipótese de que o Bouboulina seria o responsável pelo vazamento do óleo já havia sido refutada pelo Ibama e por especialistas que estão acompanhando o vazamento.

A última hipótese aventada foi a de que o óleo teria vindo do mar do sul da África em abril. A hipótese foi levantada pelo pesquisador Ronald Buss de Souza, do Inpe e que atua no Grupo de Acompanhamento e Avaliação da crise do óleo.

Inicialmente, a Marinha trabalhou com quatro hipóteses para o vazamento: operação "ship to ship", que é a transferência de petróleo de um navio para outro no mar; naufrágio de navio petroleiro; derramamento acidental; derramamento intencional. A hipótese de limpeza de tanque, que chegou a ser levantada, foi descartada por conta da quantidade de petróleo já recolhida.

Que medidas já foram tomadas?

Desde o dia 2 de setembro, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) tomou uma série de ações com a Marinha, a ANP (Agência Nacional do Petróleo e Biocombustíveis), a Petrobras e vários órgãos estaduais e municipais relacionados ao meio ambiente para minimizar os impactos do óleo.

Quais praias já foram atingidas?

Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), 966 localidades de 129 municípios das regiões Nordeste e Sudeste foram afetados por vestígios do óleo entre 30 de agosto até 18 de dezembro.

Além de Morro de São Paulo (BA), praias paradisíacas como Jericoacoara (CE), Pipa (RN), Porto de Galinhas (PE) e Maragogi (AL) foram afetadas. Ao menos em 201 praias houve registro de contaminação.

O óleo pode avançar para outras praias no Sudeste?

Praias do sul da Bahia e, mais recentemente, do Espírito Santo, foram atingidas, mas não há como prever se o óleo avançará para outras praias, pois ele é conduzido pelas correntes marítimas, as quais são influenciadas pelos ventos locais e regime das marés, e não são visíveis na superfície, a não ser muito próximo da costa, nas arrebentações.

As correntes sofrem alteração de direção e intensidade constantemente.

É perigoso comer peixe da região afetada?

O secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, afirmou que a população do Nordeste pode continuar consumindo pescados apesar das manchas de petróleo que atingem a costa da região há dois meses. Biólogos, no entanto, sugerem cautela no consumo, já que pode ter ocorrido contaminação.

O ministério da Agricultura chegou a encomendar estudos sobre a qualidade dos pescados na região, e, após os resultados, afirmou que os animais coletados estavam "próprios para consumo."

Um dos autores do estudo, no entanto, afirmou que isso não significa que a pesca esteja liberada nos locais atingidos pelo óleo.

Maia cria CPI para investigar vazamento de óleo no Nordeste

A Câmara dos Deputados instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a origem das manchas de óleo que atingem as praias do Nordeste e do Espírito Santo.

O pedido da CPI do Vazamento de Óleo foi apresentado por João Campos com a assinatura de 267 deputados, quase 100 a mais que as 171 assinaturas necessárias a um requerimento desse tipo em 23 de novembro.

Na terça-feira (17), em depoimento à CPI, o coordenador-Geral do Cenima (Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais) do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), Pedro Alberto Bignelli, refutou por completo a única suspeita levantada até então publicamente pela PF, de que o navio grego Bouboulina seria suspeito do vazamento.

*Colaboraram Cleber Souza e Alex Tajra, do UOL em São Paulo

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