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Meio Ambiente

Após impasse ambiental, Brasil sugeriu reaproximação "discreta" com Noruega

Brasil2/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Brasil2/Getty Images/iStockphoto

Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

25/06/2021 04h00

Após impasses relativos ao meio ambiente, o embaixador do Brasil na Noruega, Enio Cordeiro, sugeriu ao secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores daquele país, Tore Hattrem, que as duas nações retomem "discretamente" os esforços para que a pauta ambiental volte a ser um "pilar" de cooperação bilateral.

"Sobre a questão ambiental, suscitada rapidamente pelo meu interlocutor no início da entrevista, reforcei que esse sempre foi um dos pilares emblemáticos da produtiva e visível cooperação entre os dois países, que deveriam fazer discretamente todos os esforços para que volte a sê-lo tão pronto quanto possível. Recalquei ser do interesse de ambas as partes que isso ocorra", escreveu Cordeiro, em telegrama datado de 14 de maio deste ano.

O documento da Embaixada do Brasil em Oslo ao Itamaraty, entregue à CPI da Covid, é assinado por Cordeiro e relata a conversa entre ele e Hattrem em encontro durante o processo para que pudesse exercer oficialmente a função no país nórdico.

O relato não aponta o motivo pelo qual Cordeiro usou o termo "discretamente". Procurado pelo UOL para um posicionamento, o Itamaraty ainda não se manifestou.

No texto, Cordeiro afirma que Hattrem lhe disse que não "faltará oportunidade de tratar abertamente desses temas, que as instituições norueguesas são transparentes e que os foros locais e a opinião pública são abertos ao diálogo".

Segundo Cordeiro, Hattrem disse ter "convicção de que a divergência atual em matéria de meio ambiente será certamente superada".

Entendo que a questão central do ponto de vista norueguês não é a transferência de recursos, mas sim a sensibilidade política da questão do desmatamento.
Enio Cordeiro, embaixador do Brasil na Noruega

O governo norueguês doou cerca de 94% dos R$ 3,4 bilhões destinados ao Fundo Amazônia, criado em 2008 para o financiamento de ações de conservação, monitoramento e uso sustentável da Amazônia Legal.

Em 2019, porém, em meio a estudos do governo brasileiro para reformular a iniciativa e mudanças na gestão do fundo, a Noruega suspendeu repasses. A Alemanha tomou atitude no mesmo sentido.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou à época que o Brasil não precisava do dinheiro e apontou hipocrisia dos países.

O então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, porém, em abril deste ano, já pediu ajuda da comunidade internacional para levantar US$ 1 bilhão para o combate ao desmatamento ilegal.

Naquele mesmo mês, pouco antes do telegrama de Cordeiro, Bolsonaro enviou carta ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em que afirma se comprometer com a eliminação do desmatamento ilegal no país até 2030.

Na conversa com Hattrem, segundo o relato, o embaixador brasileiro reconheceu que o ressurgimento de índices elevados de desmatamento cria um problema de imagem ao Brasil. Contudo, defende que as taxas foram reduzidas desde 2005 e devem continuar a diminuir.

Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), as taxas anuais de desmatamento na Amazônia Legal caíram significativamente daquele ano até 2012, mas, desde então, voltaram a crescer.

Cordeiro ainda disse que esforços são feitos para combater cada vez mais o desmatamento, mas os resultados não são imediatos. Também defendeu não haver pressão do agronegócio brasileiro sobre a Amazônia e exaltou o Fundo Amazônia.

"O desmatamento é essencialmente resultado de atividades ilícitas em terras públicas, o que cabe inequivocadamente ao Estado brasileiro coibir", argumentou.

Além da pauta ambiental, Cordeiro e Hattrem conversaram sobre a pandemia do novo coronavírus e investimentos econômicos, entre outros assuntos.

Salles é substituído por ex-conselheiro de entidade ruralista

Ricardo Salles saiu do Ministério do Meio Ambiente por vontade própria na quarta (23), segundo ato no Diário Oficial da União. No entanto, ele era contestado por ambientalistas, parcela do Congresso Nacional e até mesmo parte de ruralistas, por entender que medidas que prejudiquem a pauta ambiental dificultam a exportação de produtos agropecuários com os selos de boa procedência exigidos em alguns mercados.

Investigação da Polícia Federal apura se Salles atuou para afrouxar o controle do Ibama sobre a exportação de madeira. A ação da corporação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Salles também é alvo de outro inquérito, autorizado pela ministra Cármen Lúcia no início deste mês. Trata-se da Operação Handroanthus, também da PF, que apura a suposta prática de crimes com o objetivo de dificultar a fiscalização ambiental e impedir investigação que envolva organização criminosa, além de suposto crime de advocacia administrativa.

Salles nega irregularidades nos dois casos.

O novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Álvaro Pereira Leite, atuou por mais de 23 anos como conselheiro da SRB (Sociedade Rural Brasileira). Ele estava desde setembro do ano passado no comando da secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais.

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