Operação Lava Jato

Lava Jato provoca desemprego? Lula e Moro discordam sobre impacto da investigação no país

Leandro Prazeres

Do UOL, em Brasília

  • Eduardo Knapp - 19.set.2004/Folhapress

    Lula visita obras de construção em 2004: para ele, Lava Jato minou construção civil

    Lula visita obras de construção em 2004: para ele, Lava Jato minou construção civil

Em seu primeiro depoimento presencial na Justiça Federal do Paraná em um dos processos no qual é réu na Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou se juiz federal Sergio Moro se sentia responsável pelos impactos econômicos da operação. O depoimento foi prestado nesta quarta-feira (10), em Curitiba. "O senhor se sente responsável pela Operação Lava Jato ter destruído a indústria da construção civil nesse país? O senhor se sente responsável por [inaudível] milhões de pessoas que já perderam emprego no setor de óleo e gás na construção civil? Eu tenho certeza que não", perguntou Lula a Moro.

O questionamento feito por Lula depois que o juiz federal lhe indagou sobre se ele tinha conhecimento do esquema de corrupção que atuava na Petrobras. Moro respondeu ao ex-presidente perguntando se havia sido a Operação Lava Jato ou a corrupção que tinham afetado a economia.

"O senhor entende que o que prejudicou essas empresas foi a corrupção?", respondeu Moro ao ex-presidente. Lula respondeu afirmando que o problema não teria sido a corrupção, mas a forma como ela estava sendo combatida. "Não. Foi o método de se combater a corrupção. Quando um juiz e os acusadores se submetem à imprensa para prender as pessoas, aí tudo é possível", disse Lula.

Moro rebateu. "De que forma que o juiz teria se submetido à imprensa?", indagou.

Reprodução
Lula depôs a Moro por quase cinco horas nesta quarta-feira

"Eu vou lhe dizer uma coisa, doutor. O senhor disse num artigo que o senhor escreveu copiando a [operação] Mãos Limpas da Itália que se a imprensa não ajudar, não tem como prender rico e político. Então, aí vamos degradar a imagem das pessoas na imprensa", disse Lula. 

Iniciada por volta das 14h18 desta quarta-feira (10), a audiência foi conduzida pelo juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância. A Lava Jato investiga um esquema de corrupção que envolve as maiores empreiteiras do país, entre elas a Odebrecht e a OAS, responsáveis por grandes obras no ramo da construção civil.

O depoimento do ex-presidente acontece dentro do processo em que Lula é acusado de ter recebido, em 2009, propina da empreiteira OAS por meio da reserva e reforma de um tríplex no edifício Solaris, no Guarujá, município do litoral de São Paulo.

Lula também responde pelo armazenamento de bens depois que ele deixou a Presidência, entre 2011 e 2016. Lula governou o Brasil por dois mandatos seguidos, entre 2003 e 2010. O valor total da vantagem indevida seria de R$ 3,7 milhões, como contrapartida por três contratos entre a empreiteira OAS e a Petrobras, segundo o MPF (Ministério Público Federal).

Os crimes

Segundo a  denúncia dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato, o ex-presidente da República teria cometido os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Foi nessa ocasião, inclusive, que os membros do MPF usaram aquela que ficou conhecida como a polêmica apresentação em Power-Point para apresentar as acusações contra o petista. 

Em 20 de setembro do ano passado, Moro acolheu a denúncia do MPF e Lula tornou-se réu no processo.

Ao SBT Brasil, Lula disse que o MPF mente sobre o tríplex

Segundo depoimento

O encontro desta quarta-feira entre Lula e Moro foi o primeiro feito de maneira presencial. Os dois já estiveram em uma audiência em 30 de novembro de 2016, por meio de uma videoconferência, estando o juiz em Curitiba e o ex-presidente, no prédio da Justiça Federal em São Bernardo do Campo (SP).

Na ocasião, o ex-presidente depôs como testemunha de defesa do deputado federal cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que era acusado de receber propina no contrato de exploração de petróleo em Benin, na África, e de usar contas na Suíça para lavar o dinheiro.

Cunha foi condenado por Moro a mais de 15 anos de prisão na ação em março deste ano.

Ao contrário do depoimento de hoje, a audiência entre os dois na ocasião foi mais curta, tendo durado menos de dez minutos, em clima de cordialidade.

Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Tríplex em prédio residencial no Guarujá é um dos itens investigados no processo

Outros quatro processos

Além do processo no qual prestou depoimento hoje, Lula é réu em outros quatro, sendo dois também no âmbito da Lava Jato. Em um destes dois, o ex-presidente é acusado por tentar obstruir a Justiça por uma suposta tentativa de comprar o silêncio de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras e um dos delatores do esquema de corrupção na estatal.

Lula também responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo que apura desvios para compra de um terreno em São Paulo para o Instituto Lula e de um apartamento em frente ao em que o ex-presidente mora, em São Bernardo do Campo (SP). 

A denúncia do MPF que motivou esse processo também envolve R$ 75,4 milhões que foram repassados a partidos e políticos que davam sustentação ao governo de Lula, como PT, PP e PMDB, além de funcionários da Petrobras.

Confira a íntegra das alegações finais do ex-presidente a Moro

O petista ainda é réu em um desdobramento da Lava Jato, a Operação Janus, comandada pela Justiça Federal no DF (Distrito Federal). Ele é acusado pelos crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa.

De acordo com a procuradoria, Lula teria usado sua influência junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a outros órgãos com sede na capital federal para favorecer a Odebrecht em contratos e obras de engenharia em Angola. Em troca, a Odebrecht teria feito "repasses dissimulados" de cerca de R$ 30 milhões.

Também na Justiça do DF, Lula responde a um processo no qual é acusado pelos crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa, dentro da Operação Zelotes. O petista teria atuado para interferir na compra de 36 caças do modelo Gripen pelo governo brasileiro e na prorrogação de incentivos fiscais destinados a montadoras de veículos por meio da Medida Provisória 627. Os casos teriam ocorrido entre 2013 e 2015, quando Lula já não era presidente.

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