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Salles enfrenta crise do Inpe em volta ao Senado, onde foi chamado de fujão

6.jun.2019 - O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) faz pronunciamento no plenário do Senado durante sessão especial destinada a celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente - Edilson Rodrigues/Agência Senado
6.jun.2019 - O ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) faz pronunciamento no plenário do Senado durante sessão especial destinada a celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

07/08/2019 04h01

Dois meses depois de se retirar de uma sessão solene do Senado aos gritos de "fujão", o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, volta hoje à Casa como convidado para prestar esclarecimentos sobre o Fundo Amazônia -- que concentra doações para prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento.

O convite havia sido articulado há semanas por aliados do governo, que pretendiam dar palanque para expor a visão oficial sobre o fundo.

Mas há elementos para acreditar que a estratégia terá dado errado: nesse meio tempo, estourou a crise no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Nacionais), cujo diretor foi demitido após criticar o presidente Bolsonaro (PSL), e o assunto deverá dominar a sessão.

Segundo senadores ouvidos pelo UOL, apesar da blindagem do governo, maioria nas comissões da Casa, há expectativa de temperatura elevada durante a audiência.

"Vamos para cima. Tem que ir para cima, sim", disse o líder do PT, Humberto Costa (PE). "Vamos questioná-lo duramente, mas sem nada pessoal ou revanchismo. Nós sabemos que esse ministro é um sabonete", comentou Jorge Kajuru (Sem partido-GO).

Salles será confrontado em relação a assuntos como:

  • Crítica de Alemanha e Noruega, principais doadores do Fundo Amazônia, em relação a atos do governo
  • Aumento do desmatamento
  • Troca de comando no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Nacionais)
  • Defesa do governo da mineração em terras indígenas

Salles ouve "Fujão" no Senado

UOL Notícias

Estratégia

Ontem (6), alguns senadores de oposição fizeram uma reunião para discutir estratégias. A tendência é que se repita com Salles algo que já havia ocorrido com os ministros Abraham Weintraub (Educação) e Sergio Moro (Justiça e Segurança Público).

A audiência convocada para discutir a gestão do Fundo Amazônia, assunto pelo qual Salles também tem sido duramente criticado tanto no Brasil quanto no exterior, foi solicitada pelo líder da maioria, Eduardo Braga (MDB-AM), e por Soraya Thronicke (PSL-MS).

Ambos são da base do governo na Casa e apresentaram os requerimentos nas comissões antes da confusão envolvendo Salles, Bolsonaro e o agora ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão.

"O andamento da audiência vai depender muito da postura dele [Salles]", comentou o presidente da CTFC, Rodrigo Cunha (PSDB-AL).

Um parlamentar que preferiu não se identificar declarou ao UOL que, se Salles repetir o comportamento que teve em sessão solene do Senado de 6 de junho para homenagear o Dia Mundial do Meio Ambiente, a ofensiva da oposição ganhará força. "A situação não é muito confortável para ele."

Desmantelamento do ministério

O presidente da CMA, Fabiano Contarato (Rede-ES), disse ao UOL que está indignado com a gestão ambiental no país promovida pelo governo Bolsonaro e que esse tema "independe de questões partidárias" ou ideológicas.

"A presidente poderia ser a Marina Silva e eu criticaria mesmo assim", disse ele, em referência a líder de seu partido, ex-senadora e ex-candidata à Presidência.

Na visão do parlamentar, sob comando de Salles, há um "desmantelamento" de toda a estrutura do ministério, com o fim de secretarias temáticas e um "comportamento negacionista" --referência a uma das polêmicas do governo, que já disse rejeitar o conceito de aquecimento global.

"Há um desmantelamento em todos os setores. Não é uma fala de oposição, é uma fala de constatação", comentou.

Styvenson Valentim (Podemos-RN) comentou que o objetivo do Parlamento é "cobrar esclarecimentos" e acabar com o que chamou de "telefone sem fio" na relação do Executivo com o Congresso e a sociedade. Para ele, Salles vai ter que explicar de forma objetiva assuntos como o aumento do desmatamento. "Desde criança eu ouço falar em desmatamento."

Jaques Wagner (PT-BA) disse que uma das circunstâncias que podem aumentar a pressão contra Salles é o que ele chamou de "posturas exóticas" em relação ao meio ambiente. Ele destacou, por outro lado, que o quórum da audiência pode ser prejudicado pela volta do recesso e pela blindagem dos senadores governistas.

Inpe

Ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão foi demitido na semana passada após rebater críticas do presidente Jair Bolsonaro em relação a dados de desmatamento na Amazônia divulgados pelo órgão. Os números foram considerados sensacionalistas pela chefia do Executivo. Na segunda (5), o governo anunciou o nome do novo dirigente: o militar Darcton Policarpo Damião.

No último dia 21, em entrevista à Folha, Galvão havia dito que até poderia ser demitido, mas que o instituto era cientificamente sólido o suficiente para resistir aos ataques do governo. Um dia antes, declarou à TV Globo que o comportamento de Bolsonaro era "como se estivesse em um botequim".

A polêmica começou em 19 de julho quando, em café com jornalistas estrangeiros, o presidente questionou os dados de desmatamento. Na ocasião, ele colocou em dúvida os dados do Inpe e disse que essas informações eram usadas em "matérias repetidas que apenas ajudam a fazer com que o nome do Brasil seja malvisto lá fora".

Fundo Amazônia

Criado em 2008 para receber doações destinadas a ações contra o desmatamento, o Fundo Amazônia foi alvo de críticas da gestão Bolsonaro. Isso porque países que investiram na iniciativa, como Noruega (R$ 3,2 bilhões) e Alemanha (R$ 200 milhões), tem pressionado o governo a manter o rigor das políticas ambientais e de combate ao desmate, que tem crescido em 2019, segundo mostram os próprios dados do Inpe.

Em maio, Salles disse que havia irregularidades no fundo, o que foi rebatido pelas autoridades norueguesas e alemãs. O ministro tem planos de realizar mudanças em relação à estrutura do Fundo Amazônia, reduzindo o número de conselheiros de 24 para sete e priorizando o governo federal na composição. As embaixadas dos dois países europeus já se manifestaram publicamente contra a proposta.

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