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Ao acusar sem provas, Bolsonaro mira ONGs, cubanos e opositores da ditadura

Jair Bolsonaro durante cerimônia em comemoração ao Dia Nacional do Voluntariado, em Brasília - Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo - 28.ago.2019
Jair Bolsonaro durante cerimônia em comemoração ao Dia Nacional do Voluntariado, em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo - 28.ago.2019

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

31/08/2019 04h00

Desde que assumiu o cargo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) já fez acusações públicas sem provas contra ONGs (organizações não governamentais) na Amazônia, cubanos que atuaram no programa Mais Médicos, sobre dados de desmatamento e opositores da ditadura militar (1964-1985).

Na semana passada, em meio à crise internacional provocada pelo avanço das queimadas na Amazônia, Bolsonaro declarou que a "maior suspeita" sobre a origem dos focos de incêndios recaía sobre as ONGs. Também sem detalhar por quais motivos, o presidente afirmou ter "suspeita" de que produtores rurais estariam "tacando fogo".

"Quer que eu culpe os índios? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que é esse pessoal de ONG que perdeu a teta deles, é simples", afirmou.

O presidente admitiu não ter provas do que falava sobre as ONGs. Perguntado sobre a ausência de evidências, respondeu: "Não se tem prova disso. Ninguém escreve isso 'eu vou queimar lá'".

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Dias antes, o presidente fez outra acusação em que refutou a necessidade de provas. Foi quando afirmou que a contratação de cubanos no programa Mais Médicos tinha como objetivo criar "células de guerrilha".

"O PT botou no Brasil cerca de 10 mil fantasiados de médicos aqui dentro, em locais pobres, para fazer células de guerrilhas e doutrinação. Tanto é que, quando eu cheguei, eles foram embora porque eu ia pegá-los", declarou.

Questionado sobre provas de que os cubanos eram guerrilheiros, Bolsonaro não respondeu. "Precisa ter prova disso daí? Você acha que está escrito isso aí em algum lugar?", disse.

Número "real" de desmatamento não apareceu

Após classificar publicamente como "mentirosos" os dados sobre o desmatamento na Amazônia, nem presidente nem nenhum integrante do seu governo apresentou qualquer número diferente. As informações criticadas por Bolsonaro são oriundas de monitoramento via satélite feito pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que mostrou avanço no desmatamento em 2019.

"A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão", disse o presidente no dia 19 de julho.

No dia 1º de agosto, o governo chegou a organizar uma apresentação para expor seus argumentos para questionar os dados do Inpe, mas não mostrou qual seria a real situação do desmatamento na Amazônia.

O episódio culminou na demissão do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, que veio a público defender o trabalho do instituto e criticar a postura do presidente. O Inpe monitora o desmatamento da Amazônia desde 1988.

Opositores da ditadura

Pessoas que têm alguma ligação com a oposição à ditadura militar, período abertamente defendido por Bolsonaro, também já foram alvo de acusações do presidente sem evidências.

Em um dos casos de maior repercussão, Bolsonaro afirmou que sabia como Fernando Santa Cruz — pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz — tinha desaparecido na ditadura.

Apesar de o atestado de óbito de Fernando informar que ele foi assassinado por integrantes do Estado depois de ter sido preso, Bolsonaro insinuou que ele teria sido vítima de "justiçamento" dentro da própria esquerda.

"Obtive essas informações com quem conversei na época, ora bolas. Eu conversava com muita gente na fronteira", disse o presidente ao explicar suas declarações. A versão de Bolsonaro contraria os documentos sobre Fernando produzidos pela própria ditadura.

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Felipe Santa Cruz cobrou explicações de Bolsonaro no STF (Supremo Tribunal Federal). O presidente respondeu que limitou-se a expor sua "convicção pessoal em função de conversas que circulavam à época".

Bolsonaro também enviou uma resposta ao Supremo depois que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) entrou com pedido de explicações sobre uma fala do presidente.

Em discurso nos Estados Unidos em maio, Bolsonaro sugeriu que Dilma participou de ações armadas na ditadura que resultaram na morte do militar americano Charles Chandler.

"Agora, quem até há pouco ocupava o governo teve em sua história suas mãos manchadas de sangue na luta armada, matando inclusive um capitão", disse o presidente.

Ao STF, Bolsonaro afirmou que foi "genérico" na declaração e que não fez referência a Dilma.

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