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Partidos repudiam falas de Bolsonaro, mas sem desembarques imediatos

7.set.2021 - Jair Bolsonaro em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na av. Paulista - DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
7.set.2021 - Jair Bolsonaro em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na av. Paulista Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

08/09/2021 16h35Atualizada em 09/09/2021 13h09

Diversos partidos e líderes partidários repudiaram as falas antidemocráticas e os ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em atos neste 7 de setembro em Brasília e em São Paulo. Apesar das discordâncias, nem todas as siglas vão desembarcar do governo, como o MDB e o PSL.

Como presidente nacional do MDB, Baleia Rossi (SP) divulgou texto em que afirma que Bolsonaro "erra ao usar o Dia da Independência para afrontar os outros Poderes" e "parece tentar se desviar dos problemas reais", como a inflação de alimentos e combustíveis, por exemplo.

Em seguida, Baleia diz que "o MDB respeita divergências programáticas, mas se aferra à Constituição que determina a independência harmônica entre os Poderes". Acrescenta ainda que, "contra isso, o próprio texto constitucional tem seus remédios em defesa da democracia, que é sinônimo da vontade do povo".

Apesar da nota dura contra Bolsonaro, o MDB conta com dissidentes que apoiam o atual governo. Senadores do partido também contam com alguns dos cargos mais importantes no Parlamento, como a liderança do governo no Congresso Nacional, nas mãos do senador Eduardo Gomes (MDB-TO), e a liderança do governo no Senado, nas mãos do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE).

A assessoria do MDB informou que os cargos de liderança do governo são de nomeação unilateral do presidente da República e que o partido não foi consultado sobre essas indicações.

Até o momento, conforme apurou o UOL, nenhum desses emedebistas está disposto a entregar o cargo ou desembarcar imediatamente do governo. O MDB deve se reunir nos próximos dias para discutir a situação do partido, mas, com a fragmentação atual —o relator da CPI da Covid é Renan Calheiros (MDB-AL), por exemplo—, integrantes da legenda ouvidos pela reportagem veem um cenário de indecisão e preferem não antecipar qual caminho tomarão.

Um parlamentar do partido afirmou haver muita insatisfação na base e entre militantes, mas uma possível entrega de cargos tampouco é discutida no grupo de senadores.

Outro disse que o MDB está numa situação "delicadíssima" e reconheceu que Bolsonaro está num "confronto muito franco". Contudo, argumentou também ser preciso discutir mais para saber como pensa a maioria do partido. Questionado, preferiu não se declarar governista ou opositor.

PSL e DEM divididos sobre apoio a Bolsonaro

O PSL lançou nota conjunta com o DEM repudiando "com veemência" o discurso de Bolsonaro "ao insurgir-se contra as instituições de nosso país".

Para as siglas, "se torna imperativo darmos um basta nas tensões políticas, nos ódios, conflitos e desentendimentos que colocam em xeque a democracia brasileira e nos impedem de darmos respostas efetivas os milhões de pais e mães de família angustiados [...]".

Entretanto, ambos os partidos vivem guerras internas quanto a seguir com Bolsonaro ou não.

Desde a saída de Bolsonaro do partido, em novembro de 2019, a bancada do PSL na Câmara vive uma situação de morde e assopra em meio às duas alas "inimigas" que a compõem. Os grupos se aproximam ou se distanciam de acordo com as conveniências políticas de ambos os lados.

Enquanto uma ala do PSL decide pela nota dura contra Bolsonaro, o líder do PSL na Câmara hoje é o deputado federal Major Vitor Hugo (GO), um dos principais membros da tropa de choque do presidente no Congresso. O PSL abriga ainda o deputado federal Eduardo Bolsonaro (SP), um dos filhos políticos do presidente da República.

Dessa forma, um desembarque por completo do PSL hoje perante o governo federal é visto como inexequível.

No DEM, parte dos parlamentares rompeu de vez com o governo, como Kim Kataguiri (SP) e Luis Miranda (DF) —este último responsável por denúncia contra possível corrupção no Ministério da Saúde durante a pandemia—, enquanto outra segue o ritmo de sinal amarelo do centrão.

Interesses políticos próprios e a falta de um distanciamento maior do DEM em relação ao Planalto foram, inclusive, motivos pelos quais o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), saiu do partido.

O PSDB reúne a Executiva Nacional hoje à tarde para definir uma posição contra as declarações de Bolsonaro.

Além de discutir as "gravíssimas declarações" do presidente, o diretório deverá debater um manifesto oficial da legenda e definir a atuação dos representantes do partido no Congresso. Uma provável pressão pela abertura de eventual pedido de impeachment de Bolsonaro, que depende do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deverá ser pautada na reunião.

Contudo, mais uma vez, não são todos do partido que defendem um acirramento dos ânimos contra Bolsonaro, como representantes ligados ao deputado federal Aécio Neves (MG).

Oposição busca reforçar frente pró-impeachment

A partir das manifestações de ontem, líderes de oposição querem reforçar a frente que pede o impeachment do presidente da República.

A expectativa é de que partidos de centro e de esquerda se reúnam virtualmente hoje à noite para discutir uma reação mais rápida a Bolsonaro e debater os próximos passos da campanha do impeachment.

O PDT, liderado por Carlos Lupi, informou terem confirmadas as presenças de Gleisi Hoffmann (PT), Roberto Freire (Cidadania); Carlos Siqueira (PSB); Gilberto Kassab (PSD); ACM Neto (DEM); Baleia Rossi (MDB); José Luiz Penna (PV); Luciana Santos (PCdoB); Juliano Medeiros (PSOL); e Paulinho da Força (Solidariedade).

Presidente nacional do PT e deputada federal, Gleisi Hoffmann (PR) considera que "não se trata de aderir a atos já marcados, mas de construirmos juntos o caminho" com outros partidos.

O partido Novo se declarou ontem oposição ao governo e defensor do impeachment, pelo Twitter. A sigla afirmou ainda que estará em protestos contra Bolsonaro previstos para 12 de setembro.

Em nota, o Podemos informou que seguirá "independente" e "votando no Congresso a favor e contra o governo, sempre que entender necessário, mantendo-se fiel às suas bandeiras, como o combate à corrupção e o fim do foro privilegiado, e vigilante pela preservação das instituições democráticas, rejeitando toda e qualquer bravata autoritária em todos os poderes".

Ao contrário de outros partidos de centro, o Podemos já descartou aderir ao movimento de impeachment de Bolsonaro sob a justificativa de que a medida causaria nova crise política em meio à pandemia e a dificuldades econômicas.

Impeachment não está na mira de Lira

O andamento de um pedido de impeachment não parecer estar no horizonte de Arthur Lira. Em discurso no início da tarde de hoje, o presidente da Câmara disse considerar não haver "mais espaço para radicalismos e excessos" no país.

Lira subiu o tom e declarou que "a Constituição jamais será rasgada" e que é hora de dar "um basta nas escaladas" conflituosas. Por outro lado, enviou um sinal de apaziguamento, se disse aberto a conversas a fim de tentar acalmar os ânimos e não citou eventual impeachment de Bolsonaro.

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