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Evasivo, Hang dribla perguntas sobre Prevent e Bolsonaro e irrita senadores

Hanrrikson de Andrade, Luciana Amaral, Thais Augusto e Isabella Cavalcante

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

28/09/2021 10h34Atualizada em 29/09/2021 20h30

Em depoimento tumultuado com brigas e críticas na CPI da Covid, o empresário Luciano Hang, dono da rede varejista Havan, foi evasivo e driblou hoje perguntas feitas pelos senadores sobre a operadora de saúde Prevent Senior —sob suspeita de série de irregularidades, inclusive de ter ocultado inicialmente a morte da mãe de Hang por covid-19— e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A atitude irritou parte dos senadores de oposição e independentes, que disseram ver o empresário como réu confesso, apesar das negativas de Hang.

O empresário admitiu possuir "duas ou três" contas bancárias no exterior, além de offshores em paraísos fiscais — sob a justificativa de tentar se proteger de variações bruscas do dólar. Afirmou, porém, que seu patrimônio é legal e negou financiar a disseminação de fake news sobre a pandemia do coronavírus .

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), porém, afirmou que a comissão tem indícios de que Hang usa contas no exterior para financiar fake news.

Segundo documentos obtidos pela CPI e divulgados pela TV Globo na semana passada, o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, acusado de espalhar fake news, conseguiu financiamento de Luciano Hang com a ajuda do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro.

Allan dos Santos, que é dono do canal conservador "Terça Livre", é investigado em dois inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal) por disseminação de fake news e ameaça e incitação ao crime contra autoridades.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) apresentou pedido para que a presidência da CPI solicite uma investigação sobre perfis nas redes sociais que estariam promovendo um "ataque sistemático por robôs" contra membros da comissão durante o depoimento de Hang. O pedido do senador foi aceito pela cúpula da comissão.

Dinheiro arrecadado para compra de kit covid

Hang admitiu ao senadores também que fez campanha ao lado de empresários em Brusque (SC), sua cidade natal, para arrecadar dinheiro para a compra de medicamentos do kit covid. Ele contou que o valor arrecadado foi doado a um hospital para a compra dos remédios —que são ineficazes contra a covid-19 de acordo com estudos científicos.

"Fiz, está na rede social. Fiz e doamos o dinheiro", disse Hang. Segundo o empresário, ele e colegas chegaram a ir a outros municípios que continham algum protocolo com o kit covid para "ver o que estava sendo feito nessas cidades que deu certo".

A CPI da Covid decidiu questionar o Ministério Público de Santa Catarina se este abriu algum tipo de procedimento sobre distribuição de kit covid, diante da situação.

Negacionismo e vacina

No curto período em que não houve interrupções ou troca de farpas entre os membros da comissão, Hang disse não ser negacionista e afirmou que não atuou no chamado gabinete paralelo —grupo informal que teria aconselhado Bolsonaro à revelia do Ministério da Saúde.

Hang se recusou a firmar o compromisso de não mentir à CPI —como ele consta na lista formal de investigados, tem direito a não aderir ao juramento — e disse que estava "com a verdade ao seu lado".

O empresário chegou ao depoimento no Senado acompanhado de tropa de choque governista, como o senador e filho do presidente da República, Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), e colegas de Casa Marcos Rogério (DEM-RO), Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Jorginho Mello (PL-SC) — também admitiu que esteve com o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), que é alvo da CPI.

Não sou negacionista, nunca neguei ou duvidei da doença. Tanto que minhas ações pró-saúde não ficaram só no discurso"
Luciano Hang, empresário

O dono da Havan disse também nunca ter se posicionado contra as vacinas da covid-19 — e, assim como o presidente, recorreu a argumento sem base científica (de que tem "índice de anticorpos altíssimo") para justificar porque não se vacinou

"Eu não sou e nunca fui contra a vacina, tanto que disponibilizei todos os nossos estacionamentos das nossas megalojas espalhadas pelo Brasil como pontos de vacinação. Além disso, juntamente com outros empresários fizemos campanha para que a iniciativa privada pudesse comprar para doar e ajudar o país a acelerar o processo de imunização ", disse.

Morte da mãe na Prevent Senior e 'kit covid'

Hang criticou suposto uso político da morte da mãe, Regina, por covid em um hospital da Prevent Senior. A rede é acusada por um grupo de 12 médicos e ex-médicos da instituição de ocultar mortes pela doença e tentar produzir um estudo clandestino para criar argumentos em favor de medicamentos do kit covid.

Em depoimento à CPI ontem, a advogada Bruna Morato, representante do grupo de profissionais da saúde contra a Prevent, disse que Regina Hang morreu de covid, diferentementedo que indicava o primeiro atestado de óbito. Ela morreu aos 82 anos em fevereiro deste ano.

De acordo com os denunciantes, a Prevent fraudou o atestado de óbito de Regina. A Prevent Senior nega o teor das acusações, as quais define como "sistemáticas e mentirosas".

Luciano Hang confirmou hoje que a mãe morreu por covid-19 e disse que houve um "erro do plantonista" no registro das informações. O empresário afirmou que soube do erro pela CPI e que então procurou a Prevent Senior para esclarecer o assunto.

"Achei estranho não estar na certidão, no óbito, mas eu, sinceramente, sou leigo, se vai o quê? Cheio de doenças, são cinco doenças lá colocadas, e não estava o pós-covid, mas aqui eles me provaram que foi colocado", disse.

O empresário negou que tenha pedido para haver alguma ocultação da doença no atestado de óbito da mãe.

"Olha só que loucura, imagina eu chamar o médico e dizer 'olha, não coloquem covid, porque eu tinha falado que ela estava o tempo todo no hospital com covid', para diminuir o número de notificação de covid. Uma coisa de louco, uma coisa fantasiosa", declarou.

Hang repetiu por diversas vezes que os senadores foram induzidos ao erro e, a exemplo de senadores governistas na CPI, disse que o colegiado "têm muitas narrativas, não provas".

"Segundo eles [Prevent], quem preencheu o atestado de óbito foi o plantonista. No dia seguinte, a comissão de controle de infecção hospitalar viu o erro do plantonista", disse. Não vejo interesse do hospital de mentir sobre a morte da minha mãe", afirmou.

Numa segunda declaração de óbito da mãe, disse Hang, é indicado que ela foi internada por covid-19 e morreu por complicações da doença. Ele entregou um documento relacionado ao caso para que a CPI tirasse cópia dos papéis. O depoente informou que a mãe era cardíaca, tinha diabetes e insuficiência renal.

Questionada pelo UOL, a Prevent Senior afirmou que o "caso em questão foi corretamente notificado como óbito por covid-19 às autoridades de saúde". A empresa não explicou, porém, informação de que o primeiro atestado teria omitido a doença.

Ao ser questionado sobre vídeo em que lamenta que a mãe não tinha feito "tratamento preventivo" contra a covid-19 — estimulando o uso de remédios ineficazes contra a doença —, Hang tentou diferenciar "tratamento preventivo" de "tratamento precoce", ambos não têm respaldo científico.

O primeiro, a seu ver, seria o uso de medicamentos antes de a pessoa ser infectada pelo novo coronavírus — para prevenir a doença, o que não existe hoje. O segundo seria o uso de medicamentos quando a pessoa já está infectada para evitar o desenvolvimento da covid-19, como a cloroquina, que não é eficaz contra a doença.

Hang disse que sua mãe tomou "cloroquina, ivermectina, azitromicina e vitaminas" em casa, antes de ser internada.

Desde dezembro de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que a hidroxicloroquina não seja usada por pacientes com qualquer grau de gravidade de covid. A organização também orienta desde março de 2021 que a ivermectina não seja administrada, a não ser em ensaios clínicos.

A OMS não tem uma diretriz para o uso de azitromicina. Uma pesquisa feita no Reino Unido ao longo de 2020 com mais de 7.000 participantes mostrou que, entre pacientes internados com covid, o medicamento não foi responsável por qualquer redução nos índices de mortalidade.

Briga, propaganda e críticas

A reunião de hoje na CPI da Covid aconteceu com muitos atritos e poucas respostas concretas às perguntas do relator, Renan Calheiros (MDB-AL). Após intenso bate-boca, na tentativa de apaziguar os ânimos, a audiência chegou a ser suspensa por volta de 12h. A retomada ocorreu cerca de 40 minutos depois.

Logo na abertura dos trabalhos, Hang foi autorizado a mostrar um vídeo institucional da Havan. A exibição rendeu críticas de colegas ao presidente da CPI, Omar Aziz, sob alegações de que o depoente teria tido permissão para fazer propaganda de sua empresa. Pouco depois, com a temperada elevada pelas discussões, Aziz teve a autoridade questionada.

O presidente da CPI rebateu: "Propaganda dá para rir e para chorar. Dependendo muito do depoimento, às vezes você na propaganda vai perder muito mais do que quando entrou aqui. Propaganda de loja dá para rir e dá para chorar".

Em seguida, o clima ficou ainda mais acalorado quando o senador Rogério Carvalho se desentendeu com um dos advogados de Hang.

O parlamentar acusou o advogado de ofendê-lo durante um embate verbal fora dos microfones e pediu que ele fosse retirado da oitiva. Aziz consentiu com o pleito e suspendeu a reunião para que a polícia do Senado procedesse com a ordem de expulsão.

Na retomada dos trabalhos, no entanto, a advogado pediu desculpas a Rogério Carvalho. Aziz autorizou que ele continuasse ao lado de Hang durante o depoimento.

Logo no início do depoimento, Renan Calheiros disse que "em todas as eras do nosso país houve a figura do bobo da corte, independentemente de trajes usados ao longo dos tempos".

Em outro momento, Omar Aziz questionou os interesses de Hang por trás da vestimenta verde e amarela que este costuma usar em público nos últimos anos de governo Bolsonaro e disse que seu uso não é por patriotismo. Flávio Bolsonaro questionou se Aziz queria promover um "assassinato de reputação".

Aziz ainda disse para Hang que, "com o seu dinheiro todo, você não tem dignidade para chegar aqui nessa CPI e admitir que induziu pessoas à morte". "Você está sendo indigno aqui", completou.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.