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Tratar coronavírus leva 3 meses, diz médico que pilota testes na França

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Imagem: iStock

31/03/2020 15h08

Os primeiros resultados dos testes clínicos do projeto de pesquisa europeu Discovery, que visa encontrar uma molécula eficaz no combate ao coronavírus, devem ser divulgados na próxima semana. Mas, mesmo que um dos tratamentos seja validado, sua produção em grande escala será complexa, de acordo com o infectologista francês Christian Rabaud, que pilota a pesquisa no hospital de Nancy, no nordeste da França, uma as regiões mais afetadas pelo coronavírus.

O projeto Discovery envolve 3.200 pacientes europeus da França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Reino Unido, Alemanha e Espanha, contaminados pela covid-19. Atualmente, 13 testes clínicos serão sendo realizados nos hospitais franceses, em cerca de 800 pacientes positivos internados, com sintomas severos.

Quatro moléculas estão sendo testadas desde o dia 22 de março: o lopinavir, um retroviral conhecido pela sua ação inibidora de protease viral, usado no tratamento contra o HIV, o interferon bêta, que modula a resposta imunológica do organismo (os chamados imunomoduladores) o Remdesivir, utilizado para combater o Ebola, e a cloroquina, remédio contra a Malária e o Lúpus.

Em entrevista à RFI Brasil, depois de mais um dia em que seu setor ficou lotado de pacientes em estado grave, o infectologista Christian Rabaud explicou que no hospital de Nancy cerca de dez deles já integraram o estudo. Não existe um limite para cada estabelecimento e os testes acontecem à medida que ocorrem as internações. As pessoas não poderão escolher o medicamento testado: um computador vai indicar aleatoriamente a qual grupo de teste o paciente estará associado.

"A inclusão dos pacientes ocorre rapidamente, em 15 dias teremos resultados intermediários que vão nos permitir avaliar efeitos positivos, nenhum efeito ou efeitos secundários", afirma. "O mundo aguarda esse resultado com impaciência", comenta Rabaud. "Independentemente da estratégia adotada e do númerode casos, se um medicamento funciona e a mortalidade desaparece, este é, claro, o cenário ideal."

De acordo com o infectologista francês, as quatro moléculas foram escolhidas depois de resultados positivos obtidos em testes in-vitro com animais. "Os estudos dirão se os efeitos são similares nos humanos, e com qual toxicidade. Mas os dados in-vitro nos permitem afirmar que essas moléculas são eficazes, resta saber se com a mesma força ou dependendo do estado em que se encontra o paciente."

Segundo o especialista francês, o Redemzivir, usado contra o Ebola, "parece bem superior às outras moléculas". Caso sua eficácia for comprovada, depois dessa primeira fase de testes, será necessário "afinar a dose e determinar o melhor momento para a prescrição", diz. Essas informações serão essenciais para definir a quantidade necessária de medicamentos que deverão ser produzidas.

Ele afirma que, exceto no caso da hidroxicloroquina, não existe estoque suficiente e as fábricas têm uma capacidade de produção limitada diante da propagação desenfreada da covid-19. "Precisa de fábricas, matéria-prima e mão de obra. Essa demanda aguda e totalmente imprevisível é complicada. Todo o sistema precisa de tempo para se adaptar", reitera o infectologista.

Confinamento evita escolher pacientes que vão viver

O especialista francês lembra que a disponibilidade das moléculas vai depender da indicação de prescrição. "Por isso precisamos saber, no estudo, em qual momento elas devem administradas. As formas severas correspondem a apenas 5% dos casos, o que torna a produção mais viável. Isso vai determinar o volume de medicamentos utilizados. Por isso o confinamento também é importante, para diminuir a velocidade da propagação do vírus e para dar tempo aos cientistas de encontrarem a melhor solução para enfrentar a pandemia.

O infectolologista francês se referiu ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que declarou recentemente que a vida não pode parar por conta da epidemia. "Não concordo com a visão do chefe de Estado brasileiro. Para mim, o confinamento é a boa solução", diz Christian Rabaud, lembrando que, se o Brasil e outros países não confinarem, a necessidade de descobrir rapidamente um tratamento eficaz se torna ainda maior.

A questão, ele relembra, é a rapidez da propagação e de formas severas. Ainda que 80% dos casos sejam benignos, 20% dos pacientes vão precisar ser internados e cerca de 5% dos contaminados desenvolverão formas graves, que deverão ser tratadas nas UTIs. "Eles podem sobreviver, mas precisam de um respirador. Nosso problema, aqui, é que não havíamos previsto essa demanda de respiradores e de medicamentos. Na França podemos tratar nas UTIs, com equipamentos pesados, 5 mil pessoas ao mesmo tempo", exemplifica.

Sem o confinamento, Rabaud explica que a previsão é que de 25 a 50 mil pessoas precisem de respiradores artificiais ao mesmo tempo no país. "A chance de sobrevivência, então, seria dada a apenas 10% dos casos grave. Cerca de 80% morreriam não porque não haveria nada para ser feito, mas porque não teríamos como fazer por falta de estrutura. Isso é que precisa ser evitado", diz.

Dar tempo para descoberta de tratamento e vacina

Apesar da situação difícil, o infectologista afirma que, dentro de alguns meses, um tratamento e uma vacina estarão disponíveis, mas antes, é preciso enfrentar os picos da epidemia dos próximos três meses, que devem atingir diferentes países. "Com sorte teremos um tratamento milagroso nesse prazo, mas ainda não é certo. No momento a prioridade é poder tratar os sintomas graves de quem vivencia essa situação difícil, para isso não pode haver casos demais, por isso insistimos na prevenção", conclui.

Estudo polêmico

Nesta terça-feira (31), a Agência Francesa do Medicamento anunciou que três mortes de pacientes contaminados e hospitalizados poderiam estar potencialmente ligadas a efeitos colaterais da cloroquina. Segundo a agência, serão feitas análises para confirmar a suspeita.

A cloroquina vem sendo alvo de uma polêmica envolvendo os estudos do médico francês Didier Raoult. Sua pesquisa mais recente, divulgada na sexta-feira (27), teve a participação de 80 pacientes. Segundo o especialista em doenças infecciosas, o resultado foi favorável para 80% dos doentes. O tratamento proposto pela sua equipe associa a hidroxocloroquina à azitromicina, um potente antibiótico.

A metodologia de Raoult, entretanto - principalmente o número de pacientes que participou do estudo - é contestada. "A diferença do projeto Discovery com os estudos apresentados pelo professor Raoult é que, em um teste clínico, os médicos e os doentes não sabem qual é a molécula que está sendo administrada", disse a ministra francesa do ensino superior, Frédérique Vidal em entrevista à France Info.

Segundo ela, é essencial ter resultados precisos, que sigam os protocolos científicos, obrigatórios para tratar, potencialmente "dezenas de milhares de pessoas". A ministra também garantiu que os laboratórios estão mobilizados para produzir as moléculas em grande quantidade.

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