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Baixo Clero #85 | Falas de Bolsonaro são estratégia para criar realidade paralela

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Gabriel Toueg

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/05/2021 04h00

A colunista do UOL Maria Carolina Trevisan diz que as falas aparentemente desconexas da realidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como uma em que ele voltou a responsabilizar a China pela "criação" do novo coronavírus, fazem parte de uma "estratégia" do mandatário. A declaração foi feita durante o programa desta semana do Baixo Clero, podcast de política do UOL, que vai ao ar agora aos sábados.

Ao comentar uma declaração do deputado Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, sobre o comentário de Bolsonaro sobre o país asiático, Trevisan disse que se trata de "uma estratégia de criar realidades paralelas, da qual seus seguidores mais fervorosos se sentem parte" (assista a partir do minuto 36:41 no vídeo acima). Segundo ela, Bolsonaro cria um caos para conseguir trabalhar. "Aí [o presidente] recua um pouco e fica parecendo razoável, mas na verdade ele não tem sido razoável em nenhum momento", disse.

Sem citar nominalmente a China ou apresentar provas, Bolsonaro disse na quarta-feira (5) que o vírus pode ter sido criado em laboratório. "É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado", declarou. "Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?", sugeriu Bolsonaro. "Qual o país que mais cresceu o seu PIB? Não vou dizer para vocês", afirmou. Entre as maiores economias, a China foi o país cujo PIB (Produto Interno Bruto) mais cresceu em 2020.

Em resposta, o deputado Pinato disse suspeitar de "grave doença mental" de Bolsonaro. Ele chegou inclusive a publicar nas redes sociais uma nota sugerindo "desvio de personalidade" e dizendo que o presidente "confunde realidade com ficção". Para o deputado, "estamos diante de um caso em que recomenda-se a interdição civil [de Bolsonaro] para tratamento médico".

Para Diogo Schelp, também colunista do UOL, as declarações de Bolsonaro dão a impressão de que ele é louco. Mas, segundo ele, "pode ser simplesmente um método político" (assista a partir de 33:26).

"Eu sempre comparo [Bolsonaro] com o [ditador venezuelano] Hugo Chávez. Mas a verdade é que Chávez era muito parecido, ele tinha sua própria live, na verdade uma transmissão em cadeia nacional aos domingos. [...] Ele ficava horas falando as maiores 'abobrinhas' que você pode imaginar, como a 'abobrinha' que Bolsonaro disse na live dele na quinta-feira dizendo que ele toma Coca-Cola para indisposição intestinal e que talvez tenha sido graças à Coca-Cola que ele tenha sobrevivido à facada do Adélio [Bispo da Silva]", disse.

Para Schelp, as falas do venezuelano eram uma forma de fazer uma conexão com as pessoas. "[Era uma maneira] de se apresentar, até no caso do Bolsonaro, uma forma de dizer assim: 'Oolha, eu defendo a cloroquina, mas é que eu sou ignorante, mesmo, é justificado, não podem me acusar de nenhum crime'", explicou o colunista.

"Talvez a Coca-Cola, meu bucho todo corroído, me salvou da facada do Adélio. Deem porrada em mim amanhã, Folha de S.Paulo, Globo, Estadão, IstoÉ, UOL. Deem porrada em mim!", disse o presidente, aproveitando para fazer novo ataque à imprensa.

Frigideira

Tradicional quadro do Baixo Clero, a Frigideira desta semana teve nomes de fora do Planalto, pela primeira vez em algumas semanas.

Para o colunista Diogo Schelp, seu personagem quase passou despercebido: "O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), no depoimento do [ex-ministro da Saúde Luiz Henrique] Mandetta, fez uma ode à cloroquina bem mais enfática do que a que fez, por exemplo, o senador Eduardo Girão (PODE-CE)", lembrou o colunista, ao mencionar os debates na CPI da Covid (assista a partir de 39:08).

"Heinze fez uma defesa da cloroquina, diante do Mandetta, de um caso no interior de Santa Catarina em que prescreveram cloroquina, deu tudo certo. E foi patético, vergonhoso, porque o Mandetta, que já tinha explicado que a cloroquina não pode ser considerado remédio [contra covid], que não vai resolver a pandemia, deu uma resposta bastante irônica, dizendo que 'a cidade encontrou a fórmula, mas tem que testar, tem que testar'", contou Schelp, lembrando que é preciso fazer estudos científicos. "Não é a situação anedótica de que 'conheço alguém que tomou' e pronto", disse.

Maria Carolina Trevisan contou que pensou em colocar Bolsonaro na Frigideira de novo, mas acabou fazendo a escolha pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que assumiu depois que Wilson Witzel sofreu impeachment no fim de abril. "Ele é o responsável pela Polícia Civil e pelas operações policiais", lembrando da desastrosa ação policial na comunidade do Jacarezinho, na quinta-feira (6), em que ao menos 28 pessoas morreram (assista a partir de 41:41).

"O que ele sinalizou não é razoável, de que [o desfecho da operação] é uma política de segurança pública, e na verdade uma chacina policial não é política de segurança pública, é uma violência que perpetua mais violência e que fortalece facções e milícias e não ajuda a população", disse Trevisan.

Segundo a colunista, o novo governador fluminense está sendo ainda mais letal que o antecessor, "que dizia que tem que mirar na cabecinha".

Schelp lembrou que a chacina ocorreu um dia depois de Castro ter se encontrado com Bolsonaro. "Não estou dizendo que uma coisa tem relação com a outra, mas o efeito é que a chacina acaba se sobrepondo às outras notícias que estão dominando o Brasil", disse o colunista, em referência à pandemia.

"Afirmava-se que [o número de mortos] estava em queda, já vemos números em alta novamente, o país caminhando para meio milhão de mortos, há estudos mostrando que já passamos desse número", cita, se referindo a números que consideram casos que não chegam aos hospitais.

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