Carlos Madeiro

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Estudo: Sobrecarga e exclusão de direitos agravam fome de mulheres negras

Mulheres negras que são chefes de família no Nordeste sofrem com a fome e a insegurança alimentar por razões que vão além da renda insuficiente, de acordo com um estudo produzido pela Associação Gênero e Número.

Dentre os fatores que pesam na rotina alimentar dessas famílias, estão:

  • A sobreposição de jornadas de trabalho;
  • A sobrecarga com tarefas de cuidados e afazeres domésticos;
  • O acesso precário a transporte público e a distância até pontos de comércio de alimentos;
  • A falta de acesso à saúde integral.

    Tudo isso influencia na aquisição e no consumo de alimentos. Queremos posicionar essas nordestinas no centro do debate pelo acesso à comida de verdade. As perspectivas de gênero, raça e território não devem ser um recorte, mas a base das políticas públicas de combate à fome no nosso país.
    Vitória Régia, presidente e diretora de conteúdo da Gênero e Número

    Para chegar às conclusões, o estudo acompanhou quatro mulheres negras que moram na periferia da Grande Recife e são excluídas de direitos como habitação e saúde. A partir das histórias de vida delas, a pesquisa levantou o impacto de fatores que pesam no orçamento e acabam tirando dinheiro dessas famílias para comprar produtos ou bens essenciais.

    O estudo combinou a experiência das mulheres com a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) de 2018, do IBGE, que aponta que 57% das famílias chefiadas por mulheres negras no Nordeste sofrem com algum tipo de insegurança alimentar (de leve a grave). A média nacional para o mesmo grupo populacional é de 51%.

    Percentual de insegurança alimentar de famílias chefiadas por mulheres negras no Nordeste
    Percentual de insegurança alimentar de famílias chefiadas por mulheres negras no Nordeste Imagem: Gênero e Número

    Em algumas categorias de insegurança alimentar, essa diferença chega a 25%, por exemplo, em comparação com outras. Então, os números oficiais já mostram que as mulheres negras chefes de família são as mais impactadas.
    Vitória Régia, presidente e diretora de conteúdo da Gênero e Número

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    Filhos que necessitam de cuidados especiais

    Maria da Conceição Mendes, 43, é uma das mulheres que foram acompanhadas pelo estudo. Ela mora em um barraco da ocupação 15 de Novembro, no bairro Arthur Lundgren 2, em Paulista (PE).

    Com dois filhos autistas e um com TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), ela se acostumou a fazer contas todo mês para ver quanto sobra para comprar comida. "Eu comprei meu barraco parcelado, por R$ 4.000, mas ainda devo R$ 1.500. Pago R$ 100 todo mês", diz.

    Conceição preparando o almoço na cozinha da horta comunitária da ocupação 15 de novembro, em Paulista (PE)
    Conceição preparando o almoço na cozinha da horta comunitária da ocupação 15 de novembro, em Paulista (PE) Imagem: João Velozo

    Conceição ganha R$ 700 de Bolsa Família. Ela ainda gasta mais R$ 135 em fraldas e remédios —como a área é de ocupação irregular, ela diz que não tem direito a receber os produtos pelo Poder Público.

    Eles dizem que aqui é área descoberta [pela atenção básica] e, por isso, não podem mandar fraldas [para os filhos]. A gente mora em um lugar precário, mas não está aqui porque quer, mas porque necessita.
    Maria da Conceição Mendes

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    Como o dinheiro que sobra fim de mês é pouco, ela admite que a maioria dos alimentos que dá a seus filhos são ultraprocessados, como salsichas e linguiças —que saem mais barato que carne.

    Sou mãe solteira, meus filhos não se alimentam do jeito que eu gostaria. E não consigo trabalhar, porque eu não posso deixar as crianças sozinhas. Estou lutando para ver se eu consigo aposentá-los [torná-los beneficiários do BPC, o Benefício de Prestação Continuada].
    Maria da Conceição Mendes

    Conceição ao lado do barraco onde mora, em uma ocupação irregular em Paulista, na Grande Recife
    Conceição ao lado do barraco onde mora, em uma ocupação irregular em Paulista, na Grande Recife Imagem: João Velozo

    Segundo Vitória Régia, o estudo mostrou que as mulheres negras sofrem mais que qualquer outro grupo da população e, na prática, isso é impactado pela exclusão de serviços.

    Ela cita que, nos nove estados do Nordeste, são mais de 6 milhões de mulheres negras responsáveis por suas famílias.

    Casos como o de Conceição mostram que a renda é importante, mas que não é o único fator.
    Vitória Régia

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    Mulher que teve rotina acompanhada pela pesquisa faz feijão para o almoço
    Mulher que teve rotina acompanhada pela pesquisa faz feijão para o almoço Imagem: João Velozo

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    Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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