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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Verdades' ou humilhação: o que esperar do discurso de Bolsonaro na ONU

Jair Bolsonaro durante o seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 2019 - Jeenah Moon/Bloomberg
Jair Bolsonaro durante o seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em 2019 Imagem: Jeenah Moon/Bloomberg
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

18/09/2021 04h00Atualizada em 18/09/2021 16h19

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, nesta sexta-feira (17), que vai dizer "verdades" em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, na semana que vem. Não quis dar detalhes de quais verdades seriam essas, para evitar, segundo ele, "distorções" da imprensa. Se seguir o padrão dos discursos anteriores, os brasileiros podem ir se preparando para escutar dele não verdades, mas fake news sobre a pandemia e alucinações ideológicas que farão o país mais uma vez passar vergonha em nível global.

"Na próxima terça-feira, estarei na ONU, participando com um discurso inicial daquele evento. Podem ter certeza, lá teremos verdades, realidade do que é o nosso Brasil e do que nós representamos verdadeiramente para o mundo", disse Bolsonaro em evento em Minas Gerais.

Já que o presidente não quer adiantar os temas que pretende tratar no discurso que abre a Assembleia Geral (tradicionalmente, os governantes brasileiros são os primeiros a falar), este colunista se arrisca a prever alguns deles.

O primeiro fato que é preciso saber a respeito dos discursos na ONU é que, quanto mais fraco politicamente um governante está dentro do seu país, maior a tendência de ele deixar de lado questões globais ou a tentativa de soar "diplomático" diante dos outros líderes. Em vez disso, o discurso costuma focar em questões domésticas, em atacar adversários dentro de casa e em exaltar as supostas conquistas internas do próprio governo.

Ou seja, Bolsonaro, que enfrenta um nível recorde de impopularidade, vai fazer um discurso calculado para causar impacto no público brasileiro, não na audiência internacional.

Isso, provavelmente, vai incluir referências à alegação de que ele teria impedido o Brasil de virar um país comunista — e de que sua reeleição é única forma de continuar barrando o "perigo vermelho".

Podemos esperar, também, que uma parte do discurso seja dedicada aos efeitos da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Bolsonaro possivelmente vai exaltar o programa de vacinação contra a covid-19, tentando vender a ideia (falsa) de que sempre trabalhou prioritariamente para comprar imunizantes — quando todos sabemos que o que ele queria mesmo era enfiar cloroquina e ivermectina goela abaixo da população e submetê-la à estratégia da imunização coletiva natural.

Se enveredar por essa retórica, a vergonha será dupla: pela falsa prioridade às vacinas e pelo fato de o próprio Bolsonaro se recusar a levar a agulhada, o que pode gerar um constrangimento diplomático na sua chegada a Nova York.

Bolsonaro dirá ou insinuará, também, que foi por uma atuação abusiva do Supremo Tribunal Federal (STF) e pela decisão arbitrária dos governadores dos estados que seu governo ficou de mãos amarradas, incapaz de impedir os danos econômicos da pandemia.

Essa alegação falsa virá acompanhada de previsões excessivamente otimistas em relação à recuperação da economia, saídas da lavra do ministro Paulo Guedes, e de uma ode ao auxílio emergencial e a outros programas para mitigar a queda na renda dos brasileiros.

Pela terceira vez consecutiva, o tema de relevância internacional mais presente no discurso de Bolsonaro na ONU deve ser a preservação ambiental. O presidente brasileiro, visando a agradar o americano Joe Biden, dirá que o seu governo reduziu o desmatamento na Amazônia nos últimos doze meses, em comparação com o período anterior.

A redução foi mínima. A projeção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgada no início deste mês é de uma área desmatada equivalente à dos doze meses anteriores, mas o presidente provavelmente vai trazer dados com um recorte mais positivo da realidade.

O tom adotado por Bolsonaro não deve destoar de seus discursos anteriores na ONU. Ou seja, teremos uma repetição da humilhação internacional vivida em 2019 e em 2020 na Assembleia Geral da ONU.

Ou alguém espera que Bolsonaro surpreenda e diga, realmente, alguma verdade para o mundo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL